VIVÊNCIAS MATERNAS DIANTE DO ADOECIMENTO ONCOLÓGICO SIMULTÂNEO DE DOIS FILHOS: UM ESTUDO DE CASO CLÍNICO EM CONTEXTO DE ONCOLOGIA PEDIÁTRICA

O diagnóstico de câncer infantil representa uma ruptura significativa na vida familiar, mobilizando intensamente o núcleo cuidador, especialmente as mães, que geralmente assumem o papel de cuidadora principal. Quando o adoecimento ocorre de forma simultânea em dois filhos, como nos casos raros de diagnósticos concomitantes, o impacto psicológico e social se intensifica consideravelmente, gerando uma sobrecarga emocional extrema e desafiando os recursos de enfrentamento da família. Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a vivência materna diante do adoecimento oncológico simultâneo de duas filhas, a partir do acompanhamento clínico realizado por psicóloga residente no Serviço de Psicologia Hospitalar do GRAACC, com uma mãe de quatro filhas, sendo duas diagnosticadas respectivamente com glioma difuso de tronco e retinoblastoma. Trata-se de um estudo de caso clínico qualitativo, de natureza exploratória e descritiva, baseado em registros de evolução psicológica no prontuário eletrônico (sistema Tasy), escuta clínica continuada e observações durante atendimentos e reuniões interdisciplinares. A análise do conteúdo foi orientada por referenciais da Psico-Oncologia, Psicodinâmica do Trauma e Análise de Discurso. Como destaca Orlandi (2007), “a análise do discurso visa à compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos”, permitindo acessar significados mais profundos das narrativas maternas sobre o processo de adoecimento. Verificamos que, diante da situação de extrema vulnerabilidade, a mãe apresentou sentimentos de medo, culpa, ambivalência e impotência, bem como sinais de exaustão física e psíquica. A escuta psicológica contínua possibilitou a elaboração parcial das angústias mobilizadas pela situação de duplo cuidado, contribuindo para o fortalecimento de estratégias de enfrentamento, assim como para a construção de um espaço de acolhimento e validação de seu sofrimento. A partir da experiência hospitalar, observamos a importância de intervenções psicológicas focadas na parentalidade em crise, com ênfase no acolhimento das demandas emocionais maternas frente às múltiplas internações, separações familiares e decisões difíceis impostas pelo contexto oncológico. Como destacam Fonseca, Silva e Coutinho (2020), o suporte psicológico contínuo é fundamental para promover maior adaptação à realidade do tratamento, favorecer o enfrentamento emocional e mitigar os impactos da sobrecarga vivida pelos cuidadores principais. Ressaltamos ainda a relevância da escuta qualificada como ferramenta terapêutica e de contenção psíquica em situações de sofrimento prolongado e sobrecarga. A experiência apresentada contribui para ampliar o olhar da Psicologia Hospitalar sobre os efeitos da sobrecarga emocional nas mães cuidadoras, sobretudo em contextos de adoecimento simultâneo de filhos, e reforça a importância do suporte psicológico especializado e contínuo como parte essencial do cuidado integral em oncologia pediátrica.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105372
Primary Topic
Palliative and Oncologic Care
Type
article
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VIVÊNCIAS MATERNAS DIANTE DO ADOECIMENTO ONCOLÓGICO SIMULTÂNEO DE DOIS FILHOS: UM ESTUDO DE CASO CLÍNICO EM CONTEXTO DE ONCOLOGIA PEDIÁTRICA

Cláudia Leite de Moraes, ABS Oliveira, Ana Cappellano, Ciro J. A. Macedo et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Palliative and Oncologic Care
article

VIVÊNCIAS MATERNAS DIANTE DO ADOECIMENTO ONCOLÓGICO SIMULTÂNEO DE DOIS FILHOS: UM ESTUDO DE CASO CLÍNICO EM CONTEXTO DE ONCOLOGIA PEDIÁTRICA

Cláudia Leite de Moraes, ABS Oliveira, Ana Cappellano, Ciro J. A. Macedo, Antonia Dı́az, MB Lemos, HBC Chiattone
article en

Abstract

O diagnóstico de câncer infantil representa uma ruptura significativa na vida familiar, mobilizando intensamente o núcleo cuidador, especialmente as mães, que geralmente assumem o papel de cuidadora principal. Quando o adoecimento ocorre de forma simultânea em dois filhos, como nos casos raros de diagnósticos concomitantes, o impacto psicológico e social se intensifica consideravelmente, gerando uma sobrecarga emocional extrema e desafiando os recursos de enfrentamento da família. Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a vivência materna diante do adoecimento oncológico simultâneo de duas filhas, a partir do acompanhamento clínico realizado por psicóloga residente no Serviço de Psicologia Hospitalar do GRAACC, com uma mãe de quatro filhas, sendo duas diagnosticadas respectivamente com glioma difuso de tronco e retinoblastoma. Trata-se de um estudo de caso clínico qualitativo, de natureza exploratória e descritiva, baseado em registros de evolução psicológica no prontuário eletrônico (sistema Tasy), escuta clínica continuada e observações durante atendimentos e reuniões interdisciplinares. A análise do conteúdo foi orientada por referenciais da Psico-Oncologia, Psicodinâmica do Trauma e Análise de Discurso. Como destaca Orlandi (2007), “a análise do discurso visa à compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos”, permitindo acessar significados mais profundos das narrativas maternas sobre o processo de adoecimento. Verificamos que, diante da situação de extrema vulnerabilidade, a mãe apresentou sentimentos de medo, culpa, ambivalência e impotência, bem como sinais de exaustão física e psíquica. A escuta psicológica contínua possibilitou a elaboração parcial das angústias mobilizadas pela situação de duplo cuidado, contribuindo para o fortalecimento de estratégias de enfrentamento, assim como para a construção de um espaço de acolhimento e validação de seu sofrimento. A partir da experiência hospitalar, observamos a importância de intervenções psicológicas focadas na parentalidade em crise, com ênfase no acolhimento das demandas emocionais maternas frente às múltiplas internações, separações familiares e decisões difíceis impostas pelo contexto oncológico. Como destacam Fonseca, Silva e Coutinho (2020), o suporte psicológico contínuo é fundamental para promover maior adaptação à realidade do tratamento, favorecer o enfrentamento emocional e mitigar os impactos da sobrecarga vivida pelos cuidadores principais. Ressaltamos ainda a relevância da escuta qualificada como ferramenta terapêutica e de contenção psíquica em situações de sofrimento prolongado e sobrecarga. A experiência apresentada contribui para ampliar o olhar da Psicologia Hospitalar sobre os efeitos da sobrecarga emocional nas mães cuidadoras, sobretudo em contextos de adoecimento simultâneo de filhos, e reforça a importância do suporte psicológico especializado e contínuo como parte essencial do cuidado integral em oncologia pediátrica.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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