AVALIAÇÃO DO LIMIAR DE DOR E PENSAMENTOS CATASTRÓfiCOS EM PACIENTES ADULTOS COM DOENÇA FALCIFORME

A dor é um dos mais importantes sintomas referidos pelos pacientes com doença falciforme (DF), impactando significativamente nas esferas funcional, financeira, psicológica e emocional dos indivíduos acometidos pela doença. Além dos aspectos fisiopatológicos, há uma interação complexa de fatores que podem afetar a percepção da dor, como alterações de humor, problemas emocionais, crenças negativas e pensamentos catastróficos (PC). Como resultado desses fatores, principalmente em relação aos PC, a dor pode ser interpretada como uma ameaça real, e uma reação exagerada pode ser iniciada em resposta a essa ameaça mantendo condições dolorosas, tornando-as mais incapacitantes do que a própria dor, levando a consequências físicas e psicológicas negativas. Este estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de PC em pacientes adultos com DF e sua associação com o limiar de dor (LD). Os participantes foram divididos em dois grupos de acordo com a gravidade da doença: genótipos que tendem a complicações mais graves (HbSS e HbSβ0) (G1) versus aqueles com menor gravidade (HbSC e HbSβ+) (G2). O LD foi avaliado por meio de algômetro digital de pressão e os PC foram avaliados pelo Questionário de Pensamentos Catastróficos (QPC), com escores variando entre 0 (melhor) e 5 (pior). O estudo incluiu 62 pacientes (43 mulheres e 19 homens), sendo 46 HbSS, 3 HbSβ0, 10 HbSC e 3 HbSβ+, com mediana de idade de 44,5 anos (28,0– 65,0). A mediana do LD na região lombar esquerda foi de 31,5 N (2,0–70,4) no G1 (n = 49) e 23,3 N (2,6–41,6) no G2 (n = 13) (p = 0,053), enquanto na lombar direita foi de 30,2 N (3,1–68,7) e 22,5 N (2,6–40,6), respectivamente (p = 0,061). Para o quadril esquerdo, os valores foram de 30,3 N (4,6–68,3) e 26,2 N (6,3–47,3) (p = 0,395), e para o quadril direito, de 34,2 N (4,5–69,2) e 32,2 N (8,1–55,8) (p = 0,581). O QPC mediano foi de 1,66 (0,22–5,00) no G1 e 1,44 (0,22–4,88) no G2 (p = 0,779). A análise de correlação entre os valores de LD nos diferentes pontos avaliados e o QPC não revelou associações significativas. Os achados sugerem que, independentemente da gravidade da DF, os pacientes apresentaram maior sensibilidade dolorosa em comparação a outras doenças, como hemofilia e osteoartrite. Os valores mais baixos de LD observados podem estar relacionados à sensibilização central, sugerindo alterações no processamento nociceptivo que contribuem para a cronificação da dor nessa população. Além disso, a convivência contínua com a dor, possivelmente, faz com os pacientes com DF desenvolvam mecanismos de enfrentamento que atenuam os PC frente à dor. Portanto, pacientes com DF apresentaram baixos níveis de PC e LD, sem correlação significativa entre essas variáveis. Tais resultados indicam que a sensibilidade dolorosa aumentada pode estar mais relacionada a mecanismos fisiopatológicos, como a sensibilização central, do que a fatores cognitivos avaliados.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104117
Primary Topic
Hemoglobinopathies and Related Disorders
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

AVALIAÇÃO DO LIMIAR DE DOR E PENSAMENTOS CATASTRÓfiCOS EM PACIENTES ADULTOS COM DOENÇA FALCIFORME

Rosa Mazza, STO Saad, Flávio Henrique Ferreira Galvão, BD Benites et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Hemoglobinopathies and Related Disorders
article

AVALIAÇÃO DO LIMIAR DE DOR E PENSAMENTOS CATASTRÓfiCOS EM PACIENTES ADULTOS COM DOENÇA FALCIFORME

Rosa Mazza, STO Saad, Flávio Henrique Ferreira Galvão, BD Benites, AL Lopes, MM Galafassi, BP Campelo, ALV Pansani, G Feldberg
article en

Abstract

A dor é um dos mais importantes sintomas referidos pelos pacientes com doença falciforme (DF), impactando significativamente nas esferas funcional, financeira, psicológica e emocional dos indivíduos acometidos pela doença. Além dos aspectos fisiopatológicos, há uma interação complexa de fatores que podem afetar a percepção da dor, como alterações de humor, problemas emocionais, crenças negativas e pensamentos catastróficos (PC). Como resultado desses fatores, principalmente em relação aos PC, a dor pode ser interpretada como uma ameaça real, e uma reação exagerada pode ser iniciada em resposta a essa ameaça mantendo condições dolorosas, tornando-as mais incapacitantes do que a própria dor, levando a consequências físicas e psicológicas negativas. Este estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de PC em pacientes adultos com DF e sua associação com o limiar de dor (LD). Os participantes foram divididos em dois grupos de acordo com a gravidade da doença: genótipos que tendem a complicações mais graves (HbSS e HbSβ0) (G1) versus aqueles com menor gravidade (HbSC e HbSβ+) (G2). O LD foi avaliado por meio de algômetro digital de pressão e os PC foram avaliados pelo Questionário de Pensamentos Catastróficos (QPC), com escores variando entre 0 (melhor) e 5 (pior). O estudo incluiu 62 pacientes (43 mulheres e 19 homens), sendo 46 HbSS, 3 HbSβ0, 10 HbSC e 3 HbSβ+, com mediana de idade de 44,5 anos (28,0– 65,0). A mediana do LD na região lombar esquerda foi de 31,5 N (2,0–70,4) no G1 (n = 49) e 23,3 N (2,6–41,6) no G2 (n = 13) (p = 0,053), enquanto na lombar direita foi de 30,2 N (3,1–68,7) e 22,5 N (2,6–40,6), respectivamente (p = 0,061). Para o quadril esquerdo, os valores foram de 30,3 N (4,6–68,3) e 26,2 N (6,3–47,3) (p = 0,395), e para o quadril direito, de 34,2 N (4,5–69,2) e 32,2 N (8,1–55,8) (p = 0,581). O QPC mediano foi de 1,66 (0,22–5,00) no G1 e 1,44 (0,22–4,88) no G2 (p = 0,779). A análise de correlação entre os valores de LD nos diferentes pontos avaliados e o QPC não revelou associações significativas. Os achados sugerem que, independentemente da gravidade da DF, os pacientes apresentaram maior sensibilidade dolorosa em comparação a outras doenças, como hemofilia e osteoartrite. Os valores mais baixos de LD observados podem estar relacionados à sensibilização central, sugerindo alterações no processamento nociceptivo que contribuem para a cronificação da dor nessa população. Além disso, a convivência contínua com a dor, possivelmente, faz com os pacientes com DF desenvolvam mecanismos de enfrentamento que atenuam os PC frente à dor. Portanto, pacientes com DF apresentaram baixos níveis de PC e LD, sem correlação significativa entre essas variáveis. Tais resultados indicam que a sensibilidade dolorosa aumentada pode estar mais relacionada a mecanismos fisiopatológicos, como a sensibilização central, do que a fatores cognitivos avaliados.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) (BR)
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Hemoglobinopathies and Related Disorders
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