REPROGRAMAÇÃO METABÓLICA IMPULSIONA RESISTÊNCIA ADQUIRIDA AO VENETOCLAX NA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA E REVELA VULNERABILIDADES TERAPÊUTICAS

Apesar do sucesso clínico do inibidor de BCL2 venetoclax na leucemia mieloide aguda (LMA), a aquisição de resistência ao tratamento surge frequentemente, levando a recaídas. Evidências indicam que a reprogramação metabólica contribui para essa resistência, mas os mecanismos ainda são pouco claros. Este estudo objetivou desenvolver e caracterizar modelos de LMA com resistência adquirida ao venetoclax e explorar vulnerabilidades metabólicas para abordagem terapêutica. Foram desenvolvidas duas linhagens resistentes (MV4-11VR e MOLM-13VR) por exposição intermitente a doses crescentes de venetoclax. A resistência foi avaliada por ensaios de viabilidade, apoptose (anexina V), potencial mitocondrial, ciclo celular e formação de colônias. A reprogramação metabólica foi analisada pela taxa de consumo de oxigênio (OCR) e acidificação extracelular (ECAR). Alterações moleculares e genômicas foram investigadas por transcriptoma, proteômica global e sequenciamento direcionado. Avaliou-se ainda o potencial terapêutico da combinação de venetoclax com metformina (inibidor do complexo I mitocondrial) e KPT-9274 (inibidor de NAMPT), por meio de escores de sinergia e apoptose. As células resistentes apresentaram IC50 > 200 vezes maior que as parentais, com redução da apoptose induzida, proliferação mantida e maior formação de colônias sob venetoclax. MV4-11VR mostrou aumento da glicólise, enquanto MOLM-13VR exibiu maior fosforilação oxidativa (p < 0,05). Proteômica e ensaios funcionais confirmaram o perfil metabólico distinto (FDR < 0,05). Molecularmente, MV4-11VR reduziu expressão de genes pró-apoptóticos (BAX, BCL2L11, BBC3, BIK e BNIP3), enquanto MOLM- 13VR aumentou MCL1 e BAD, reduzindo BID, PMAIP1 e BMF. Proteínas apoptóticas (PARP1 clivado) e danos ao DNA (γH2AX) foram menores em ambos os modelos após tratamento. BCL2 total manteve-se estável, e BCL-XL permaneceu nos resistentes, mas caiu nas parentais com o fármaco. Houve hiperativação da via PI3K/AKT/mTOR em ambos, indicada por maior fosforilação de RPS6. MV4-11VR teve redução e MOLM-13VR aumento da ativação ERK1/2. Geneticamente, MV4-11VR adquiriu mutação TP53 (R158H), expansão clonal da mutação TP53 R248W e deleção parcial de TP53; MOLM-13VR apresentou mutação truncante em SPEN (I1326*) e trissomia 5, indicando mecanismos distintos de resistência. Terapeuticamente, as células foram parcialmente sensíveis à metformina e KPT-9274. A combinação com venetoclax aumentou significativamente a apoptose, com sinergia forte para venetoclax + KPT-9274 (escores ZIP até 13,86), eliminando >95% das células resistentes, demonstrando que dependências metabólicas podem ser alvo para restaurar a sensibilidade. A resistência adquirida ao venetoclax na LMA envolve reprogramação metabólica heterogênea, mas com vulnerabilidades terapêuticas exploráveis. As adaptações metabólicas e moleculares distintas evidenciam a complexidade da resistência, porém a ativação comum de vias de sobrevivência e a plasticidade metabólica criam alvos para inibidores mitocondriais ou da biossíntese de NAD+. Estes achados apoiam estratégias combinatórias focadas em apoptose e metabolismo para superar a resistência ao venetoclax na LMA. FAPESP, CAPES e CNPq.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104649
Primary Topic
Acute Myeloid Leukemia Research
Type
article
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REPROGRAMAÇÃO METABÓLICA IMPULSIONA RESISTÊNCIA ADQUIRIDA AO VENETOCLAX NA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA E REVELA VULNERABILIDADES TERAPÊUTICAS

Marcella Cipelli, João Agostinho Machado‐Neto, Victoria Tomaz, Eduardo Magalhães Rego et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Acute Myeloid Leukemia Research
article

REPROGRAMAÇÃO METABÓLICA IMPULSIONA RESISTÊNCIA ADQUIRIDA AO VENETOCLAX NA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA E REVELA VULNERABILIDADES TERAPÊUTICAS

Marcella Cipelli, João Agostinho Machado‐Neto, Victoria Tomaz, Eduardo Magalhães Rego, K Lima, Rafael Lucas Muniz Guedes, GN Queiroz, NOS Câmara, LV Costa-Lotuo, LGF Cortez, MdF Basto-Silva, PV Campregher
article en

Abstract

Apesar do sucesso clínico do inibidor de BCL2 venetoclax na leucemia mieloide aguda (LMA), a aquisição de resistência ao tratamento surge frequentemente, levando a recaídas. Evidências indicam que a reprogramação metabólica contribui para essa resistência, mas os mecanismos ainda são pouco claros. Este estudo objetivou desenvolver e caracterizar modelos de LMA com resistência adquirida ao venetoclax e explorar vulnerabilidades metabólicas para abordagem terapêutica. Foram desenvolvidas duas linhagens resistentes (MV4-11VR e MOLM-13VR) por exposição intermitente a doses crescentes de venetoclax. A resistência foi avaliada por ensaios de viabilidade, apoptose (anexina V), potencial mitocondrial, ciclo celular e formação de colônias. A reprogramação metabólica foi analisada pela taxa de consumo de oxigênio (OCR) e acidificação extracelular (ECAR). Alterações moleculares e genômicas foram investigadas por transcriptoma, proteômica global e sequenciamento direcionado. Avaliou-se ainda o potencial terapêutico da combinação de venetoclax com metformina (inibidor do complexo I mitocondrial) e KPT-9274 (inibidor de NAMPT), por meio de escores de sinergia e apoptose. As células resistentes apresentaram IC50 > 200 vezes maior que as parentais, com redução da apoptose induzida, proliferação mantida e maior formação de colônias sob venetoclax. MV4-11VR mostrou aumento da glicólise, enquanto MOLM-13VR exibiu maior fosforilação oxidativa (p < 0,05). Proteômica e ensaios funcionais confirmaram o perfil metabólico distinto (FDR < 0,05). Molecularmente, MV4-11VR reduziu expressão de genes pró-apoptóticos (BAX, BCL2L11, BBC3, BIK e BNIP3), enquanto MOLM- 13VR aumentou MCL1 e BAD, reduzindo BID, PMAIP1 e BMF. Proteínas apoptóticas (PARP1 clivado) e danos ao DNA (γH2AX) foram menores em ambos os modelos após tratamento. BCL2 total manteve-se estável, e BCL-XL permaneceu nos resistentes, mas caiu nas parentais com o fármaco. Houve hiperativação da via PI3K/AKT/mTOR em ambos, indicada por maior fosforilação de RPS6. MV4-11VR teve redução e MOLM-13VR aumento da ativação ERK1/2. Geneticamente, MV4-11VR adquiriu mutação TP53 (R158H), expansão clonal da mutação TP53 R248W e deleção parcial de TP53; MOLM-13VR apresentou mutação truncante em SPEN (I1326*) e trissomia 5, indicando mecanismos distintos de resistência. Terapeuticamente, as células foram parcialmente sensíveis à metformina e KPT-9274. A combinação com venetoclax aumentou significativamente a apoptose, com sinergia forte para venetoclax + KPT-9274 (escores ZIP até 13,86), eliminando >95% das células resistentes, demonstrando que dependências metabólicas podem ser alvo para restaurar a sensibilidade. A resistência adquirida ao venetoclax na LMA envolve reprogramação metabólica heterogênea, mas com vulnerabilidades terapêuticas exploráveis. As adaptações metabólicas e moleculares distintas evidenciam a complexidade da resistência, porém a ativação comum de vias de sobrevivência e a plasticidade metabólica criam alvos para inibidores mitocondriais ou da biossíntese de NAD+. Estes achados apoiam estratégias combinatórias focadas em apoptose e metabolismo para superar a resistência ao venetoclax na LMA. FAPESP, CAPES e CNPq.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de São Paulo (BR), Hospital Israelita Albert Einstein (BR), Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (BR)
Openalex Percentile: Top 59%
Acute Myeloid Leukemia Research
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