UM OLHAR SOBRE A DEFICIÊNCIA DE FERRO SUBCLÍNICA NOS PRIMEIROS 1000 DIAS E O IMPACTO NO NEURODESENVOLVIMENTO INFANTIL: REVISÃO INTEGRATIVA

Os primeiros 1.000 dias de vida, do período fetal aos primeiros 2 anos, constituem uma janela crítica para o desenvolvimento cerebral, sendo a atuação do ferro essencial na mielinização, na síntese de neurotransmissores e no metabolismo energético. Em muitos casos a Deficiência de Ferro (DF) é considerada grave quando caracterizada pelo quadro de anemia, entretanto, já existem evidências que a DF afeta a função cerebral muito antes do aparecimento dos sintomas anêmicos. Portanto, são essenciais a prevenção, o rastreamento e o tratamento da DF não anêmica e pré-anêmica para a proteção do cérebro. O presente estudo tem como objetivo revisar e sintetizar as evidências científicas sobre a deficiência de ferro subclínica nos primeiros 1000 dias de vida, explorando seus determinantes e abordando as consequências duradouras para o desenvolvimento neurológico infantil. A pesquisa foi estruturada pela estratégia PICO: População, Intervenção, Efeito Comparador e Desfechos (outcomes), respectivamente: crianças nos primeiros 1000 dias de vida, deficiência de ferro subclínica, crianças sem deficiência de ferro e/ou desenvolvimento adequado e impactos no neurodesenvolvimento infantil. Foi conduzida uma revisão integrativa nas bases PubMed e UpToDate utilizando os descritores “ iron deficiency ”, “ subclinical iron deficiency ”, “ first 1000 days ” e “ neurodevelopment ” combinados por operadores booleanos OR e AND. Os critérios de inclusão foram artigos originais e de revisão publicados entre 2020 e 2025, em inglês ou português, sobre a deficiência de ferro subclínica nos primeiros 1000 dias e repercussões no neurodesenvolvimento infantil. Excluíram-se estudos com foco exclusivo em anemia, em adultos ou em modelos animais. Após a aplicação da estratégia de pesquisa foram 33 estudos identificados, 26 classificados como potencialmente relevantes e 11 escolhidos após a 2ª análise. A seleção dos dados foi realizada de forma independente por quatro revisores. Dentre os 11 estudos captados, a DF nos primeiros mil dias mostrou prevalências de 30%‒60%. Em 60% dos estudos feitos em diversos países, a ferritina materna indicou melhor neurodesenvolvimento nos filhos de mães com bom status de ferro conforme testes padronizados de funcionamento neural. Ainda, observou-se que 40%‒60% dos recém-natos de mães anêmicas por DF tinham reservas prejudicadas, mesmo sem clínica. A ferritina < 13,4 μg/L foi considerada limiar crítico para as reservas fetais, impactando na disponibilidade de ferro para o desenvolvimento cerebral. Ensaios clínicos mostraram que o clampeamento tardio (≥ 180s) reduziu atrasos em motricidade fina (11,0% para 3,7%) e em tarefa motora (12,9% para 3,8%) em meninos aos 4-anos; em meninas, reduziu o risco de atraso motor aos 3-anos. Em prematuros, a DF associou-se a déficits motores, de memória e de desenvolvimento, muitos não revertidos com suplementação. Apesar da conhecida importância do ferro, há divergências quanto à eficácia da suplementação profilática, possivelmente pela desconformidade amostral, já que a medida parece impactar mais grupos sem um bom status nutricional. Como o ferro é destinado primeiramente à síntese de hemoglobina, antes do cérebro e dos demais órgãos, sua depleção leva a prejuízos cerebrais antes de surgir o quadro anêmico. Assim, é imperativo rastrear as DFs precocemente, integrando a políticas públicas de saúde, para minimizar os déficits de neurodesenvolvimento decorrentes da deficiência, mesmo que subclínica, do micronutriente.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105095
Primary Topic
Maternal and Neonatal Healthcare
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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JUL
AUG
SEP
OCT
article

UM OLHAR SOBRE A DEFICIÊNCIA DE FERRO SUBCLÍNICA NOS PRIMEIROS 1000 DIAS E O IMPACTO NO NEURODESENVOLVIMENTO INFANTIL: REVISÃO INTEGRATIVA

Pedro Luís da Costa Aguiar Alves, Ama M. N. Simões, Márcia Maria Couto Mello, FTNM Achá
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Maternal and Neonatal Healthcare
article

UM OLHAR SOBRE A DEFICIÊNCIA DE FERRO SUBCLÍNICA NOS PRIMEIROS 1000 DIAS E O IMPACTO NO NEURODESENVOLVIMENTO INFANTIL: REVISÃO INTEGRATIVA

Pedro Luís da Costa Aguiar Alves, Ama M. N. Simões, Márcia Maria Couto Mello, FTNM Achá
article en

Abstract

Os primeiros 1.000 dias de vida, do período fetal aos primeiros 2 anos, constituem uma janela crítica para o desenvolvimento cerebral, sendo a atuação do ferro essencial na mielinização, na síntese de neurotransmissores e no metabolismo energético. Em muitos casos a Deficiência de Ferro (DF) é considerada grave quando caracterizada pelo quadro de anemia, entretanto, já existem evidências que a DF afeta a função cerebral muito antes do aparecimento dos sintomas anêmicos. Portanto, são essenciais a prevenção, o rastreamento e o tratamento da DF não anêmica e pré-anêmica para a proteção do cérebro. O presente estudo tem como objetivo revisar e sintetizar as evidências científicas sobre a deficiência de ferro subclínica nos primeiros 1000 dias de vida, explorando seus determinantes e abordando as consequências duradouras para o desenvolvimento neurológico infantil. A pesquisa foi estruturada pela estratégia PICO: População, Intervenção, Efeito Comparador e Desfechos (outcomes), respectivamente: crianças nos primeiros 1000 dias de vida, deficiência de ferro subclínica, crianças sem deficiência de ferro e/ou desenvolvimento adequado e impactos no neurodesenvolvimento infantil. Foi conduzida uma revisão integrativa nas bases PubMed e UpToDate utilizando os descritores “ iron deficiency ”, “ subclinical iron deficiency ”, “ first 1000 days ” e “ neurodevelopment ” combinados por operadores booleanos OR e AND. Os critérios de inclusão foram artigos originais e de revisão publicados entre 2020 e 2025, em inglês ou português, sobre a deficiência de ferro subclínica nos primeiros 1000 dias e repercussões no neurodesenvolvimento infantil. Excluíram-se estudos com foco exclusivo em anemia, em adultos ou em modelos animais. Após a aplicação da estratégia de pesquisa foram 33 estudos identificados, 26 classificados como potencialmente relevantes e 11 escolhidos após a 2ª análise. A seleção dos dados foi realizada de forma independente por quatro revisores. Dentre os 11 estudos captados, a DF nos primeiros mil dias mostrou prevalências de 30%‒60%. Em 60% dos estudos feitos em diversos países, a ferritina materna indicou melhor neurodesenvolvimento nos filhos de mães com bom status de ferro conforme testes padronizados de funcionamento neural. Ainda, observou-se que 40%‒60% dos recém-natos de mães anêmicas por DF tinham reservas prejudicadas, mesmo sem clínica. A ferritina < 13,4 μg/L foi considerada limiar crítico para as reservas fetais, impactando na disponibilidade de ferro para o desenvolvimento cerebral. Ensaios clínicos mostraram que o clampeamento tardio (≥ 180s) reduziu atrasos em motricidade fina (11,0% para 3,7%) e em tarefa motora (12,9% para 3,8%) em meninos aos 4-anos; em meninas, reduziu o risco de atraso motor aos 3-anos. Em prematuros, a DF associou-se a déficits motores, de memória e de desenvolvimento, muitos não revertidos com suplementação. Apesar da conhecida importância do ferro, há divergências quanto à eficácia da suplementação profilática, possivelmente pela desconformidade amostral, já que a medida parece impactar mais grupos sem um bom status nutricional. Como o ferro é destinado primeiramente à síntese de hemoglobina, antes do cérebro e dos demais órgãos, sua depleção leva a prejuízos cerebrais antes de surgir o quadro anêmico. Assim, é imperativo rastrear as DFs precocemente, integrando a políticas públicas de saúde, para minimizar os déficits de neurodesenvolvimento decorrentes da deficiência, mesmo que subclínica, do micronutriente.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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