LEISHMANIOSE VISCERAL EM PACIENTE COM LEUCEMIA AGUDA DE FENÓTIPO MISTO: RELATO DE CASO

A Leishmaniose visceral é doença potencialmente fatal com prevalência no norte e nordeste do Brasil com transmissão causada pela picada de flebotomíneos, enquanto que a Leucemia aguda de fenótipo misto é um subtipo raro de leucemia aguda com coexistência de marcadores celulares mieloides e linfoides, de causa não muito bem esclarecida, mas que envolve fatores genéticos e ambientais. Esta última é subdividida em bifenotípica, quando uma mesma população de blastos expressa marcadores de mais de uma linhagem, e em bilinear, quando dois grupos de blastos preenchem os critérios de diferentes linhagens. A ocorrência das duas doenças é rara e este caso clínico serve de alerta para o diagnóstico diferencial em áreas endêmicas desta associação, uma vez que a leishmaniose também apresenta alterações hematológicas importantes. Mulher, 68a, leucemia aguda bilinear diagnosticada em maio de 2024 (mielograma 75% de blastos mieloides), imunofenotipagem de medula óssea blastos mieloides 47% e linfoides B 18,3%, cariótipo 45,XX,-7[5]/46,XX[15], pesquisa da mutação BCR-ABL p190 negativa, alto risco de reativação de vírus B pelo perfil sorológico (anti-HBC total reagente e HbsAg negativo), iniciado entecavir profilático e esquema alternativo de tratamento quimioterápico em paciente idosa (Viale A: Venetoclax + Azacitidina). Após 3 ciclos, evoluiu com citopenias intensas e sustentadas. Avaliação de resposta em setembro de 2024 mostrou estudo de Doença Residual Mínima (DRM) com 5,37% de blastos mieloides e subpopulações linfocitárias dentro da normalidade, porém mielograma com 16% de blastos e grandes grupos de leishmanias. Realizou tratamento específico para leishmaniose visceral com anfotericina B convencional por 2 dias iniciais e os próximos 7 dias seguintes anfotericina B lipossomal, sendo reiniciado protocolo quimioterápico em sequência apenas com venetoclax devido falta de abastecimento da azacitidina nesse período (via judicial). Persistiu as citopenias intensas nos meses seguintes, e a nova reavaliação de medula óssea em março de 2025 não identificou parasitas, porém visualizou 31% de blastos mieloides pelo mielograma, e 13% de monoblastos, 7,45% de blastos mieloides e 2,44% linfoides, com um total de 22,97% de células imaturas na avaliação de DRM. Realizado troca de esquema para protocolo Viale-C, porém paciente após cerca de 10 dias teve quadro de neutropenia febril grave e choque séptico, evoluindo com acidose metabólica severa, refratária a medidas intensivas, com óbito em abril de 2025. A leucemia aguda bilinear é um subtipo raro de leucemia que nesta paciente ao longo de seu tratamento evoluiu com infecção por leishmania sp, cuja única manifestação clínica foi piora das citopenias no hemograma. Esta acomete pacientes imunossuprimidos, com mortalidade em torno de 10%, o que torna importante a suspeição do diagnóstico diferencial. A similaridade da sintomatologia entre as duas doenças podem dificultar a suspeição clínica inicial. Este relato de caso reforça a importância de reavaliação medular principalmente quando pacientes mudam o padrão dos índices hematimétricos, principalmente em regiões endêmicas.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104561
Primary Topic
Research on Leishmaniasis Studies
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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LEISHMANIOSE VISCERAL EM PACIENTE COM LEUCEMIA AGUDA DE FENÓTIPO MISTO: RELATO DE CASO

AQMS Aroucha, J Severo, Betania Silva Carneiro Campello, CCdL Silva et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Research on Leishmaniasis Studies
article

LEISHMANIOSE VISCERAL EM PACIENTE COM LEUCEMIA AGUDA DE FENÓTIPO MISTO: RELATO DE CASO

AQMS Aroucha, J Severo, Betania Silva Carneiro Campello, CCdL Silva, TR Evangelista, HC Moura, VECB Dantas, MCDM Cahu, LGF Lima, MFH Costa
article en

Abstract

A Leishmaniose visceral é doença potencialmente fatal com prevalência no norte e nordeste do Brasil com transmissão causada pela picada de flebotomíneos, enquanto que a Leucemia aguda de fenótipo misto é um subtipo raro de leucemia aguda com coexistência de marcadores celulares mieloides e linfoides, de causa não muito bem esclarecida, mas que envolve fatores genéticos e ambientais. Esta última é subdividida em bifenotípica, quando uma mesma população de blastos expressa marcadores de mais de uma linhagem, e em bilinear, quando dois grupos de blastos preenchem os critérios de diferentes linhagens. A ocorrência das duas doenças é rara e este caso clínico serve de alerta para o diagnóstico diferencial em áreas endêmicas desta associação, uma vez que a leishmaniose também apresenta alterações hematológicas importantes. Mulher, 68a, leucemia aguda bilinear diagnosticada em maio de 2024 (mielograma 75% de blastos mieloides), imunofenotipagem de medula óssea blastos mieloides 47% e linfoides B 18,3%, cariótipo 45,XX,-7[5]/46,XX[15], pesquisa da mutação BCR-ABL p190 negativa, alto risco de reativação de vírus B pelo perfil sorológico (anti-HBC total reagente e HbsAg negativo), iniciado entecavir profilático e esquema alternativo de tratamento quimioterápico em paciente idosa (Viale A: Venetoclax + Azacitidina). Após 3 ciclos, evoluiu com citopenias intensas e sustentadas. Avaliação de resposta em setembro de 2024 mostrou estudo de Doença Residual Mínima (DRM) com 5,37% de blastos mieloides e subpopulações linfocitárias dentro da normalidade, porém mielograma com 16% de blastos e grandes grupos de leishmanias. Realizou tratamento específico para leishmaniose visceral com anfotericina B convencional por 2 dias iniciais e os próximos 7 dias seguintes anfotericina B lipossomal, sendo reiniciado protocolo quimioterápico em sequência apenas com venetoclax devido falta de abastecimento da azacitidina nesse período (via judicial). Persistiu as citopenias intensas nos meses seguintes, e a nova reavaliação de medula óssea em março de 2025 não identificou parasitas, porém visualizou 31% de blastos mieloides pelo mielograma, e 13% de monoblastos, 7,45% de blastos mieloides e 2,44% linfoides, com um total de 22,97% de células imaturas na avaliação de DRM. Realizado troca de esquema para protocolo Viale-C, porém paciente após cerca de 10 dias teve quadro de neutropenia febril grave e choque séptico, evoluindo com acidose metabólica severa, refratária a medidas intensivas, com óbito em abril de 2025. A leucemia aguda bilinear é um subtipo raro de leucemia que nesta paciente ao longo de seu tratamento evoluiu com infecção por leishmania sp, cuja única manifestação clínica foi piora das citopenias no hemograma. Esta acomete pacientes imunossuprimidos, com mortalidade em torno de 10%, o que torna importante a suspeição do diagnóstico diferencial. A similaridade da sintomatologia entre as duas doenças podem dificultar a suspeição clínica inicial. Este relato de caso reforça a importância de reavaliação medular principalmente quando pacientes mudam o padrão dos índices hematimétricos, principalmente em regiões endêmicas.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Pernambuco (BR), Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (BR)
Openalex Percentile: Top 58%
Research on Leishmaniasis Studies
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