COAGULOPATIA INTRAVASCULAR DISSEMINADA COMO MARCADOR DE MORTALIDADE PRECOCE NA LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA NÃO PROMIELOCÍTICA: UM RELATO DE CASO
A coagulopatia intravascular disseminada (CIVD) é uma complicação significativa em até 21% das leucemias mieloides agudas (LMA) não promielocíticas, configurando uma emergência médica. A CIVD é um fator de risco independente para mortalidade precoce, com taxas superiores a 40% em 30 dias (vs. <10% em pacientes sem a complicação), além de aumentar o risco de sangramentos e tromboses. O escore ISTH-DIC surge como uma ferramenta simples que pode auxiliar no diagnóstico e prognóstico de pacientes que apresentem CIVD. Sua pontuação se baseia na contagem de plaquetas, fibrinogênio, tempo de protrombina e D-dímero. O reconhecimento e manejo imediatos, com suporte transfusional e tratamento da LMA, são cruciais. Este estudo ilustra, por meio de um relato de caso, o impacto prognóstico adverso da CIVD em um paciente com LMA de alto risco. J.G., 63 anos, admitido em 20/09/2022 com quadro de duas semanas de sintomas gripais. O hemograma inicial revelou leucopenia (2.830/mm 3 ) com 18% de blastos, plaquetopenia (67.000/mm 3 ) e anemia (Hb 10,8 g/dL). A investigação diagnóstica confirmou LMA secundária a síndrome mielodisplásica (SMD) com 40% de blastos medulares e cariótipo complexo de alto risco, incluindo del(7q) e t(1;11). O coagulograma (TAP 16s, TTPa prolongado, plaquetas 53.000/mm 3 ) firmou o diagnóstico de CIVD associada, um achado que, em conjunto com a citogenética, já sinalizava um prognóstico reservado. A evolução foi marcada pela refratariedade da doença e múltiplas complicações. O paciente não atingiu remissão após os protocolos de quimioterapia "7+3" e "VIALE-C". As principais intercorrências incluíram choque séptico por Staphylococcus haemolyticus, fibrilação atrial de alta resposta (revertida quimicamente), surgimento de hematoma extenso em dorso e insuficiência renal aguda. Diante da doença incurável, a equipe optou por medidas de conforto, sem indicação de terapias invasivas. Este caso ilustra de forma contundente a associação entre CIVD, LMA de alto risco e desfecho desfavorável. A apresentação inicial do paciente, com a coexistência de um cariótipo complexo e CIVD, personifica os desafios descritos na literatura e antecipou a agressividade biológica da doença. A refratariedade aos dois regimes terapêuticos e as graves complicações subsequentes podem ser vistas como consequência direta dessa biologia adversa. Embora o manejo da CIVD e das infecções tenha sido realizado prontamente, o desfecho foi determinado pela incapacidade de controlar a leucemia, evidenciando que o tratamento da coagulopatia é um suporte essencial, mas paliativo, se a remissão não for alcançada. Este relato reforça que a CIVD em LMA não promielocítica é um marcador de mau prognóstico, e seu manejo deve ser integrado ao tratamento antileucêmico, do qual o prognóstico final permanece intrinsecamente dependente.
Authors
- Fernando de Almeida Borges (ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8888-6269)
- P Mendes (ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7759-4247)
- A. J. do Amaral
- Tiago E. Oliveira (ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2801-4637)
- VAM Funke
- HV Leal
- LR Saviscki
- LS Quinelato
- CL Brenner Burda
- BMMS Herlain
- MK Kersul
- H Borato
Institutions
- Hospital de Clínicas Universidade Federal do Paraná (BR)
- Universidade Federal do Paraná (BR)
Publication Details
- Journal
- Hematology Transfusion and Cell Therapy
- Published
- 2025-10-01
- DOI
- https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104519
- Primary Topic
- Acute Myeloid Leukemia Research
- Type
- article
- Field-Weighted Citation Impact
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