GERENCIAMENTO DO SANGUE DO PACIENTE NA CIRURGIA CARDIOVASCULAR BRASILEIRA: COMPREENSÃO, PRÁTICA E BARREIRAS DE IMPLEMENTAÇÃO SEGUNDO A PERSPECTIVA DOS CIRURGIÕES

O Gerenciamento do Sangue do Paciente (Patient Blood Management, PBM) é uma estratégia centrada no paciente, comprovadamente eficaz na melhoria de desfechos clínicos e na redução de riscos transfusionais, por meio da preservação e do uso racional do sangue do próprio paciente. Pouco se fala sobre a implementação do PBM em hospitais brasileiros, especialmente naqueles que realizam cirurgias cardiovasculares. Avaliar o grau de conhecimento, a prática clínica e as principais barreiras enfrentadas por cirurgiões cardiovasculares na implementação do PBM no contexto da cirurgia cardíaca no Brasil. Este estudo quantitativo, descritivo e exploratório, consistiu no envio de um questionário com 30 perguntas, via Google Forms, para 1105 cirurgiões afiliados à Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. As questões foram elaboradas para avaliar o conhecimento sobre o assunto, as práticas e as barreiras relacionadas a implementação do PBM. Os dados foram analisados por meio de estatísticas descritivas e testes inferenciais (χ² e Teste Exato de Fisher, com p < 0,05), utilizando o V de Cramér para estimativa de efeito. As análises foram realizadas com os softwares JAMOVI 2.2.5® e RStudio 2024.04.2+764. Responderam ao estudo 205 cirurgiões. A maioria dos participantes era do sexo masculino (91%), com atuação predominante na região Sudeste do Brasil (56%). No pré-operatório, aproximadamente 31% estimaram que a prevalência de anemia é de 5% a 15% nos pacientes que serão submetidos à cirurgia cardíaca. Em casos suspeitos de anemia, 43% realizam a dosagem de hemoglobina de 1 a 2 dias antes da cirurgia, o que indica que a avaliação rotineira da hemoglobina na fase pré-operatória é realizada de forma inconsistente. Entre os exames laboratoriais solicitados para confirmação diagnóstica e planejamento terapêutico, os mais frequentes foram o hemograma completo (78%), seguido por ferro sérico (56%) e ferritina (54%). Cerca de 25% dos participantes informaram calcular rotineiramente a massa eritrocitária e o volume sanguíneo antes dos procedimentos cirúrgicos. No intraoperatório, 32% relataram que duas ou mais unidades de concentrado de hemácias são solicitadas em mais de 80% das cirurgias eletivas. Entre as estratégias atualmente utilizadas, destacam-se o uso de agentes antifibrinolíticos (67%), seguido por agentes hemostáticos e testes point-of-care, ambos citados por 61% dos participantes em procedimentos eletivos. Em cirurgias de emergência, as estratégias mais frequentemente empregadas incluem o uso de antifibrinolíticos (63%), agentes hemostáticos (58%) e técnicas de recuperação sanguínea intraoperatória (55%). Quanto à prática do PBM, 53% dos cirurgiões relataram ter familiaridade com o conceito. Em relação às estratégias de manejo transfusional, 45% adotam uma abordagem restritiva, 30% seguem uma estratégia liberal e apenas 16% utilizam protocolos estruturados baseados em PBM. Apesar disso, apenas 13% relataram a implementação plena do PBM na rotina hospitalar. As principais barreiras identificadas foram a resistência cultural à adesão da equipe (43%), limitações financeiras (24%) e entraves administrativos (21%). A adoção do PBM no Brasil permanece limitada e desigual, especialmente em regiões geograficamente remotas. Esforços direcionados para superar essas barreiras são fundamentais para ampliar a implementação do PBM, promovendo, assim, maior segurança do paciente, melhores desfechos clínicos e uso mais eficiente dos recursos em nível nacional.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105854
Primary Topic
Blood transfusion and management
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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GERENCIAMENTO DO SANGUE DO PACIENTE NA CIRURGIA CARDIOVASCULAR BRASILEIRA: COMPREENSÃO, PRÁTICA E BARREIRAS DE IMPLEMENTAÇÃO SEGUNDO A PERSPECTIVA DOS CIRURGIÕES

B Meneghini, Luiz Fernando Canêo, Guilherme Rabello, R Monteiro et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood transfusion and management
article

GERENCIAMENTO DO SANGUE DO PACIENTE NA CIRURGIA CARDIOVASCULAR BRASILEIRA: COMPREENSÃO, PRÁTICA E BARREIRAS DE IMPLEMENTAÇÃO SEGUNDO A PERSPECTIVA DOS CIRURGIÕES

B Meneghini, Luiz Fernando Canêo, Guilherme Rabello, R Monteiro, Vinícius José da Silva Nina, Alexandre Fiorelli, Matheus Santos Moitinho, Maria Carolina Guido, FB Jatene, CM Brandão
article en

Abstract

O Gerenciamento do Sangue do Paciente (Patient Blood Management, PBM) é uma estratégia centrada no paciente, comprovadamente eficaz na melhoria de desfechos clínicos e na redução de riscos transfusionais, por meio da preservação e do uso racional do sangue do próprio paciente. Pouco se fala sobre a implementação do PBM em hospitais brasileiros, especialmente naqueles que realizam cirurgias cardiovasculares. Avaliar o grau de conhecimento, a prática clínica e as principais barreiras enfrentadas por cirurgiões cardiovasculares na implementação do PBM no contexto da cirurgia cardíaca no Brasil. Este estudo quantitativo, descritivo e exploratório, consistiu no envio de um questionário com 30 perguntas, via Google Forms, para 1105 cirurgiões afiliados à Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. As questões foram elaboradas para avaliar o conhecimento sobre o assunto, as práticas e as barreiras relacionadas a implementação do PBM. Os dados foram analisados por meio de estatísticas descritivas e testes inferenciais (χ² e Teste Exato de Fisher, com p < 0,05), utilizando o V de Cramér para estimativa de efeito. As análises foram realizadas com os softwares JAMOVI 2.2.5® e RStudio 2024.04.2+764. Responderam ao estudo 205 cirurgiões. A maioria dos participantes era do sexo masculino (91%), com atuação predominante na região Sudeste do Brasil (56%). No pré-operatório, aproximadamente 31% estimaram que a prevalência de anemia é de 5% a 15% nos pacientes que serão submetidos à cirurgia cardíaca. Em casos suspeitos de anemia, 43% realizam a dosagem de hemoglobina de 1 a 2 dias antes da cirurgia, o que indica que a avaliação rotineira da hemoglobina na fase pré-operatória é realizada de forma inconsistente. Entre os exames laboratoriais solicitados para confirmação diagnóstica e planejamento terapêutico, os mais frequentes foram o hemograma completo (78%), seguido por ferro sérico (56%) e ferritina (54%). Cerca de 25% dos participantes informaram calcular rotineiramente a massa eritrocitária e o volume sanguíneo antes dos procedimentos cirúrgicos. No intraoperatório, 32% relataram que duas ou mais unidades de concentrado de hemácias são solicitadas em mais de 80% das cirurgias eletivas. Entre as estratégias atualmente utilizadas, destacam-se o uso de agentes antifibrinolíticos (67%), seguido por agentes hemostáticos e testes point-of-care, ambos citados por 61% dos participantes em procedimentos eletivos. Em cirurgias de emergência, as estratégias mais frequentemente empregadas incluem o uso de antifibrinolíticos (63%), agentes hemostáticos (58%) e técnicas de recuperação sanguínea intraoperatória (55%). Quanto à prática do PBM, 53% dos cirurgiões relataram ter familiaridade com o conceito. Em relação às estratégias de manejo transfusional, 45% adotam uma abordagem restritiva, 30% seguem uma estratégia liberal e apenas 16% utilizam protocolos estruturados baseados em PBM. Apesar disso, apenas 13% relataram a implementação plena do PBM na rotina hospitalar. As principais barreiras identificadas foram a resistência cultural à adesão da equipe (43%), limitações financeiras (24%) e entraves administrativos (21%). A adoção do PBM no Brasil permanece limitada e desigual, especialmente em regiões geograficamente remotas. Esforços direcionados para superar essas barreiras são fundamentais para ampliar a implementação do PBM, promovendo, assim, maior segurança do paciente, melhores desfechos clínicos e uso mais eficiente dos recursos em nível nacional.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (BR), Universidade Federal do Maranhão (BR)
Openalex Percentile: Top 69%
Blood transfusion and management
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