HISTIOCITOSE DE LANGERHANS MULTISSISTÊMICA REFRATÁRIA EM PEDIATRIA: RELATO DE CASO

A Histiocitose de Células de Langerhans (HCL) é uma neoplasia mieloide inflamatória rara, caracterizada pela proliferação clonal de células dendríticas mieloides semelhantes às células de Langerhans epidérmicas. Pode apresentar-se como doença focal ou multissistêmica, com infiltração tecidual variável. A incidência estimada é de até 5 casos por milhão de crianças, com pico entre 1 e 3 anos de idade. A HCL refratária ‒ definida como ausência de resposta ao tratamento inicial ‒ é mais frequente em formas multissistêmicas com envolvimento de órgãos de risco. Paciente masculino, 3 anos, previamente hígido, internado por dor abdominal. Apresentava lesões cutâneas progressivas há 1 ano e 8 meses, associadas à alterações hepáticas. Realizou biópsias de couro cabeludo, palato e fígado. A histopatologia e imunohistoquímica de couro cabeludo e palato evidenciaram infiltrado de células de Langerhans, CD1a positivo, na derme superficial, com eosinófilos esparsos e células gigantes multinucleadas. Ressonância magnética revelou lesões líticas na calota craniana e erosão da tábua óssea externa. Confirmado o diagnóstico de HCL multissistêmica com acometimento de órgão de risco (fígado), iniciou quimioterapia segundo protocolo LCH-III (cursos 1 e 2), sem resposta clínica. Optou-se por terapia de resgate para doença refratária com cladribina e citarabina, obtendo melhora significativa das lesões cutâneas, ósseas e hepáticas. Paciente encontra-se estável, em evolução favorável, aguardando reavaliação após segundo ciclo. A HCL é uma condição rara, especialmente em sua forma multissistêmica na infância. As manifestações incluem febre, lesões cutâneas, como no caso descrito, linfadenomegalia, hepatoesplenomegalia, citopenias, alterações ósseas e, em casos graves, disfunção hepática e medular. O diagnóstico baseia-se na biópsia do tecido afetado, com imunohistoquímica positiva para CD1a e/ou langerina (CD207), além de achados radiológicos complementares. A presença de envolvimento de órgãos de risco (fígado, baço, medula óssea) define pior prognóstico. O tratamento de primeira linha envolve vinblastina e prednisona, porém casos refratários podem requerer quimioterapias alternativas ou terapias-alvo. Estudos indicam que aproximadamente 60%–70% dos pacientes refratários apresentam resposta objetiva à terapia de resgate com esse esquema (citarabina + cladribina), embora cerca de 30%–50% dos casos totais de HCL apresentem recidiva em algum momento do acompanhamento. Recentemente, inibidores da via MAPK-ERK, como vemurafenibe e dabrafenibe (para mutações BRAF-V600E) e trametinibe (para mutações MAP2K1), têm demonstrado respostas promissoras em pacientes refratários, ampliando as opções terapêuticas e melhorando perspectivas de sobrevida. Neste caso, houve ausência de resposta ao tratamento de primeira linha, confirmando a refratariedade de doença, mas boa resposta à terapia de resgate. A descrição de relatos de caso dessa condição é fundamental, pois contribui para ampliar o conhecimento clínico e terapêutico sobre uma doença de baixa incidência, favorecendo o reconhecimento precoce, a adequada estratificação de risco e a melhoria contínua das estratégias de tratamento.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105410
Primary Topic
Histiocytic Disorders and Treatments
Type
article
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HISTIOCITOSE DE LANGERHANS MULTISSISTÊMICA REFRATÁRIA EM PEDIATRIA: RELATO DE CASO

Beatriz Cardoso, Letícia Oliveira, M. Pimenta, Marcelo B. Pereira et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Histiocytic Disorders and Treatments
article

HISTIOCITOSE DE LANGERHANS MULTISSISTÊMICA REFRATÁRIA EM PEDIATRIA: RELATO DE CASO

Beatriz Cardoso, Letícia Oliveira, M. Pimenta, Marcelo B. Pereira, Lígia Silva
article en

Abstract

A Histiocitose de Células de Langerhans (HCL) é uma neoplasia mieloide inflamatória rara, caracterizada pela proliferação clonal de células dendríticas mieloides semelhantes às células de Langerhans epidérmicas. Pode apresentar-se como doença focal ou multissistêmica, com infiltração tecidual variável. A incidência estimada é de até 5 casos por milhão de crianças, com pico entre 1 e 3 anos de idade. A HCL refratária ‒ definida como ausência de resposta ao tratamento inicial ‒ é mais frequente em formas multissistêmicas com envolvimento de órgãos de risco. Paciente masculino, 3 anos, previamente hígido, internado por dor abdominal. Apresentava lesões cutâneas progressivas há 1 ano e 8 meses, associadas à alterações hepáticas. Realizou biópsias de couro cabeludo, palato e fígado. A histopatologia e imunohistoquímica de couro cabeludo e palato evidenciaram infiltrado de células de Langerhans, CD1a positivo, na derme superficial, com eosinófilos esparsos e células gigantes multinucleadas. Ressonância magnética revelou lesões líticas na calota craniana e erosão da tábua óssea externa. Confirmado o diagnóstico de HCL multissistêmica com acometimento de órgão de risco (fígado), iniciou quimioterapia segundo protocolo LCH-III (cursos 1 e 2), sem resposta clínica. Optou-se por terapia de resgate para doença refratária com cladribina e citarabina, obtendo melhora significativa das lesões cutâneas, ósseas e hepáticas. Paciente encontra-se estável, em evolução favorável, aguardando reavaliação após segundo ciclo. A HCL é uma condição rara, especialmente em sua forma multissistêmica na infância. As manifestações incluem febre, lesões cutâneas, como no caso descrito, linfadenomegalia, hepatoesplenomegalia, citopenias, alterações ósseas e, em casos graves, disfunção hepática e medular. O diagnóstico baseia-se na biópsia do tecido afetado, com imunohistoquímica positiva para CD1a e/ou langerina (CD207), além de achados radiológicos complementares. A presença de envolvimento de órgãos de risco (fígado, baço, medula óssea) define pior prognóstico. O tratamento de primeira linha envolve vinblastina e prednisona, porém casos refratários podem requerer quimioterapias alternativas ou terapias-alvo. Estudos indicam que aproximadamente 60%–70% dos pacientes refratários apresentam resposta objetiva à terapia de resgate com esse esquema (citarabina + cladribina), embora cerca de 30%–50% dos casos totais de HCL apresentem recidiva em algum momento do acompanhamento. Recentemente, inibidores da via MAPK-ERK, como vemurafenibe e dabrafenibe (para mutações BRAF-V600E) e trametinibe (para mutações MAP2K1), têm demonstrado respostas promissoras em pacientes refratários, ampliando as opções terapêuticas e melhorando perspectivas de sobrevida. Neste caso, houve ausência de resposta ao tratamento de primeira linha, confirmando a refratariedade de doença, mas boa resposta à terapia de resgate. A descrição de relatos de caso dessa condição é fundamental, pois contribui para ampliar o conhecimento clínico e terapêutico sobre uma doença de baixa incidência, favorecendo o reconhecimento precoce, a adequada estratificação de risco e a melhoria contínua das estratégias de tratamento.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Centro Universitário de Belo Horizonte (BR), Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (BR), Grupo Santa Casa de Belo Horizonte (BR), Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (BR)
Openalex Percentile: Top 61%
Histiocytic Disorders and Treatments
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