ESTRATÉGIAS TRANSFUSIONAIS EM PACIENTES COM QUEIMADURAS EXTENSAS: REVISÃO SISTEMÁTICA COM EVIDÊNCIAS QUANTITATIVAS

Pacientes com queimaduras extensas frequentemente apresentam anemia grave, perdas sanguíneas operatórias e inflamação sistêmica que demandam transfusões de concentrado de hemácias. Embora as transfusões possam ser necessárias para restaurar a estabilidade hemodinâmica e melhorar a oxigenação tecidual, volumes excessivos estão associados a desfechos negativos, como infecções, sobrecarga circulatória, imunossupressão e maior mortalidade. Diante disso, estratégias transfusionais mais restritivas têm sido propostas como alternativas mais seguras e eficazes, especialmente em contextos de recursos limitados. Assim, torna-se fundamental avaliar o impacto clínico das diferentes abordagens transfusionais nesses pacientes, a fim de subsidiar condutas baseadas em evidências. Analisar os efeitos das estratégias transfusionais restritivas, liberais e ultra-restritivas sobre os desfechos clínicos em pacientes com queimaduras ≥ 20% de superfície corporal queimada, com ênfase na mortalidade, infecções e volume transfundido. Realizou-se uma revisão sistemática com base em sete estudos publicados entre 2016 e 2025, envolvendo um total de 2.247 pacientes com queimaduras moderadas a extensas. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados, coortes multicêntricas e estudos retrospectivos. As análises estatísticas extraídas compreenderam razões de risco (OR/RR), regressões logísticas, modelos de Cox e estimativas com intervalo de confiança de 95%. A síntese foi realizada de forma descritiva. Estratégias restritivas, com transfusão a partir de Hb < 7 g/dL, mostraram-se seguras, sem aumento na mortalidade (OR 1,04; p = 0,89; IC95% 0,60–1,77) nem nas taxas de infecção da corrente sanguínea (OR 1,03; p = 0,904; IC95% 0,60–1,77) em comparação à estratégia liberal (Hb < 10 g/dL). A adoção de limiares ultra-restritivos (Hb < 7 g/dL) também não elevou a mortalidade (RR 1,08; p = 0,69; IC95% 0,72–1,61); entretanto, manter Hb < 6 g/dL sem transfusão associou-se a risco significativamente maior de morte (RR 2,49; p = 0,001; IC95% 1,39–4,46). Volumes transfusionais > 6U no pós-operatório imediato estiveram relacionados a pior prognóstico (p < 0,0001). Além disso, em contextos de baixa renda, a transfusão alogênica aumentou a mortalidade em 23% (OR 1,23; p = 0,03; IC95% 1,01–1,51). O volume de CH intraoperatório correlacionou-se fortemente à área excisada (β = 0,47; p < 0,001; IC95% 0,32–0,61). As evidências reforçam que a estratégia transfusional restritiva é segura e eficaz em pacientes queimados, evitando riscos associados ao excesso de hemocomponentes. No entanto, hemoglobina < 6 g/dL sem reposição implica risco elevado de morte. O uso racional e guiado por protocolos clínico-laboratoriais é essencial, sobretudo em ambientes com limitação de recursos.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105225
Primary Topic
Blood transfusion and management
Type
article
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ESTRATÉGIAS TRANSFUSIONAIS EM PACIENTES COM QUEIMADURAS EXTENSAS: REVISÃO SISTEMÁTICA COM EVIDÊNCIAS QUANTITATIVAS

TO Rebouças, Filipe Augusto de Freitas Soares, Eva Negri
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood transfusion and management
article

ESTRATÉGIAS TRANSFUSIONAIS EM PACIENTES COM QUEIMADURAS EXTENSAS: REVISÃO SISTEMÁTICA COM EVIDÊNCIAS QUANTITATIVAS

TO Rebouças, Filipe Augusto de Freitas Soares, Eva Negri
article en

Abstract

Pacientes com queimaduras extensas frequentemente apresentam anemia grave, perdas sanguíneas operatórias e inflamação sistêmica que demandam transfusões de concentrado de hemácias. Embora as transfusões possam ser necessárias para restaurar a estabilidade hemodinâmica e melhorar a oxigenação tecidual, volumes excessivos estão associados a desfechos negativos, como infecções, sobrecarga circulatória, imunossupressão e maior mortalidade. Diante disso, estratégias transfusionais mais restritivas têm sido propostas como alternativas mais seguras e eficazes, especialmente em contextos de recursos limitados. Assim, torna-se fundamental avaliar o impacto clínico das diferentes abordagens transfusionais nesses pacientes, a fim de subsidiar condutas baseadas em evidências. Analisar os efeitos das estratégias transfusionais restritivas, liberais e ultra-restritivas sobre os desfechos clínicos em pacientes com queimaduras ≥ 20% de superfície corporal queimada, com ênfase na mortalidade, infecções e volume transfundido. Realizou-se uma revisão sistemática com base em sete estudos publicados entre 2016 e 2025, envolvendo um total de 2.247 pacientes com queimaduras moderadas a extensas. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados, coortes multicêntricas e estudos retrospectivos. As análises estatísticas extraídas compreenderam razões de risco (OR/RR), regressões logísticas, modelos de Cox e estimativas com intervalo de confiança de 95%. A síntese foi realizada de forma descritiva. Estratégias restritivas, com transfusão a partir de Hb < 7 g/dL, mostraram-se seguras, sem aumento na mortalidade (OR 1,04; p = 0,89; IC95% 0,60–1,77) nem nas taxas de infecção da corrente sanguínea (OR 1,03; p = 0,904; IC95% 0,60–1,77) em comparação à estratégia liberal (Hb < 10 g/dL). A adoção de limiares ultra-restritivos (Hb < 7 g/dL) também não elevou a mortalidade (RR 1,08; p = 0,69; IC95% 0,72–1,61); entretanto, manter Hb < 6 g/dL sem transfusão associou-se a risco significativamente maior de morte (RR 2,49; p = 0,001; IC95% 1,39–4,46). Volumes transfusionais > 6U no pós-operatório imediato estiveram relacionados a pior prognóstico (p < 0,0001). Além disso, em contextos de baixa renda, a transfusão alogênica aumentou a mortalidade em 23% (OR 1,23; p = 0,03; IC95% 1,01–1,51). O volume de CH intraoperatório correlacionou-se fortemente à área excisada (β = 0,47; p < 0,001; IC95% 0,32–0,61). As evidências reforçam que a estratégia transfusional restritiva é segura e eficaz em pacientes queimados, evitando riscos associados ao excesso de hemocomponentes. No entanto, hemoglobina < 6 g/dL sem reposição implica risco elevado de morte. O uso racional e guiado por protocolos clínico-laboratoriais é essencial, sobretudo em ambientes com limitação de recursos.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de Fortaleza (BR), Hospital Regional de Presidente Prudente (BR), Universidade Federal do Maranhão (BR)
Openalex Percentile: Top 69%
Blood transfusion and management
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