RELATO DE CASO DE ALTERAÇÃO NEUROLÓGICA AGUDA RECORRENTE ASSOCIADO AO USO DE IFOSFAMIDA EM TRATAMENTO DE LINFOMA DIFUSO DE GRANDES CÉLULAS B RECAÍDO: A IMPORTÂNCIA DA SUSPEIÇÃO CLÍNICA

O Linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) é um tipo agressivo de linfoma com apresentação clínica variável. O esquema ICE (Ifosfamida, Carboplatina e Etoposide) é uma das alternativas terapêuticas para tratar pacientes recidivados. Desde esquema, a Ifosfamida é a medicação que apresenta maior chance de causar eventos neurológicos, com alteração comportamental, neuropatia, encefalite e coma (10-30%). Mulher, 69 anos, cardiopata pós-quimioterapia, com LDGCB em primeira recidiva 2 anos após 6 ciclos de R-CHOP. Novo PET-CT evidenciava linfonodomegalias supra e infra-diafragmáticas difusas (SUVmax = 37,0) e nova biópsia de linfonodo confirmou a recidiva de doença. Paciente admitida para esquema ICE e a partir do terceiro dia após infusão de quimioterapia evoluiu com quadro de desorientação socioespacial, desatenção, mutismo e períodos de agitação psicomotora. Os sintomas tiveram início agudo e flutuavam ao longo do dia, com melhora completa no sexto dia após início da quimioterapia. A escala diagnóstica de CAM (Confusion Assessment Method) foi aplicada e confirmou o quadro típico de delirium. A paciente apresentou apenas alterações hematológicas atribuíveis ao esquema de tratamento como anemia e neutropenia leve, sem outras alterações laboratoriais. Uma tomografia de crânio foi realizada e evidenciava alterações típicas da idade, a bioquímica de líquido cefalorraquidiano estava sem alterações e as culturas eram negativas. Durante o segundo ciclo de quimioterapia a paciente apresentou sintomas com cronologia similares às apresentadas no primeiro ciclo, assim como tomografia de crânio sem alteração. Um PET-CT foi realizado após o segundo ciclo de ICE com evidência de remissão completa da doença. Devido resposta completa em exame de imagem, idade avançada, múltiplas comorbidades e reação desfavorável com o esquema de tratamento proposto foi pactuado com paciente e familiares conduta expectante e suspensão de ciclos subsequentes do tratamento. Os sintomas neurológicos estão associados ao acúmulo do metabólito da ifosfamida, o cloroacetaldeído, no sistema nervoso. O espectro de alterações é amplo e o início dos sintomas ocorrem de 2-96 h após infusão e costumam ser reversíveis em até 96h após medicação. Os principais fatores de riscos associados ao desenvolvimento dos sintomas são alterações neurológicas basais prévias, disfunção renal. Algumas medidas profiláticas e terapêuticas estão descritas na literatura, como azul de metileno, tiamina e dexmedetomidina, mas as evidências são frustras e controversas. O caso descrito descreve alterações neurológicas e comportamentais comuns em idosos internados, evidenciando assim a importância da vigilância clínica e suspeita de causa medicamentosa associadas ao delirium nesses pacientes.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104787
Primary Topic
Acute Lymphoblastic Leukemia research
Type
article
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RELATO DE CASO DE ALTERAÇÃO NEUROLÓGICA AGUDA RECORRENTE ASSOCIADO AO USO DE IFOSFAMIDA EM TRATAMENTO DE LINFOMA DIFUSO DE GRANDES CÉLULAS B RECAÍDO: A IMPORTÂNCIA DA SUSPEIÇÃO CLÍNICA

ASA Silva, Teresinha Evangelista, MP César, João Victor Rocha Severo et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Acute Lymphoblastic Leukemia research
article

RELATO DE CASO DE ALTERAÇÃO NEUROLÓGICA AGUDA RECORRENTE ASSOCIADO AO USO DE IFOSFAMIDA EM TRATAMENTO DE LINFOMA DIFUSO DE GRANDES CÉLULAS B RECAÍDO: A IMPORTÂNCIA DA SUSPEIÇÃO CLÍNICA

ASA Silva, Teresinha Evangelista, MP César, João Victor Rocha Severo, Letícia Raabe Mota de Lima, HC Moura, C.M.O. Silva, ACC Lopes, MFH Costa, BG Campello
article en

Abstract

O Linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) é um tipo agressivo de linfoma com apresentação clínica variável. O esquema ICE (Ifosfamida, Carboplatina e Etoposide) é uma das alternativas terapêuticas para tratar pacientes recidivados. Desde esquema, a Ifosfamida é a medicação que apresenta maior chance de causar eventos neurológicos, com alteração comportamental, neuropatia, encefalite e coma (10-30%). Mulher, 69 anos, cardiopata pós-quimioterapia, com LDGCB em primeira recidiva 2 anos após 6 ciclos de R-CHOP. Novo PET-CT evidenciava linfonodomegalias supra e infra-diafragmáticas difusas (SUVmax = 37,0) e nova biópsia de linfonodo confirmou a recidiva de doença. Paciente admitida para esquema ICE e a partir do terceiro dia após infusão de quimioterapia evoluiu com quadro de desorientação socioespacial, desatenção, mutismo e períodos de agitação psicomotora. Os sintomas tiveram início agudo e flutuavam ao longo do dia, com melhora completa no sexto dia após início da quimioterapia. A escala diagnóstica de CAM (Confusion Assessment Method) foi aplicada e confirmou o quadro típico de delirium. A paciente apresentou apenas alterações hematológicas atribuíveis ao esquema de tratamento como anemia e neutropenia leve, sem outras alterações laboratoriais. Uma tomografia de crânio foi realizada e evidenciava alterações típicas da idade, a bioquímica de líquido cefalorraquidiano estava sem alterações e as culturas eram negativas. Durante o segundo ciclo de quimioterapia a paciente apresentou sintomas com cronologia similares às apresentadas no primeiro ciclo, assim como tomografia de crânio sem alteração. Um PET-CT foi realizado após o segundo ciclo de ICE com evidência de remissão completa da doença. Devido resposta completa em exame de imagem, idade avançada, múltiplas comorbidades e reação desfavorável com o esquema de tratamento proposto foi pactuado com paciente e familiares conduta expectante e suspensão de ciclos subsequentes do tratamento. Os sintomas neurológicos estão associados ao acúmulo do metabólito da ifosfamida, o cloroacetaldeído, no sistema nervoso. O espectro de alterações é amplo e o início dos sintomas ocorrem de 2-96 h após infusão e costumam ser reversíveis em até 96h após medicação. Os principais fatores de riscos associados ao desenvolvimento dos sintomas são alterações neurológicas basais prévias, disfunção renal. Algumas medidas profiláticas e terapêuticas estão descritas na literatura, como azul de metileno, tiamina e dexmedetomidina, mas as evidências são frustras e controversas. O caso descrito descreve alterações neurológicas e comportamentais comuns em idosos internados, evidenciando assim a importância da vigilância clínica e suspeita de causa medicamentosa associadas ao delirium nesses pacientes.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (BR)
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Acute Lymphoblastic Leukemia research
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