CARDIOTOXICIDADE AO ÁCIDO TRANS-RETINÓICO EM PACIENTE COM LEUCEMIA PROMIELOCITICA AGUDA EM HOSPITAL DE REFERÊNCIA NO ESTADO DO PARÁ

A Leucemia Promielocítica Aguda (LPA), consiste em um subtipo de leucemia mieloide aguda, cuja principal caraterística é a translocação t(15;17), que resulta na fusão dos genes PML (Promyelocytic Leukemia) e RARA (Retinoic Acid Receptor Alpha). Desde 2017, a combinação de Ácido Trans-Retinóico (ATRA) e Trioxido de Arsênio (ATO) é considerada primeira linha para o tratamento. Um dos principais efeitos adversos do ATRA é a Síndrome de Diferenciação (SD), potencialmente fatal, com manifestações clássicas como febre, dispneia e infiltrados pulmonares, mas que pode também apresentar manifestações cardíacas atípicas. Paciente do sexo masculino, 38 anos, diagnosticado com LPA e classificado como baixo risco. Internou em 02/02/2024 e iniciou ATRA 45 mg/m 2 e prednisona 40 mg/dia. Sete dias após, foi associado daunorrubicina 60 mg/m 2 . No 16º dia de tratamento, o paciente apresentou dor torácica, dispneia e hipotensão, com eletrocardiograma (ECG) evidenciando elevação difusa do segmento ST e troponina elevada, levantando suspeita de Síndrome Coronária Aguda (SCA), com necessidade de suporte intensivo e uso de droga vasoativa. Após avaliação da cardiologia, foi iniciado ácido acetilsalicílico (AAS) e clopidogrel e encaminhado para cateterismo cardíaco (CATE) em hospital de referência do estado. O CATE realizado em 26/02/2025 revelou hipocinesia difusa grave, sem obstruções. Ecocardiograma transtorácico de 26/07/2025 evidenciou FE 47%. Diante da hipótese de SD, foi iniciado prednisona com melhora clínica e hemodinâmica. O paciente retornou ao hospital oncológico e iniciou terapia para insuficiência cardíaca com dapagliflozina, espironolactona, enalapril e bisoprolol. Ecocardiograma de 07/03/2024 mostrou melhora da FE (62%). A ausência de ressonância magnética cardíaca no estado pelo Sistema Único de Saúde impediu confirmação de miocardite. Para permitir a continuidade do tratamento, durante a fase de consolidação com ATRA, mitoxantrone e daunorrubicina, foi iniciado uso de Dexrazoxano incialmente 500 mg/m 2 e após em dose reduzida devido à indisponibilidade da medicação, reduzido tempo de uso do ATRA para 10 dias e associado dexametasona 10 mg/dia durante o ATRA e por 7 dias após. Realizou-se monitorização com ECG diário. O paciente tolerou os três ciclos de consolidação, sem piora da função cardíaca, porém com elevação de troponina. Durante a fase de manutenção, o paciente recebeu ATRA 45 mg/m 2 por apenas 7 dias associado a metotrexato 15 mg/m 2 /semana e purinetol 50 mg/m 2 /dia, sem corticoide. Evoluindo novamente com piora da FE. Após nova discussão multidisciplinar, foi reiniciado o uso de dexametasona 8 mg/dia durante os dias de administração do ATRA, com melhora clínica e recuperação da função ventricular. Desde então, o paciente permanece em tratamento de manutenção, sem novas complicações cardíacas e em remissão da LPA confirmado por FISH. A síndrome de diferenciação secundária ao tratamento com ácido trans-retinóico pode manifestar-se com complicações cardíacas atípicas. O uso de corticosteroides como tratamento da SD mostrou-se eficaz com recuperação de função cardíaca, permitindo assim a continuidade do tratamento. A redução de dose do ATRA tanto nas fases consolidação como de manutenção, mostrou-se alternativa eficaz sem prejudicar a resposta ao tratamento. Salienta-se a necessidade de mais estudos acerca de tratamentos adjuvantes de cardiomiotoxicidade e dose mínima segura da droga alvo.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104514
Primary Topic
Retinoids in leukemia and cellular processes
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
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CARDIOTOXICIDADE AO ÁCIDO TRANS-RETINÓICO EM PACIENTE COM LEUCEMIA PROMIELOCITICA AGUDA EM HOSPITAL DE REFERÊNCIA NO ESTADO DO PARÁ

Fabiana Vinhas Rodrigues, JV Tavares, V. G. Ribeiro
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Retinoids in leukemia and cellular processes
article

CARDIOTOXICIDADE AO ÁCIDO TRANS-RETINÓICO EM PACIENTE COM LEUCEMIA PROMIELOCITICA AGUDA EM HOSPITAL DE REFERÊNCIA NO ESTADO DO PARÁ

Fabiana Vinhas Rodrigues, JV Tavares, V. G. Ribeiro
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Abstract

A Leucemia Promielocítica Aguda (LPA), consiste em um subtipo de leucemia mieloide aguda, cuja principal caraterística é a translocação t(15;17), que resulta na fusão dos genes PML (Promyelocytic Leukemia) e RARA (Retinoic Acid Receptor Alpha). Desde 2017, a combinação de Ácido Trans-Retinóico (ATRA) e Trioxido de Arsênio (ATO) é considerada primeira linha para o tratamento. Um dos principais efeitos adversos do ATRA é a Síndrome de Diferenciação (SD), potencialmente fatal, com manifestações clássicas como febre, dispneia e infiltrados pulmonares, mas que pode também apresentar manifestações cardíacas atípicas. Paciente do sexo masculino, 38 anos, diagnosticado com LPA e classificado como baixo risco. Internou em 02/02/2024 e iniciou ATRA 45 mg/m 2 e prednisona 40 mg/dia. Sete dias após, foi associado daunorrubicina 60 mg/m 2 . No 16º dia de tratamento, o paciente apresentou dor torácica, dispneia e hipotensão, com eletrocardiograma (ECG) evidenciando elevação difusa do segmento ST e troponina elevada, levantando suspeita de Síndrome Coronária Aguda (SCA), com necessidade de suporte intensivo e uso de droga vasoativa. Após avaliação da cardiologia, foi iniciado ácido acetilsalicílico (AAS) e clopidogrel e encaminhado para cateterismo cardíaco (CATE) em hospital de referência do estado. O CATE realizado em 26/02/2025 revelou hipocinesia difusa grave, sem obstruções. Ecocardiograma transtorácico de 26/07/2025 evidenciou FE 47%. Diante da hipótese de SD, foi iniciado prednisona com melhora clínica e hemodinâmica. O paciente retornou ao hospital oncológico e iniciou terapia para insuficiência cardíaca com dapagliflozina, espironolactona, enalapril e bisoprolol. Ecocardiograma de 07/03/2024 mostrou melhora da FE (62%). A ausência de ressonância magnética cardíaca no estado pelo Sistema Único de Saúde impediu confirmação de miocardite. Para permitir a continuidade do tratamento, durante a fase de consolidação com ATRA, mitoxantrone e daunorrubicina, foi iniciado uso de Dexrazoxano incialmente 500 mg/m 2 e após em dose reduzida devido à indisponibilidade da medicação, reduzido tempo de uso do ATRA para 10 dias e associado dexametasona 10 mg/dia durante o ATRA e por 7 dias após. Realizou-se monitorização com ECG diário. O paciente tolerou os três ciclos de consolidação, sem piora da função cardíaca, porém com elevação de troponina. Durante a fase de manutenção, o paciente recebeu ATRA 45 mg/m 2 por apenas 7 dias associado a metotrexato 15 mg/m 2 /semana e purinetol 50 mg/m 2 /dia, sem corticoide. Evoluindo novamente com piora da FE. Após nova discussão multidisciplinar, foi reiniciado o uso de dexametasona 8 mg/dia durante os dias de administração do ATRA, com melhora clínica e recuperação da função ventricular. Desde então, o paciente permanece em tratamento de manutenção, sem novas complicações cardíacas e em remissão da LPA confirmado por FISH. A síndrome de diferenciação secundária ao tratamento com ácido trans-retinóico pode manifestar-se com complicações cardíacas atípicas. O uso de corticosteroides como tratamento da SD mostrou-se eficaz com recuperação de função cardíaca, permitindo assim a continuidade do tratamento. A redução de dose do ATRA tanto nas fases consolidação como de manutenção, mostrou-se alternativa eficaz sem prejudicar a resposta ao tratamento. Salienta-se a necessidade de mais estudos acerca de tratamentos adjuvantes de cardiomiotoxicidade e dose mínima segura da droga alvo.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Loyola Medicine (US)
Openalex Percentile: Top 72%
Retinoids in leukemia and cellular processes
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