MAIS DO QUE DOR: INVESTIGAÇÃO DO SOFRIMENTO PSICOLÓGICO EM PESSOAS COM DOENÇA FALCIFORME

A doença falciforme é um conjunto de hemoglobinopatias hereditárias causadas por uma mutação no gene da β-globina, que leva à produção da hemoglobina S (HbS). Além das manifestações físicas, a carga mental atrelada à doença pode favorecer o desenvolvimento de transtornos afetivos, como ansiedade e depressão, sobretudo quando há isolamento social, tema ainda pouco explorado na população brasileira com essa condição. Investigar a saúde mental de indivíduos com doença falciforme, com ênfase nos traços afetivo-emocionais e engajamento social. Participaram 117 indivíduos, divididos em dois grupos: Doença falciforme (DF) (n=58; 33 mulheres) e Controle (C) (n=59; 34 mulheres). Os grupos foram pareados por idade (Mediana DF=30; C=29; p=0,19) e gênero (p=0,93). Os participantes responderam a instrumentos padronizados para avaliação de ansiedade, depressão, solidão, apoio social e a um questionário sociodemográfico. A coleta de dados ocorreu no Hemocentro de Belo Horizonte. O grupo DF foi abordado durante os atendimentos psicológicos ou na sala de espera de consultas; o grupo C, após o processo de doação de sangue. Os dados foram inseridos no sistema REDCap por dupla digitação e as análises estatísticas foram conduzidas por meio do software Statistica 10.0. Todos os procedimentos foram aprovados pelo CEP-Hemominas. Dentre o grupo DF, os genótipos observados foram SS (57%), SC (15,5%) e S-beta-talassemia (5,1%); 22,4% não souberam informar. Indivíduos com DF apresentaram níveis elevados de depressão (Md DF = 16; IQR = 10-23; vs . Md C = 8; IQR 5-12; p < 0,001), ansiedade (Md DF = 12; IQR = 10-23 vs . Md C = 8,5; IQR = 5-17; p = 0,03) e solidão (Md DF = 40,5; IQR = 33-51 vs . Md C = 34; IQR = 27-42; p = 0,003), além de menor apoio social (Md DF = 39,5; IQR = 26-51; vs . Md C = 55; IQR = 41-68; p < 0,001), comparado ao C. Ainda no grupo DF, observou-se correlação entre depressão e ansiedade (r = 0,82; p < 0,05), e depressão e solidão (r = 0,70; p < 0,05). No grupo C, houve correlação entre apoio social e solidão (r = −0,56; p < 0,05). Pacientes com doença falciforme relataram maior frequência de diagnóstico em saúde mental comparado aos indivíduos controle (47,3% vs . 29,3%; p = 0,046), assim como maior uso de medicamentos psicotrópicos (p = 0,025). Dentre o grupo DF, aqueles que relataram terem recebido prescrição de medicamentos para transtornos de saúde mental, observou-se maior intensidade de depressão, ansiedade e solidão (p < 0,001), padrão não verificado no grupo controle. Os dados apontam que a vivência com doença falciforme está associada a um nível maior de sofrimento psicológico, que pode ser atribuído à natureza crônica da doença e a estressores psicossociais. Observa-se a associação da depressão à solidão, sugerindo impacto do isolamento social percebido no convívio com a doença. Participantes com DF também exibiram diagnóstico pregresso de transtornos mentais, sugerindo a possível associação entre a vivência com a doença falciforme e uma maior vulnerabilidade à saúde mental. Destaca-se, portanto, a necessidade implementação de atenção psicológica ampliada nos centros de tratamento desses pacientes, com acesso a profissionais especializados em saúde mental, a fim de mitigar o sofrimento emocional e reduzir sub tratamentos, uma vez que o comprometimento da saúde mental pode não apenas reduzir a qualidade de vida, mas também agravar o quadro clínico. Fundação Hemominas; FAPEMIG.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105362
Primary Topic
Hemoglobinopathies and Related Disorders
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

MAIS DO QUE DOR: INVESTIGAÇÃO DO SOFRIMENTO PSICOLÓGICO EM PESSOAS COM DOENÇA FALCIFORME

KCD Lacerda, Gleika Larisse Oliveira Dorásio de Souza, AP Souza, AOR Sacramento et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Hemoglobinopathies and Related Disorders
article

MAIS DO QUE DOR: INVESTIGAÇÃO DO SOFRIMENTO PSICOLÓGICO EM PESSOAS COM DOENÇA FALCIFORME

KCD Lacerda, Gleika Larisse Oliveira Dorásio de Souza, AP Souza, AOR Sacramento, AJ Vertelo-Gonzaga, SV Milagres
article en

Abstract

A doença falciforme é um conjunto de hemoglobinopatias hereditárias causadas por uma mutação no gene da β-globina, que leva à produção da hemoglobina S (HbS). Além das manifestações físicas, a carga mental atrelada à doença pode favorecer o desenvolvimento de transtornos afetivos, como ansiedade e depressão, sobretudo quando há isolamento social, tema ainda pouco explorado na população brasileira com essa condição. Investigar a saúde mental de indivíduos com doença falciforme, com ênfase nos traços afetivo-emocionais e engajamento social. Participaram 117 indivíduos, divididos em dois grupos: Doença falciforme (DF) (n=58; 33 mulheres) e Controle (C) (n=59; 34 mulheres). Os grupos foram pareados por idade (Mediana DF=30; C=29; p=0,19) e gênero (p=0,93). Os participantes responderam a instrumentos padronizados para avaliação de ansiedade, depressão, solidão, apoio social e a um questionário sociodemográfico. A coleta de dados ocorreu no Hemocentro de Belo Horizonte. O grupo DF foi abordado durante os atendimentos psicológicos ou na sala de espera de consultas; o grupo C, após o processo de doação de sangue. Os dados foram inseridos no sistema REDCap por dupla digitação e as análises estatísticas foram conduzidas por meio do software Statistica 10.0. Todos os procedimentos foram aprovados pelo CEP-Hemominas. Dentre o grupo DF, os genótipos observados foram SS (57%), SC (15,5%) e S-beta-talassemia (5,1%); 22,4% não souberam informar. Indivíduos com DF apresentaram níveis elevados de depressão (Md DF = 16; IQR = 10-23; vs . Md C = 8; IQR 5-12; p < 0,001), ansiedade (Md DF = 12; IQR = 10-23 vs . Md C = 8,5; IQR = 5-17; p = 0,03) e solidão (Md DF = 40,5; IQR = 33-51 vs . Md C = 34; IQR = 27-42; p = 0,003), além de menor apoio social (Md DF = 39,5; IQR = 26-51; vs . Md C = 55; IQR = 41-68; p < 0,001), comparado ao C. Ainda no grupo DF, observou-se correlação entre depressão e ansiedade (r = 0,82; p < 0,05), e depressão e solidão (r = 0,70; p < 0,05). No grupo C, houve correlação entre apoio social e solidão (r = −0,56; p < 0,05). Pacientes com doença falciforme relataram maior frequência de diagnóstico em saúde mental comparado aos indivíduos controle (47,3% vs . 29,3%; p = 0,046), assim como maior uso de medicamentos psicotrópicos (p = 0,025). Dentre o grupo DF, aqueles que relataram terem recebido prescrição de medicamentos para transtornos de saúde mental, observou-se maior intensidade de depressão, ansiedade e solidão (p < 0,001), padrão não verificado no grupo controle. Os dados apontam que a vivência com doença falciforme está associada a um nível maior de sofrimento psicológico, que pode ser atribuído à natureza crônica da doença e a estressores psicossociais. Observa-se a associação da depressão à solidão, sugerindo impacto do isolamento social percebido no convívio com a doença. Participantes com DF também exibiram diagnóstico pregresso de transtornos mentais, sugerindo a possível associação entre a vivência com a doença falciforme e uma maior vulnerabilidade à saúde mental. Destaca-se, portanto, a necessidade implementação de atenção psicológica ampliada nos centros de tratamento desses pacientes, com acesso a profissionais especializados em saúde mental, a fim de mitigar o sofrimento emocional e reduzir sub tratamentos, uma vez que o comprometimento da saúde mental pode não apenas reduzir a qualidade de vida, mas também agravar o quadro clínico. Fundação Hemominas; FAPEMIG.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Ouro Preto (BR), Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais (BR)
Openalex Percentile: Top 56%
Hemoglobinopathies and Related Disorders
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