DESAFIOS NO DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO DA ANEMIA FERROPRIVA E DOENÇA DE VON WILLEBRAND - RELATO DE CASO

A anemia ferropriva é uma condição que acomete cerca de 30% das mulheres acima de 18 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (2022). Há inúmeras causas, entre elas a deficiência nutricional de ferro, perdas sanguíneas crônicas, aumento da demanda e má absorção intestinal. Frente a um diagnóstico de anemia ferropriva, é fundamental estabelecer-se o diagnóstico etiológico. Dentre as perdas sanguíneas crônicas, é importante investigar a Doença de von Willebrand (DVW), pois é coagulopatia hereditária mais comum, porém subdiagnosticada. O diagnóstico é realizado com história pessoal de sangramentos cutâneos e mucosos, história familiar de manifestações hemorrágicas e exames laboratoriais com deficiência quantitativa ou qualitativa. Paciente, sexo feminino, parda, 24 anos, procurou assistência devido à anemia ferropriva sem melhora há vários anos, a qual era atribuída a sangramento aumentado devido o diagnóstico de miomatose uterina. Realizado miomectomia, porém manteve hipermenorréia e perpetuação do quadro de anemia ferropriva. Não apresentava sangramentos em outros sítios e em relação à história familiar, a mãe também apresentava hipermenorréia. Fez reposição com ferro por via oral, porém sem resposta. Sendo que, na investigação do motivo da má absorção de ferro oral, evidenciou-se gastrite atrófica, com indicação de reposição de ferro endovenoso. Devido ao sangramento persistente, a despeito da miomectomia, realizou-se pesquisa de DVW, sendo essa evidenciada pela dosagem da atividade do fator VIII, dosagem do cofator de ristocetina e dosagem do Fator de von Willebrand. O tratamento com ferro EV foi efetivo e o controle do sangramento obtido com anticoncepcional possibilitou a correção da anemia. Posteriormente, paciente apresentou desejo de engravidar. Durante a gestação, foi acompanhada por equipe multiprofissional, permitindo que a criança nascesse à termo e sem intercorrências hemorrágicas. No caso relatado, a paciente apresentava anemia ferropriva inicialmente atribuída a miomatose uterina, porém após intervenção cirúrgica, a ferrodeficiência persistiu visto que não houve resolução do sangramento uterino. Também em decorrência da ausência de incremento mediante a reposição de ferro via oral, foi levantada a possibilidade de uma síndrome disabsortiva. Nesse contexto, a endoscopia digestiva alta permitiu o diagnóstico de gastrite atrófica, e a indicação de reposição EV do ferro. Porém devido a perdas sanguíneas, não foi possível a correção da anemia e esta só foi efetivamente tratada após o diagnóstico de doença de von Willebrand. Isso mostra a importância do diagnóstico etiológico, que muitas vezes não é amplamente investigado. Portanto, a reposição de ferro, sem uma investigação etiológica, pode mascarar doenças de base, implicando em falhas terapêuticas e consequências drásticas. A anemia ferropriva é uma condição frequente no dia a dia do médico. Dessa forma, é necessária investigação das causas da ferropenia. A hipermenorréia é uma causa frequente de anemia ferropriva, sendo necessário o estabelecimento de sua etiologia. A ausência de protocolos clínicos sistematizados para investigação diagnóstica que integre atenção primária, especialistas e serviços de diagnóstico é um empecilho para a abordagem integral do paciente e para a elaboração de políticas públicas de saúde mais eficazes. Portanto, faz-se necessário a criação de medidas com objetivo de garantir melhores desfechos clínicos e de saúde pública.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104075
Primary Topic
Iron Metabolism and Disorders
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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DESAFIOS NO DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO DA ANEMIA FERROPRIVA E DOENÇA DE VON WILLEBRAND - RELATO DE CASO

Hilma Ribeiro, Airton Ruan Alexandre da Silva, Simone Albino da Silva, Rafael Coelho
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Iron Metabolism and Disorders
article

DESAFIOS NO DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO DA ANEMIA FERROPRIVA E DOENÇA DE VON WILLEBRAND - RELATO DE CASO

Hilma Ribeiro, Airton Ruan Alexandre da Silva, Simone Albino da Silva, Rafael Coelho
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Abstract

A anemia ferropriva é uma condição que acomete cerca de 30% das mulheres acima de 18 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (2022). Há inúmeras causas, entre elas a deficiência nutricional de ferro, perdas sanguíneas crônicas, aumento da demanda e má absorção intestinal. Frente a um diagnóstico de anemia ferropriva, é fundamental estabelecer-se o diagnóstico etiológico. Dentre as perdas sanguíneas crônicas, é importante investigar a Doença de von Willebrand (DVW), pois é coagulopatia hereditária mais comum, porém subdiagnosticada. O diagnóstico é realizado com história pessoal de sangramentos cutâneos e mucosos, história familiar de manifestações hemorrágicas e exames laboratoriais com deficiência quantitativa ou qualitativa. Paciente, sexo feminino, parda, 24 anos, procurou assistência devido à anemia ferropriva sem melhora há vários anos, a qual era atribuída a sangramento aumentado devido o diagnóstico de miomatose uterina. Realizado miomectomia, porém manteve hipermenorréia e perpetuação do quadro de anemia ferropriva. Não apresentava sangramentos em outros sítios e em relação à história familiar, a mãe também apresentava hipermenorréia. Fez reposição com ferro por via oral, porém sem resposta. Sendo que, na investigação do motivo da má absorção de ferro oral, evidenciou-se gastrite atrófica, com indicação de reposição de ferro endovenoso. Devido ao sangramento persistente, a despeito da miomectomia, realizou-se pesquisa de DVW, sendo essa evidenciada pela dosagem da atividade do fator VIII, dosagem do cofator de ristocetina e dosagem do Fator de von Willebrand. O tratamento com ferro EV foi efetivo e o controle do sangramento obtido com anticoncepcional possibilitou a correção da anemia. Posteriormente, paciente apresentou desejo de engravidar. Durante a gestação, foi acompanhada por equipe multiprofissional, permitindo que a criança nascesse à termo e sem intercorrências hemorrágicas. No caso relatado, a paciente apresentava anemia ferropriva inicialmente atribuída a miomatose uterina, porém após intervenção cirúrgica, a ferrodeficiência persistiu visto que não houve resolução do sangramento uterino. Também em decorrência da ausência de incremento mediante a reposição de ferro via oral, foi levantada a possibilidade de uma síndrome disabsortiva. Nesse contexto, a endoscopia digestiva alta permitiu o diagnóstico de gastrite atrófica, e a indicação de reposição EV do ferro. Porém devido a perdas sanguíneas, não foi possível a correção da anemia e esta só foi efetivamente tratada após o diagnóstico de doença de von Willebrand. Isso mostra a importância do diagnóstico etiológico, que muitas vezes não é amplamente investigado. Portanto, a reposição de ferro, sem uma investigação etiológica, pode mascarar doenças de base, implicando em falhas terapêuticas e consequências drásticas. A anemia ferropriva é uma condição frequente no dia a dia do médico. Dessa forma, é necessária investigação das causas da ferropenia. A hipermenorréia é uma causa frequente de anemia ferropriva, sendo necessário o estabelecimento de sua etiologia. A ausência de protocolos clínicos sistematizados para investigação diagnóstica que integre atenção primária, especialistas e serviços de diagnóstico é um empecilho para a abordagem integral do paciente e para a elaboração de políticas públicas de saúde mais eficazes. Portanto, faz-se necessário a criação de medidas com objetivo de garantir melhores desfechos clínicos e de saúde pública.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Iron Metabolism and Disorders
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