IDENTIFICAÇÃO DE S/Β-TALASSEMIA LEVE EM RECÉM-NASCIDO COM PADRÃO FS AO NASCIMENTO: RELATO DE CASO COM VARIANTE IVS-II-844 (C>A) E IVS-II-839 (T>C), EM CIS

Talassemia refere-se a distúrbios genéticos hereditários relacionados à hemoglobina, classificados como talassemia alfa e beta, de acordo com a mutação das cadeias alfa e beta da hemoglobina, respectivamente. A Sβ-talassemia é um subtipo de doença falciforme na qual ocorre herança conjunta do gene da hemoglobina S e de uma mutação no gene da beta-globina. A forma leve da Sβ-talassemia costuma evoluir com pouco ou nenhum sintoma nos primeiros meses de vida, devido à presença de Hb A e Hb F em concentrações que inibem a polimerização da Hb S. Conforme a mutação genética subjacente, os sintomas na criança mais velha podem ocorrer, na dependência da concentração da Hb A remanescente. Recém-nascido do sexo masculino realizou a coleta para triagem neonatal com quatro dias de vida. Os exames de triagem, realizados pelo Nupad e por rede suplementar, apresentaram padrão FS na cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) e na Focalização Isoelétrica (IEF), sugerindo forma grave de doença falciforme. A investigação familiar revelou pai com Hb AS e mãe com Hb AA e hemograma normal, enquanto a irmã também apresentou Hb AA e hemograma normal. Na PCR alelo-específica feita rotineiramente no Nupad quando se suspeita de doença falciforme, foi detectada a presença dos alelos GAG e GTG no códon 6 da cadeia beta, compatíveis, portanto, com Sβ0-talassemia, prevendo-se evolução clínica mais grave. Após 8-meses de vida, sem qualquer sintomatologia, nova dosagem foi feita e obteve-se Hb F 6,2%, Hb A 40,3%, Hb A2 5,0% e Hb S 48,5%. Índices hematimétricos: VCM 66,9 fl, HCM 21,7 pg e CHCM 32,5%. Foi feito sequenciamento do gene HBB que revelou dupla mutação no íntron 2, IVS-II-844 (C>A) e IVS-II-839 (T>C), em cis, além da mutação S. A presença do padrão FS na triagem neonatal sugere anemia falciforme homozigótica (Hb SS) ou Sβ0-talassemia. Na Sβ+-talassemia, o padrão é, em geral FSA, com a fração S em proporção superior à de A. O achado intrigante neste caso é a ocorrência de padrão FS em RN que se revelou, posteriormente, ter uma forma leve de Sβ+-talassemia (Hb A 40,3%, aos 8-meses de vida), ocasionada por dupla mutação no íntron 2 do gene HBB que, pela literatura internacional e na nossa experiência da triagem em MG (3-casos anteriores), tem curso clínico realmente leve. Como ocorreu neste caso e também nos outros, pediatras que desconhecem essa forma de Sβ+-talassemia têm tendência a considerar tais crianças como portadoras de traço falciforme e não recomendar a conduta correta de adotar o protocolo para doença falciforme. A razão pela qual a mutação β+-talassemia encontrada não se expressou no período neonatal com a produção de cadeia A, como esperado, é desconhecida e merece investigação adicional. De acordo com os dados laboratoriais dos pais, podemos assegurar que o pai é portador de traço falciforme e a mãe tem uma forma silenciosa de beta- talassemia heterozigótica, com concentração de Hb A2 nos limites de referência e ausência de alteração nos índices hematimétricos, o que está de acordo com a literatura internacional e também com nossa experiência acumulada. A Sβ+-talassemia leve do tipo IVS-II-844 (C>A) e IVS-II-839 (T>C), em cis, pode simular doença falciforme grave na triagem neonatal (padrão FS), exigindo investigação genética para o diagnóstico correto e conduta adequada. O relato destaca a importância da correlação entre os achados laboratoriais e o histórico familiar.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105067
Primary Topic
Hemoglobinopathies and Related Disorders
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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IDENTIFICAÇÃO DE S/Β-TALASSEMIA LEVE EM RECÉM-NASCIDO COM PADRÃO FS AO NASCIMENTO: RELATO DE CASO COM VARIANTE IVS-II-844 (C>A) E IVS-II-839 (T>C), EM CIS

Nathalie De Carvalho, Leonardo Pedreira PEREIRA, Rodrigo Ladeira, Jeovana Diomar Pinheiro Januário et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Hemoglobinopathies and Related Disorders
article

IDENTIFICAÇÃO DE S/Β-TALASSEMIA LEVE EM RECÉM-NASCIDO COM PADRÃO FS AO NASCIMENTO: RELATO DE CASO COM VARIANTE IVS-II-844 (C>A) E IVS-II-839 (T>C), EM CIS

Nathalie De Carvalho, Leonardo Pedreira PEREIRA, Rodrigo Ladeira, Jeovana Diomar Pinheiro Januário, P. Bergerhoff, M. S. VIANA
article en

Abstract

Talassemia refere-se a distúrbios genéticos hereditários relacionados à hemoglobina, classificados como talassemia alfa e beta, de acordo com a mutação das cadeias alfa e beta da hemoglobina, respectivamente. A Sβ-talassemia é um subtipo de doença falciforme na qual ocorre herança conjunta do gene da hemoglobina S e de uma mutação no gene da beta-globina. A forma leve da Sβ-talassemia costuma evoluir com pouco ou nenhum sintoma nos primeiros meses de vida, devido à presença de Hb A e Hb F em concentrações que inibem a polimerização da Hb S. Conforme a mutação genética subjacente, os sintomas na criança mais velha podem ocorrer, na dependência da concentração da Hb A remanescente. Recém-nascido do sexo masculino realizou a coleta para triagem neonatal com quatro dias de vida. Os exames de triagem, realizados pelo Nupad e por rede suplementar, apresentaram padrão FS na cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) e na Focalização Isoelétrica (IEF), sugerindo forma grave de doença falciforme. A investigação familiar revelou pai com Hb AS e mãe com Hb AA e hemograma normal, enquanto a irmã também apresentou Hb AA e hemograma normal. Na PCR alelo-específica feita rotineiramente no Nupad quando se suspeita de doença falciforme, foi detectada a presença dos alelos GAG e GTG no códon 6 da cadeia beta, compatíveis, portanto, com Sβ0-talassemia, prevendo-se evolução clínica mais grave. Após 8-meses de vida, sem qualquer sintomatologia, nova dosagem foi feita e obteve-se Hb F 6,2%, Hb A 40,3%, Hb A2 5,0% e Hb S 48,5%. Índices hematimétricos: VCM 66,9 fl, HCM 21,7 pg e CHCM 32,5%. Foi feito sequenciamento do gene HBB que revelou dupla mutação no íntron 2, IVS-II-844 (C>A) e IVS-II-839 (T>C), em cis, além da mutação S. A presença do padrão FS na triagem neonatal sugere anemia falciforme homozigótica (Hb SS) ou Sβ0-talassemia. Na Sβ+-talassemia, o padrão é, em geral FSA, com a fração S em proporção superior à de A. O achado intrigante neste caso é a ocorrência de padrão FS em RN que se revelou, posteriormente, ter uma forma leve de Sβ+-talassemia (Hb A 40,3%, aos 8-meses de vida), ocasionada por dupla mutação no íntron 2 do gene HBB que, pela literatura internacional e na nossa experiência da triagem em MG (3-casos anteriores), tem curso clínico realmente leve. Como ocorreu neste caso e também nos outros, pediatras que desconhecem essa forma de Sβ+-talassemia têm tendência a considerar tais crianças como portadoras de traço falciforme e não recomendar a conduta correta de adotar o protocolo para doença falciforme. A razão pela qual a mutação β+-talassemia encontrada não se expressou no período neonatal com a produção de cadeia A, como esperado, é desconhecida e merece investigação adicional. De acordo com os dados laboratoriais dos pais, podemos assegurar que o pai é portador de traço falciforme e a mãe tem uma forma silenciosa de beta- talassemia heterozigótica, com concentração de Hb A2 nos limites de referência e ausência de alteração nos índices hematimétricos, o que está de acordo com a literatura internacional e também com nossa experiência acumulada. A Sβ+-talassemia leve do tipo IVS-II-844 (C>A) e IVS-II-839 (T>C), em cis, pode simular doença falciforme grave na triagem neonatal (padrão FS), exigindo investigação genética para o diagnóstico correto e conduta adequada. O relato destaca a importância da correlação entre os achados laboratoriais e o histórico familiar.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Instituto de Ensino e Pesquisa Santa Casa (BR)
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Hemoglobinopathies and Related Disorders
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