USO DE RECUPERAÇÃO INTRAOPERATÓRIA SANGUE (RIS) EM OBSTETRÍCIA

A RIS é um procedimento bem documentado como estratégia de conservação do próprio sangue durante cirurgias com grande probabilidade de sangramento com diminuição da utilização de sangue alogênico. Sua utilização é bem difundida principalmente nas cirurgias cardiovasculares mas pouco utilizada ainda em obstetrícia no Brasil. Iniciamos a utilização de RIS em casos bem definidos de alteração da implantação placentária (acretismo placentário) com cesariana eletiva em 2023, com apoio da equipe de anestesia de 2 grandes maternidades referência em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro. Foram 17 pacientes. A média de idade foi de 36,8 anos (±4,0). A maioria dos casos envolveu pacientes com comorbidades, antecedentes obstétricos complexos e acretismo, o que justificou o uso de estratégias avançadas de conservação sanguínea. A média do volume total de sangue processado foi de 1.595 mL (±856), variando entre 162 mL e 2.927 mL. Deste volume, em média 417 mL (±289) foram reinfundidos para as pacientes. Sangramento médio mensurado durante a cirurgia de 3702 gramas (1240g-11000g). A hemoglobina pré-operatória média foi de 11,4 g/dL (±1,2), e a hemoglobina pós de 11,3 g/dL (±3,8), sugerindo manutenção dos níveis de hemoglobina na maioria dos casos. Apesar do uso da RIS, 64,7% das pacientes (11 de 17) ainda necessitaram de transfusão de concentrado de hemácias (CH), com média de 4,3 unidades (±3,8). Além disso, 10 pacientes receberam outros hemocomponentes. O tempo médio de internação foi de 23,6 dias (±23,3). A utilização da RIS em contextos obstétricos representa uma estratégia ainda pouco difundida no Brasil, especialmente quando comparada a seu uso consolidado em especialidades como a cirurgia cardiovascular e ortopedia. No presente estudo, a aplicação da técnica demonstrou- se especialmente relevante em pacientes com cenários clínicos de alta complexidade, como acretismo placentário, hemorragias maciças e histórico de múltiplas cesarianas, nas quais o risco de perda sanguínea significativa é elevado. Em um ambiente delicado como o parto — onde o bem- estar materno e fetal está intrinsecamente ligado à estabilidade hemodinâmica da gestante —, reduzir a exposição a transfusões alogênicas pode representar um ganho relevante em segurança. A transfusão alogênica, embora salvavidas, está associada a riscos imunológicos, infecciosos e logísticos, especialmente em situações de urgência. Portanto, o uso de sangue autólogo recuperado pode oferecer uma alternativa valiosa, segura e imediata. Apesar de a maioria das pacientes ainda ter recebido concentrado de hemácias, a média de volume processado e reinfundido foi compatível com uma estratégia de uso racional, evidenciando que a RIS contribuiu para a contenção da necessidade transfusional. É importante considerar que esses casos envolveram pacientes graves, com perdas sanguíneas expressivas, nas quais a transfusão poderia ter acrescentado morbidade. Os achados reforçam a viabilidade e os benefícios da RIS em obstetrícia, especialmente em cenários de alto risco. Ainda que sua adoção nesse campo seja recente e o volume para processamento ainda possa melhorar com a experiência da técnica e momento da aspiração, os resultados sugerem que sua incorporação a protocolos obstétricos possa representar um avanço significativo no manejo do sangramento materno, alinhado aos princípios do Patient Blood Management (PBM).

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105870
Primary Topic
Maternal and fetal healthcare
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

USO DE RECUPERAÇÃO INTRAOPERATÓRIA SANGUE (RIS) EM OBSTETRÍCIA

SC Miyaji, F Akil, CRA Monteiro, FCV Perini et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Maternal and fetal healthcare
article

USO DE RECUPERAÇÃO INTRAOPERATÓRIA SANGUE (RIS) EM OBSTETRÍCIA

SC Miyaji, F Akil, CRA Monteiro, FCV Perini, SD Vieira
article en

Abstract

A RIS é um procedimento bem documentado como estratégia de conservação do próprio sangue durante cirurgias com grande probabilidade de sangramento com diminuição da utilização de sangue alogênico. Sua utilização é bem difundida principalmente nas cirurgias cardiovasculares mas pouco utilizada ainda em obstetrícia no Brasil. Iniciamos a utilização de RIS em casos bem definidos de alteração da implantação placentária (acretismo placentário) com cesariana eletiva em 2023, com apoio da equipe de anestesia de 2 grandes maternidades referência em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro. Foram 17 pacientes. A média de idade foi de 36,8 anos (±4,0). A maioria dos casos envolveu pacientes com comorbidades, antecedentes obstétricos complexos e acretismo, o que justificou o uso de estratégias avançadas de conservação sanguínea. A média do volume total de sangue processado foi de 1.595 mL (±856), variando entre 162 mL e 2.927 mL. Deste volume, em média 417 mL (±289) foram reinfundidos para as pacientes. Sangramento médio mensurado durante a cirurgia de 3702 gramas (1240g-11000g). A hemoglobina pré-operatória média foi de 11,4 g/dL (±1,2), e a hemoglobina pós de 11,3 g/dL (±3,8), sugerindo manutenção dos níveis de hemoglobina na maioria dos casos. Apesar do uso da RIS, 64,7% das pacientes (11 de 17) ainda necessitaram de transfusão de concentrado de hemácias (CH), com média de 4,3 unidades (±3,8). Além disso, 10 pacientes receberam outros hemocomponentes. O tempo médio de internação foi de 23,6 dias (±23,3). A utilização da RIS em contextos obstétricos representa uma estratégia ainda pouco difundida no Brasil, especialmente quando comparada a seu uso consolidado em especialidades como a cirurgia cardiovascular e ortopedia. No presente estudo, a aplicação da técnica demonstrou- se especialmente relevante em pacientes com cenários clínicos de alta complexidade, como acretismo placentário, hemorragias maciças e histórico de múltiplas cesarianas, nas quais o risco de perda sanguínea significativa é elevado. Em um ambiente delicado como o parto — onde o bem- estar materno e fetal está intrinsecamente ligado à estabilidade hemodinâmica da gestante —, reduzir a exposição a transfusões alogênicas pode representar um ganho relevante em segurança. A transfusão alogênica, embora salvavidas, está associada a riscos imunológicos, infecciosos e logísticos, especialmente em situações de urgência. Portanto, o uso de sangue autólogo recuperado pode oferecer uma alternativa valiosa, segura e imediata. Apesar de a maioria das pacientes ainda ter recebido concentrado de hemácias, a média de volume processado e reinfundido foi compatível com uma estratégia de uso racional, evidenciando que a RIS contribuiu para a contenção da necessidade transfusional. É importante considerar que esses casos envolveram pacientes graves, com perdas sanguíneas expressivas, nas quais a transfusão poderia ter acrescentado morbidade. Os achados reforçam a viabilidade e os benefícios da RIS em obstetrícia, especialmente em cenários de alto risco. Ainda que sua adoção nesse campo seja recente e o volume para processamento ainda possa melhorar com a experiência da técnica e momento da aspiração, os resultados sugerem que sua incorporação a protocolos obstétricos possa representar um avanço significativo no manejo do sangramento materno, alinhado aos princípios do Patient Blood Management (PBM).

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