RELATO DE CASO DE TROMBOSE DE SEIO VENOSO EM RECÉM NASCIDO

Eventos tromboembólicos pediátricos são raros, porém associados a alta morbimortalidade. Este relato de trombose de seio venoso, visa ampliar o conhecimento e estimular a suspeição clínica precoce. Descrição de caso de trombose de seio venoso em recém-nascido, por meio da análise de prontuário, exames realizados e revisão da literatura. Paciente do sexo masculino, nascido de parto cesáreo por deslocamento de placenta, a termo, sem intercorrências neonatais. Com treze dias de vida, iniciou com vômitos, hipoatividade e sucção débil. No dia seguinte, apresentou dois episódios de crise convulsiva. Angiorressonância magnética evidenciou trombose dos seios venosos durais e do sistema venoso profundo, alterações isquêmicas no território da artéria cerebral posterior ipsilateral e foco isquêmico subagudo à esquerda na ponte. Iniciou-se enoxaparina em dose terapêutica, posteriormente suspensa, por decisão conjunta, diante da gravidade neurológica e do prognóstico reservado, considerando que o tratamento não alteraria o desfecho neurológico irreversível e poderia causar sangramento e desconforto ao paciente. Em seguimento ambulatorial: pesquisa para Síndrome Antifosfolípide (SAF) negativa; fator V de Leiden e mutação da protrombina normais; antitrombina III com níveis normais. O paciente apresentou proteína C discretamente baixa (53%; referência: 70%–130%) e proteína S também discretamente reduzida (74%; referência: 87%–129%). Nova dosagem será realizada em alguns meses. As dosagens de proteínas C e S dos pais são normais. Atualmente, o paciente apresenta quadro neurológico grave, em acompanhamento multidisciplinar. A trombose cerebral em recém-nascidos é rara, mas grave, geralmente associada a múltiplos fatores de risco maternos ou neonatais. Entre eles, destacam-se complicações perinatais, alterações placentárias, anomalias venosas, cardiopatias congênitas e distúrbios trombofílicos, presentes em até 20% dos casos. Clinicamente, deve-se suspeitar da condição em neonatos com encefalopatia, convulsões, letargia, hipotonia, apneia ou dificuldades de alimentação. Devido à inespecificidade dos sintomas, a investigação por imagem, especialmente a ressonância magnética, é fundamental. O ecocardiograma auxilia na identificação de cardiopatias estruturais, com shunt direita-esquerda como possível causa. Distúrbios trombofílicos, como mutações no fator V de Leiden, deficiência congênita de proteínas C, S ou antitrombina e mutação do gene da protrombina, podem contribuir para o AVC perinatal. Testes de coagulação são recomendados, pois alterações podem orientar o manejo antitrombótico e a triagem familiar para trombofilias hereditárias. Contudo, por apresentarem valores fisiologicamente reduzidos nos neonatos, resultados alterados devem ser reavaliados após alguns meses. A pesquisa de trombofilia pode ser feita no lactente após a alta ou no seguimento ambulatorial, dado o volume sanguíneo necessário para a investigação completa. A triagem familiar pode complementar a investigação e contribuir para o manejo adequado do caso. A trombose venosa cerebral neonatal, embora rara, deve ser considerada diante de sinais neurológicos inespecíficos nos primeiros dias de vida. Este relato destaca a importância da suspeição clínica precoce, da investigação etiológica abrangente e do acompanhamento multidisciplinar, especialmente em casos com desfecho neurológico grave e prognóstico reservado.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105025
Primary Topic
Blood Coagulation and Thrombosis Mechanisms
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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RELATO DE CASO DE TROMBOSE DE SEIO VENOSO EM RECÉM NASCIDO

M.E.R.B. Hibner, Leandro Lopes Gibson Alves, Marcos Antônio de Rezende
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood Coagulation and Thrombosis Mechanisms
article

RELATO DE CASO DE TROMBOSE DE SEIO VENOSO EM RECÉM NASCIDO

M.E.R.B. Hibner, Leandro Lopes Gibson Alves, Marcos Antônio de Rezende
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Abstract

Eventos tromboembólicos pediátricos são raros, porém associados a alta morbimortalidade. Este relato de trombose de seio venoso, visa ampliar o conhecimento e estimular a suspeição clínica precoce. Descrição de caso de trombose de seio venoso em recém-nascido, por meio da análise de prontuário, exames realizados e revisão da literatura. Paciente do sexo masculino, nascido de parto cesáreo por deslocamento de placenta, a termo, sem intercorrências neonatais. Com treze dias de vida, iniciou com vômitos, hipoatividade e sucção débil. No dia seguinte, apresentou dois episódios de crise convulsiva. Angiorressonância magnética evidenciou trombose dos seios venosos durais e do sistema venoso profundo, alterações isquêmicas no território da artéria cerebral posterior ipsilateral e foco isquêmico subagudo à esquerda na ponte. Iniciou-se enoxaparina em dose terapêutica, posteriormente suspensa, por decisão conjunta, diante da gravidade neurológica e do prognóstico reservado, considerando que o tratamento não alteraria o desfecho neurológico irreversível e poderia causar sangramento e desconforto ao paciente. Em seguimento ambulatorial: pesquisa para Síndrome Antifosfolípide (SAF) negativa; fator V de Leiden e mutação da protrombina normais; antitrombina III com níveis normais. O paciente apresentou proteína C discretamente baixa (53%; referência: 70%–130%) e proteína S também discretamente reduzida (74%; referência: 87%–129%). Nova dosagem será realizada em alguns meses. As dosagens de proteínas C e S dos pais são normais. Atualmente, o paciente apresenta quadro neurológico grave, em acompanhamento multidisciplinar. A trombose cerebral em recém-nascidos é rara, mas grave, geralmente associada a múltiplos fatores de risco maternos ou neonatais. Entre eles, destacam-se complicações perinatais, alterações placentárias, anomalias venosas, cardiopatias congênitas e distúrbios trombofílicos, presentes em até 20% dos casos. Clinicamente, deve-se suspeitar da condição em neonatos com encefalopatia, convulsões, letargia, hipotonia, apneia ou dificuldades de alimentação. Devido à inespecificidade dos sintomas, a investigação por imagem, especialmente a ressonância magnética, é fundamental. O ecocardiograma auxilia na identificação de cardiopatias estruturais, com shunt direita-esquerda como possível causa. Distúrbios trombofílicos, como mutações no fator V de Leiden, deficiência congênita de proteínas C, S ou antitrombina e mutação do gene da protrombina, podem contribuir para o AVC perinatal. Testes de coagulação são recomendados, pois alterações podem orientar o manejo antitrombótico e a triagem familiar para trombofilias hereditárias. Contudo, por apresentarem valores fisiologicamente reduzidos nos neonatos, resultados alterados devem ser reavaliados após alguns meses. A pesquisa de trombofilia pode ser feita no lactente após a alta ou no seguimento ambulatorial, dado o volume sanguíneo necessário para a investigação completa. A triagem familiar pode complementar a investigação e contribuir para o manejo adequado do caso. A trombose venosa cerebral neonatal, embora rara, deve ser considerada diante de sinais neurológicos inespecíficos nos primeiros dias de vida. Este relato destaca a importância da suspeição clínica precoce, da investigação etiológica abrangente e do acompanhamento multidisciplinar, especialmente em casos com desfecho neurológico grave e prognóstico reservado.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Minas Gerais (BR), Hospital Metropolitano (EC)
Openalex Percentile: Top 59%
Blood Coagulation and Thrombosis Mechanisms
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