ANÁLISE METABOLÔMICA E SUA ASSOCIAÇÃO AO PROGNÓSTICO E À RESPOSTA TERAPÊUTICA DE PACIENTES COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

A leucemia mieloide aguda (LMA) é caracterizada pela expansão clonal de células progenitoras mieloides, resultante de alterações genéticas e moleculares complexas. A reprogramação do metabolismo, uma característica do câncer, destaca-se como um mecanismo essencial para sustentar a elevada demanda bioenergética e biossintética das células tumorais. Essa adaptação metabólica permite não apenas a sobrevivência e proliferação das células malignas, mas contribui para sua capacidade de evasão imunológica e resistência terapêutica. Neste contexto, a aplicação de abordagens metabolômicas tem se mostrado ferramentas valiosas na investigação dos mecanismos de patogênese e progressão de doenças. Avaliar as alterações no perfil metabólico de pacientes com leucemia mieloide aguda antes e após o início do tratamento. Foram incluídos 16 pacientes diagnosticados com LMA provenientes, do Hospital das Clínicas da UFMG. Foram realizadas coletas no momento do diagnóstico (T0) e três semanas após o início da terapia de indução (citarabina, daunorrubicina, dexametasona, hidroxiuréia) (T3). Os plasmas dos pacientes foram analisados no sistema Agilent HPLC 1260 Infinity II/Q-ToF - MS 6530. Os dados metabolômicos foram processados utilizando o XCMS online e as análises estatísticas foram realizadas no MetaboAnalyst. A anotação dos metabólitos foi realizada por meio da correspondência dos valores de m/z com entradas da base de dados da ferramenta online CEU Mass Mediator, considerando-se também a plausibilidade biológica e a distribuição isotópica. Foram selecionados metabólitos/classes discriminadores entre os tempos avaliados pela análise estatística univariada (FDR<0,05, FC>1,0) anotados como: esfingolipídeos, triglicerídeos, esteroides, LisoPC, que estão relacionados ao metabolismo de purinas e lipídios. Foi observada elevação destes metabólitos no tempo T0 (diagnóstico), o que está relacionado a elevada taxa de proliferação e demanda energética das células leucêmicas. Assim, a redução na intensidade destes após início da terapia, observada na maioria dos pacientes, indica eficácia do tratamento. Entretanto, verificou-se que a redução da intensidade destes metabólitos após início da terapia não foi efetiva em um grupo de indivíduos, sendo que destes 71% evoluíram para óbito e 57% eram portadores da mutação FLT3, marcador frequentemente associado a um prognóstico desfavorável. Com base nestes resultados, foi possível observar uma relação entre o perfil metabólico e o prognóstico da LMA. Pacientes com desfecho clínico favorável apresentaram redução na intensidade de metabólitos relacionados à proliferação celular descontrolada e biossíntese de macromoléculas essenciais, enquanto pacientes com prognóstico adverso, os níveis desses metabólitos permaneceram elevados após início do tratamento, indicando falha no controle da proliferação celular e permanência de célula leucêmicas. A presença da mutação no gene FLT3, frequentemente associada à maior agressividade e pior prognóstico, pode estar associada a persistência de um fenótipo metabólico resistente. Esses achados sugerem a presença de um possível mecanismo de resistência metabólica à quimioterapia, no qual vias biossintéticas e proliferativas se mantêm ativas mesmo após a indução terapêutica, o que reforça a importância da caracterização metabolômica como ferramenta complementar na estratificação de risco e no monitoramento terapêutico da LMA.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104489
Primary Topic
Acute Myeloid Leukemia Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
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ANÁLISE METABOLÔMICA E SUA ASSOCIAÇÃO AO PROGNÓSTICO E À RESPOSTA TERAPÊUTICA DE PACIENTES COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

Daniel Coutinho, Francisco Matheus Sousa Araujo, A. P. Sabino, Fernando Rocha Oliveira et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Acute Myeloid Leukemia Research
article

ANÁLISE METABOLÔMICA E SUA ASSOCIAÇÃO AO PROGNÓSTICO E À RESPOSTA TERAPÊUTICA DE PACIENTES COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

Daniel Coutinho, Francisco Matheus Sousa Araujo, A. P. Sabino, Fernando Rocha Oliveira, Otavio Augusto Moreira, F Favretto
article en

Abstract

A leucemia mieloide aguda (LMA) é caracterizada pela expansão clonal de células progenitoras mieloides, resultante de alterações genéticas e moleculares complexas. A reprogramação do metabolismo, uma característica do câncer, destaca-se como um mecanismo essencial para sustentar a elevada demanda bioenergética e biossintética das células tumorais. Essa adaptação metabólica permite não apenas a sobrevivência e proliferação das células malignas, mas contribui para sua capacidade de evasão imunológica e resistência terapêutica. Neste contexto, a aplicação de abordagens metabolômicas tem se mostrado ferramentas valiosas na investigação dos mecanismos de patogênese e progressão de doenças. Avaliar as alterações no perfil metabólico de pacientes com leucemia mieloide aguda antes e após o início do tratamento. Foram incluídos 16 pacientes diagnosticados com LMA provenientes, do Hospital das Clínicas da UFMG. Foram realizadas coletas no momento do diagnóstico (T0) e três semanas após o início da terapia de indução (citarabina, daunorrubicina, dexametasona, hidroxiuréia) (T3). Os plasmas dos pacientes foram analisados no sistema Agilent HPLC 1260 Infinity II/Q-ToF - MS 6530. Os dados metabolômicos foram processados utilizando o XCMS online e as análises estatísticas foram realizadas no MetaboAnalyst. A anotação dos metabólitos foi realizada por meio da correspondência dos valores de m/z com entradas da base de dados da ferramenta online CEU Mass Mediator, considerando-se também a plausibilidade biológica e a distribuição isotópica. Foram selecionados metabólitos/classes discriminadores entre os tempos avaliados pela análise estatística univariada (FDR<0,05, FC>1,0) anotados como: esfingolipídeos, triglicerídeos, esteroides, LisoPC, que estão relacionados ao metabolismo de purinas e lipídios. Foi observada elevação destes metabólitos no tempo T0 (diagnóstico), o que está relacionado a elevada taxa de proliferação e demanda energética das células leucêmicas. Assim, a redução na intensidade destes após início da terapia, observada na maioria dos pacientes, indica eficácia do tratamento. Entretanto, verificou-se que a redução da intensidade destes metabólitos após início da terapia não foi efetiva em um grupo de indivíduos, sendo que destes 71% evoluíram para óbito e 57% eram portadores da mutação FLT3, marcador frequentemente associado a um prognóstico desfavorável. Com base nestes resultados, foi possível observar uma relação entre o perfil metabólico e o prognóstico da LMA. Pacientes com desfecho clínico favorável apresentaram redução na intensidade de metabólitos relacionados à proliferação celular descontrolada e biossíntese de macromoléculas essenciais, enquanto pacientes com prognóstico adverso, os níveis desses metabólitos permaneceram elevados após início do tratamento, indicando falha no controle da proliferação celular e permanência de célula leucêmicas. A presença da mutação no gene FLT3, frequentemente associada à maior agressividade e pior prognóstico, pode estar associada a persistência de um fenótipo metabólico resistente. Esses achados sugerem a presença de um possível mecanismo de resistência metabólica à quimioterapia, no qual vias biossintéticas e proliferativas se mantêm ativas mesmo após a indução terapêutica, o que reforça a importância da caracterização metabolômica como ferramenta complementar na estratificação de risco e no monitoramento terapêutico da LMA.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Juiz de Fora (BR), Universidade Federal de Minas Gerais (BR)
Openalex Percentile: Top 59%
Acute Myeloid Leukemia Research
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