TRANSFUSÃO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS RHD POSITIVA EM PACIENTE COM AUTOANTICORPO ANTI-D: RELATO DE CASO

O antígeno RhD, pertencente ao sistema Rh (ISBT 004), é o mais imunogênico após os antígenos ABO na prática transfusional. Sua expressão é determinada pelo gene RHD, que possui mais de 170 alelos descritos, essa diversidade gênica resulta de mecanismos moleculares como: polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), conversões gênicas, alelos híbridos com gene homólogo RHCE, inserções e deleções de nucleotídeos. Essas variações geram fenótipos conhecidos como RhD fraco e RhD parcial. A maior parte desses fenótipos não é identificada pelos testes sorológicos convencionais de tipagem para o antígeno RhD. Nesses casos, é necessário o emprego de ferramentas de biologia molecular, associadas a testes sorológicos complementares, para uma correta caracterização do antígeno RhD. A seguir, apresentamos um relato de caso em que foi detectada a presença de anticorpo anti-D no soro de um paciente cuja tipagem sanguínea indicava RhD positivo, sem qualquer discrepância sorológica. Paciente do sexo masculino, 72 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma gástrico Bormann III e síndrome coronariana aguda. Apresenta histórico de transfusão de 6 unidades de Concentrado de Hemácias (CH) O RhD positivo, com resposta satisfatória em todas as transfusões (incremento de hemoglobina superior a 1 g/dL) e sem alterações nos testes imuno- hematológicos. Em 12/2024, foi solicitada a transfusão de 1 unidade de CH devido à hemoglobina de 6,8 g/dL. Nos testes imuno-hematológicos realizados, o paciente apresentou tipagem sanguínea O RhD positivo, utilizando clones monoclonais MS-201 e MS-26. O Teste da Antiglobulina Direto (TAD), realizado por metodologia em gel (IgG e C3d) negativo. A fenotipagem Rh+Kell revelou o perfil R1r; K-. A Pesquisa de Anticorpos Irregulares (P.A.I) apresentou resultado positivo e, na Identificação de Anticorpos Irregulares (I.A.I), foi detectado o anticorpo anti-D. O anticorpo apresentou aglutinação fraco-positiva (W) no meio LISS/Coombs e reação (1+) no meio NaCl/enzima. Diante da suspeita de um possível autoanticorpo ou aloanticorpo anti-D e da necessidade transfusional, o paciente recebeu transfusão de CH O RhD negativo. Em paralelo, a amostra foi encaminhada para investigação molecular por PCR multiplex, com o objetivo de identificar variantes associadas ao fenótipo RhD parcial. Na análise, não foram detectados os alelos comumente relacionados aos fenótipos parciais: RHD*DIIIa, RHD*DFR1, RHD*DV1, RHD*DVI.1, RHD*DVI2, RHD*DIVa, RHD*DIVb e RHD*DBT1. O teste molecular evidenciou a presença de todos os exons do gene RHD, com controles positivos e negativos conformes, caracterizando o genótipo RHD*1 (RhD positivo). Após a análise molecular, concluímos que o paciente possuía autoanticorpo anti-D. Foram administradas três unidades de CH O RhD positivo, resultando em elevação da hemoglobina de 6,9g/dL para 10,2 g/dL. O paciente evoluiu sem sinais de reação transfusional e com marcadores de hemólise dentro dos parâmetros normais. Seis meses após, em maio de 2025, nova investigação imuno- hematológica demonstrou P.A.I negativa. O caso relatado destaca a importância da biologia molecular de grupos sanguíneos, associada aos testes sorológicos, para a correta classificação do anticorpo anti-D. Os resultados permitiram um manejo mais racional do estoque de CH O RhD negativo, garantindo a segurança transfusional e a otimização de recursos.

Authors

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105685
Primary Topic
Blood groups and transfusion
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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Controls
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article

TRANSFUSÃO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS RHD POSITIVA EM PACIENTE COM AUTOANTICORPO ANTI-D: RELATO DE CASO

Fábio Jesus Moreira de Almeida, Alicia Quesada Cortés, TAO Paula, CY Nakazawa et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood groups and transfusion
article

TRANSFUSÃO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS RHD POSITIVA EM PACIENTE COM AUTOANTICORPO ANTI-D: RELATO DE CASO

Fábio Jesus Moreira de Almeida, Alicia Quesada Cortés, TAO Paula, CY Nakazawa, RF Lima, JCSG Rodrigues, LE Apparicio
article en

Abstract

O antígeno RhD, pertencente ao sistema Rh (ISBT 004), é o mais imunogênico após os antígenos ABO na prática transfusional. Sua expressão é determinada pelo gene RHD, que possui mais de 170 alelos descritos, essa diversidade gênica resulta de mecanismos moleculares como: polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), conversões gênicas, alelos híbridos com gene homólogo RHCE, inserções e deleções de nucleotídeos. Essas variações geram fenótipos conhecidos como RhD fraco e RhD parcial. A maior parte desses fenótipos não é identificada pelos testes sorológicos convencionais de tipagem para o antígeno RhD. Nesses casos, é necessário o emprego de ferramentas de biologia molecular, associadas a testes sorológicos complementares, para uma correta caracterização do antígeno RhD. A seguir, apresentamos um relato de caso em que foi detectada a presença de anticorpo anti-D no soro de um paciente cuja tipagem sanguínea indicava RhD positivo, sem qualquer discrepância sorológica. Paciente do sexo masculino, 72 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma gástrico Bormann III e síndrome coronariana aguda. Apresenta histórico de transfusão de 6 unidades de Concentrado de Hemácias (CH) O RhD positivo, com resposta satisfatória em todas as transfusões (incremento de hemoglobina superior a 1 g/dL) e sem alterações nos testes imuno- hematológicos. Em 12/2024, foi solicitada a transfusão de 1 unidade de CH devido à hemoglobina de 6,8 g/dL. Nos testes imuno-hematológicos realizados, o paciente apresentou tipagem sanguínea O RhD positivo, utilizando clones monoclonais MS-201 e MS-26. O Teste da Antiglobulina Direto (TAD), realizado por metodologia em gel (IgG e C3d) negativo. A fenotipagem Rh+Kell revelou o perfil R1r; K-. A Pesquisa de Anticorpos Irregulares (P.A.I) apresentou resultado positivo e, na Identificação de Anticorpos Irregulares (I.A.I), foi detectado o anticorpo anti-D. O anticorpo apresentou aglutinação fraco-positiva (W) no meio LISS/Coombs e reação (1+) no meio NaCl/enzima. Diante da suspeita de um possível autoanticorpo ou aloanticorpo anti-D e da necessidade transfusional, o paciente recebeu transfusão de CH O RhD negativo. Em paralelo, a amostra foi encaminhada para investigação molecular por PCR multiplex, com o objetivo de identificar variantes associadas ao fenótipo RhD parcial. Na análise, não foram detectados os alelos comumente relacionados aos fenótipos parciais: RHD*DIIIa, RHD*DFR1, RHD*DV1, RHD*DVI.1, RHD*DVI2, RHD*DIVa, RHD*DIVb e RHD*DBT1. O teste molecular evidenciou a presença de todos os exons do gene RHD, com controles positivos e negativos conformes, caracterizando o genótipo RHD*1 (RhD positivo). Após a análise molecular, concluímos que o paciente possuía autoanticorpo anti-D. Foram administradas três unidades de CH O RhD positivo, resultando em elevação da hemoglobina de 6,9g/dL para 10,2 g/dL. O paciente evoluiu sem sinais de reação transfusional e com marcadores de hemólise dentro dos parâmetros normais. Seis meses após, em maio de 2025, nova investigação imuno- hematológica demonstrou P.A.I negativa. O caso relatado destaca a importância da biologia molecular de grupos sanguíneos, associada aos testes sorológicos, para a correta classificação do anticorpo anti-D. Os resultados permitiram um manejo mais racional do estoque de CH O RhD negativo, garantindo a segurança transfusional e a otimização de recursos.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Blood groups and transfusion
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