ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL ISQUÊMICO E DÉFICIT COGNITIVO NA DOENÇA FALCIFORME
O declínio cognitivo (DC) tem sido relatado em pacientes com doença falciforme (DF) em crianças e adultos. A elevada frequência de manifestações cerebrovasculares na DF é considerada, em parte, como causa do DC. No entanto, ainda existe pouca informação sobre DC em adultos, embora ele comprometa as funções diárias e a aderência ao tratamento. Avaliar adultos com DF e antecedente de acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e sua possível correlação com o DC. Trata-se de estudo observacional e transversal, onde foram incluídos pacientes com idade 18 anos que concordaram em participar da pesquisa. Os dados demográficos e clínicos foram coletados a partir da análise dos prontuários. Avaliação do DC foi realizada por método subjetivo. Para testar a associação entre variáveis categóricas foi utilizado o Teste Exato de Fisher e na comparação de variáveis contínuas o Teste de Wilcoxon- Mann-Whitney. Foram avaliados 19 pacientes, mediana de idade de 24 anos (IQR: 20 e 44 anos), sendo 57,9% do sexo masculino. O genótipo dominante foi anemia falciforme (SS) (89,5%). Quanto à escolaridade, 42,1% completaram o ensino médio e 26,3% não completaram o ensino fundamental. Onze pacientes (58%) apresentaram 2 AVCs, totalizando 44 eventos: 32% destes ocorreram entre 0-5 anos e 32% entre 6-10 anos. Quanto à idade do primeiro AVC, este ocorreu antes dos 10 anos em 14 (73,6%) indivíduos. Foram observados diversos graus e quantidades de problemas cognitivos como memória, afasia, atenção e as funções executivas o que prejudicam às atividades diárias. Quinze (78,9%) dos 19 pacientes apresentaram DC. Sendo que, dos 14 que tiveram o primeiro AVC até os 10 anos, 13 (92,9%) apresentaram DC. Em comparação, o DC foi observado em apenas 2 (40%) de 5 pacientes cujo primeiro AVC ocorreu após os 10 anos. Assim, observou-se forte associação entre o primeiro AVC em idade precoce e DC (p = 0,037), com chance de desenvolver DC de 19,5x maior nestes pacientes em relação àqueles que tiveram o evento tardiamente. Não foi encontrada evidência de associação entre tempo de escolaridade formal e presença de DC (p = 0,426). A concentração dos episódios de AVC ocorreu entre 0 e 10 anos de idade chegando a 64% da amostra Pacientes que tiveram o primeiro AVC nessa faixa etária apresentaram maior frequência de DC. Esse dado vai ao encontro de estudo de Mualen e cols que afirmam que crianças, por estarem em formação neural, ao ter tido o primeiro AVC em tenra idade podem ter sequelas maiores e mais severas do que um adulto, por vezes, irreversíveis. Não foi possível comprovar que faltas escolares relacionadas a internações fosse um preditor de DC como Silva e Cerqueira relatam. A constatação de forte associação do primeiro AVC com DC reforça a necessidade da realização de rastreio eficaz (doppler transcraniano) dos eventos de AVC para que o futuro adulto consiga manter sua rotina diária com autonomia.
Authors
- T.B. Rocha
- L. C. de Faria (ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3112-0991)
- MS Figueiredo
- SR Pires
- JF Zambianco
- MJF RAMOS-REIS
Institutions
- Universidade Federal de São Paulo (BR)
Publication Details
- Journal
- Hematology Transfusion and Cell Therapy
- Published
- 2025-10-01
- DOI
- https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104096
- Primary Topic
- Glycogen Storage Diseases and Myoclonus
- Type
- article
- Field-Weighted Citation Impact
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