PBM NO TRAUMA: CONTROLE DA HEMORRAGIA E USO RACIONAL DE HEMODERIVADOS

O trauma é a principal causa de mortalidade entre adultos jovens com mais de 5 milhões de óbitos anuais no mundo. Cerca de 50% dessas mortes decorrem de hemorragias incontroláveis nas primeiras 48 horas. A mortalidade no politrauma também está associada ao volume de transfusões sanguíneas, sendo significativamente maior naqueles que recebem transfusão maciça. A Organização Mundial da Saúde recomenda a adoção do Patient Blood Management (PBM), que tem como um de seus pilares o uso racional do sangue, priorizando sua administração apenas quando os benefícios superarem os riscos e reduzindo o consumo desnecessário de hemocomponentes. Contudo, ainda há uma lacuna na sua conscientização e efetiva implementação. Avaliar o uso do PBM no trauma como forma de promover o uso racional de hemoderivados no controle hemorrágico. Revisão narrativa da literatura baseada na estratégia PICO: vítimas de trauma (P) submetidas a controle hemorrágico (I) comparadas com as diretrizes do PBM (C) visando reduzir complicações e mortalidade (O). A busca foi feita no PubMed com os descritores “Patient Blood Management” e “PBM”, além dos equivalentes MeSH para “Polytrauma”, “Hemorrhage” e “Blood Transfusion”. Incluíram-se artigos originais completos dos últimos 5 anos e foram excluídos estudos com animais, revisões, diretrizes e textos fora do tema. Identificados 119 artigos que após triagem por título e resumo restaram 7, permanecendo 6 destes mediante leitura completa. De acordo com Qiao et al (2021), a adoção de estratégias de gerenciamento de sangue e controle de danos com o ácido tranexâmico (TXA) e torniquetes reduzem a necessidade de hemoderivados. O TXA mostrou-se mais eficaz quando administrado imediatamente, atrasos de 15 minutos aumentaram sangramentos e reduziram a sobrevida em 10% e seu uso após 3 horas do início da hemorragia não demonstrou benefícios. No tratamento inicial pediátrico, o TXA também é recomendado e deve integrar o protocolo de hemorragia maciça. Em crianças, a mortalidade pós-trauma é maior entre as que recebem transfusão, sendo as recomendações do PBM uma solução para reduzir riscos e melhorar desfechos clínicos. Em contrapartida, estudo multicêntrico apontou que uma exceção à prática transfusional conservadora ocorre em trauma grave e sangramento com risco de vida, pois o atraso das terapias com hemocomponentes pode desencadear a Tríade da Morte (coagulopatia, acidose e hipotermia) com consequente aumento da hemorragia, necessidade de transfusão e mortalidade. Essa recomendação é corroborada pelo consenso do PBM da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular através do Protocolo de Hemorragia Grave, desde que o encerramento dessas transfusões seja feito no momento adequado para minimizar desperdícios. A adesão ao PBM ainda é limitada, pois muitas decisões transfusionais são baseadas em rotinas automatizadas, protocolos desatualizados ou julgamentos individuais, e não em critérios clínicos baseados em evidência ou na real necessidade do paciente. É preciso alinhar a prática às diretrizes transfusionais no trauma, diante da escassez de hemocomponentes e do impacto de seu uso inadequado. O PBM otimiza estratégias transfusionais ao reduzir eventos adversos e racionalizar recursos. Por fim, mais estudos são necessários para consolidar o PBM no contexto do trauma e fornecer maior suporte científico para orientar condutas seguras e eficazes.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105863
Primary Topic
Trauma, Hemostasis, Coagulopathy, Resuscitation
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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PBM NO TRAUMA: CONTROLE DA HEMORRAGIA E USO RACIONAL DE HEMODERIVADOS

Ingrid Cabral dos Santos, PRC Utsch, Guilherme Sevá Gomes, LdC Bolotari
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Trauma, Hemostasis, Coagulopathy, Resuscitation
article

PBM NO TRAUMA: CONTROLE DA HEMORRAGIA E USO RACIONAL DE HEMODERIVADOS

Ingrid Cabral dos Santos, PRC Utsch, Guilherme Sevá Gomes, LdC Bolotari
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Abstract

O trauma é a principal causa de mortalidade entre adultos jovens com mais de 5 milhões de óbitos anuais no mundo. Cerca de 50% dessas mortes decorrem de hemorragias incontroláveis nas primeiras 48 horas. A mortalidade no politrauma também está associada ao volume de transfusões sanguíneas, sendo significativamente maior naqueles que recebem transfusão maciça. A Organização Mundial da Saúde recomenda a adoção do Patient Blood Management (PBM), que tem como um de seus pilares o uso racional do sangue, priorizando sua administração apenas quando os benefícios superarem os riscos e reduzindo o consumo desnecessário de hemocomponentes. Contudo, ainda há uma lacuna na sua conscientização e efetiva implementação. Avaliar o uso do PBM no trauma como forma de promover o uso racional de hemoderivados no controle hemorrágico. Revisão narrativa da literatura baseada na estratégia PICO: vítimas de trauma (P) submetidas a controle hemorrágico (I) comparadas com as diretrizes do PBM (C) visando reduzir complicações e mortalidade (O). A busca foi feita no PubMed com os descritores “Patient Blood Management” e “PBM”, além dos equivalentes MeSH para “Polytrauma”, “Hemorrhage” e “Blood Transfusion”. Incluíram-se artigos originais completos dos últimos 5 anos e foram excluídos estudos com animais, revisões, diretrizes e textos fora do tema. Identificados 119 artigos que após triagem por título e resumo restaram 7, permanecendo 6 destes mediante leitura completa. De acordo com Qiao et al (2021), a adoção de estratégias de gerenciamento de sangue e controle de danos com o ácido tranexâmico (TXA) e torniquetes reduzem a necessidade de hemoderivados. O TXA mostrou-se mais eficaz quando administrado imediatamente, atrasos de 15 minutos aumentaram sangramentos e reduziram a sobrevida em 10% e seu uso após 3 horas do início da hemorragia não demonstrou benefícios. No tratamento inicial pediátrico, o TXA também é recomendado e deve integrar o protocolo de hemorragia maciça. Em crianças, a mortalidade pós-trauma é maior entre as que recebem transfusão, sendo as recomendações do PBM uma solução para reduzir riscos e melhorar desfechos clínicos. Em contrapartida, estudo multicêntrico apontou que uma exceção à prática transfusional conservadora ocorre em trauma grave e sangramento com risco de vida, pois o atraso das terapias com hemocomponentes pode desencadear a Tríade da Morte (coagulopatia, acidose e hipotermia) com consequente aumento da hemorragia, necessidade de transfusão e mortalidade. Essa recomendação é corroborada pelo consenso do PBM da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular através do Protocolo de Hemorragia Grave, desde que o encerramento dessas transfusões seja feito no momento adequado para minimizar desperdícios. A adesão ao PBM ainda é limitada, pois muitas decisões transfusionais são baseadas em rotinas automatizadas, protocolos desatualizados ou julgamentos individuais, e não em critérios clínicos baseados em evidência ou na real necessidade do paciente. É preciso alinhar a prática às diretrizes transfusionais no trauma, diante da escassez de hemocomponentes e do impacto de seu uso inadequado. O PBM otimiza estratégias transfusionais ao reduzir eventos adversos e racionalizar recursos. Por fim, mais estudos são necessários para consolidar o PBM no contexto do trauma e fornecer maior suporte científico para orientar condutas seguras e eficazes.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Juiz de Fora (BR), Universidade Presidente Antônio Carlos (BR)
Openalex Percentile: Top 64%
Trauma, Hemostasis, Coagulopathy, Resuscitation
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