LESÃO MIOCÁRDICA APÓS CIRURGIA NÃO CARDÍACA COM USO DE CELL SAVER

A lesão miocárdica após cirurgia não-cardíaca (MINS) é complicação perioperatória associada a aumento da morbimortalidade cardiovascular. Segundo Botto (2014), a MINS foi definida como lesão de relevância prognóstica por isquemia ocorrida durante ou até 30 dias após cirurgia não cardíaca. Sua detecção ocorre por elevação de troponina, mesmo sem sintomas isquêmicos típicos. O Cell Saver é estratégia usada para reduzir hemotransfusões e otimizar o manejo transfusional em cirurgias. Contudo, pouco se sabe sobre seu impacto no desenvolvimento da MINS. Avaliar a incidência de lesão miocárdica perioperatória em pacientes submetidos a cirurgias não-cardíacas com uso do Cell Saver e correlacionar dados laboratoriais como hemoglobina (Hb) e níveis de troponina cardíaca. Foram avaliados retrospectivamente 60 pacientes submetidos a cirurgias cardíacas (n = 30) e não cardíacas (n = 30) com uso sistemático do Cell Saver entre junho/2024 e junho/2025, com coleta de dados via sistemas Realblood e TASY. Este trabalho focou nas cirurgias não-cardíacas. Foram analisados níveis de Hb (pré, intra e até o 3° dia pós-operatório) e troponina sérica (pré, intra e até o 4° dia). A Hb média pré-operatória foi 13,1 g/dL, com queda progressiva até 7,3 g/dL no 3° dia pós-operatório. Destacam-se três subgrupos: • 04 pacientes com Hb inicial > 12 g/dL que reduziram até 6,7 g/dL. • 16 pacientes com Hb < 10 g/dL que atingiram 6,2 g/dL. • 10 pacientes com Hb inicial ∼16 g/dL que caíram para 8,3 g/dL. A troponina era < 0,05 ng/mL no pré-operatório para a maioria. Durante o perioperatório e pós-operatório, observou-se aumento expressivo, com elevações > 1,0 ng/mL, especialmente em transplantes hepáticos, chegando a > 10 ng/mL. Nos dias 1 a 4 pós-operatórios, mais da metade apresentava níveis sugestivos de MINS. Dois pacientes submetidos a transplante hepático evoluíram a óbito com troponina > 4,0 ng/mL. Dos 30 pacientes, 22 receberam transfusão alogênica até o 3° dia. Os dados mostram que, apesar do uso rotineiro do Cell Saver e da autotransfusão, a anemia clínica ocorre de forma expressiva no perioperatório e associa-se à lesão miocárdica, avaliada pela troponina. Estudos de Devereaux et al. (2020) e Botto et al. (2014) associam queda de Hb e elevação de troponina ao aumento da mortalidade. O Cell Saverreduz a necessidade transfusional (Guerra et al., 2022; Thompson & Ouellette, 2017), mas não garante proteção contra MINS. A lesão miocárdica continua frequente e relevante em cirurgias não- cardíacas de grande porte, mesmo com o uso do Cell Saver. Anemia perioperatória e troponina elevada associam-se a piores desfechos, incluindo óbitos. Recomenda-se monitoramento rigoroso de biomarcadores cardíacos e hematológicos para estratificação de risco e condução terapêutica. Protocolos com Cell Saver devem ser complementados por estratégias específicas de prevenção e manejo do MINS.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105595
Primary Topic
Blood transfusion and management
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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article

LESÃO MIOCÁRDICA APÓS CIRURGIA NÃO CARDÍACA COM USO DE CELL SAVER

FA Santos de Jesus, FM Reis de Andrade Moreira, JE Di Giacomo
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood transfusion and management
article

LESÃO MIOCÁRDICA APÓS CIRURGIA NÃO CARDÍACA COM USO DE CELL SAVER

FA Santos de Jesus, FM Reis de Andrade Moreira, JE Di Giacomo
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Abstract

A lesão miocárdica após cirurgia não-cardíaca (MINS) é complicação perioperatória associada a aumento da morbimortalidade cardiovascular. Segundo Botto (2014), a MINS foi definida como lesão de relevância prognóstica por isquemia ocorrida durante ou até 30 dias após cirurgia não cardíaca. Sua detecção ocorre por elevação de troponina, mesmo sem sintomas isquêmicos típicos. O Cell Saver é estratégia usada para reduzir hemotransfusões e otimizar o manejo transfusional em cirurgias. Contudo, pouco se sabe sobre seu impacto no desenvolvimento da MINS. Avaliar a incidência de lesão miocárdica perioperatória em pacientes submetidos a cirurgias não-cardíacas com uso do Cell Saver e correlacionar dados laboratoriais como hemoglobina (Hb) e níveis de troponina cardíaca. Foram avaliados retrospectivamente 60 pacientes submetidos a cirurgias cardíacas (n = 30) e não cardíacas (n = 30) com uso sistemático do Cell Saver entre junho/2024 e junho/2025, com coleta de dados via sistemas Realblood e TASY. Este trabalho focou nas cirurgias não-cardíacas. Foram analisados níveis de Hb (pré, intra e até o 3° dia pós-operatório) e troponina sérica (pré, intra e até o 4° dia). A Hb média pré-operatória foi 13,1 g/dL, com queda progressiva até 7,3 g/dL no 3° dia pós-operatório. Destacam-se três subgrupos: • 04 pacientes com Hb inicial > 12 g/dL que reduziram até 6,7 g/dL. • 16 pacientes com Hb < 10 g/dL que atingiram 6,2 g/dL. • 10 pacientes com Hb inicial ∼16 g/dL que caíram para 8,3 g/dL. A troponina era < 0,05 ng/mL no pré-operatório para a maioria. Durante o perioperatório e pós-operatório, observou-se aumento expressivo, com elevações > 1,0 ng/mL, especialmente em transplantes hepáticos, chegando a > 10 ng/mL. Nos dias 1 a 4 pós-operatórios, mais da metade apresentava níveis sugestivos de MINS. Dois pacientes submetidos a transplante hepático evoluíram a óbito com troponina > 4,0 ng/mL. Dos 30 pacientes, 22 receberam transfusão alogênica até o 3° dia. Os dados mostram que, apesar do uso rotineiro do Cell Saver e da autotransfusão, a anemia clínica ocorre de forma expressiva no perioperatório e associa-se à lesão miocárdica, avaliada pela troponina. Estudos de Devereaux et al. (2020) e Botto et al. (2014) associam queda de Hb e elevação de troponina ao aumento da mortalidade. O Cell Saverreduz a necessidade transfusional (Guerra et al., 2022; Thompson & Ouellette, 2017), mas não garante proteção contra MINS. A lesão miocárdica continua frequente e relevante em cirurgias não- cardíacas de grande porte, mesmo com o uso do Cell Saver. Anemia perioperatória e troponina elevada associam-se a piores desfechos, incluindo óbitos. Recomenda-se monitoramento rigoroso de biomarcadores cardíacos e hematológicos para estratificação de risco e condução terapêutica. Protocolos com Cell Saver devem ser complementados por estratégias específicas de prevenção e manejo do MINS.

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