ARMADILHAS DA PANCITOPENIA MEGALOBLÁSTICA: A SEMÂNTICA COMO COMPLICADOR DIAGNÓSTICO ‒ RELATO DE CASO

Relatar a dificuldade no diagnóstico de Anemia Megaloblástica, um tipo de anemia carencial, desde a Atenção Primária à Saúde até a Alta Complexidade. Paciente masculino, 53 anos, admitido à UTI, procedente da UPA, com história de adinamia, dor abdominal difusa, perda ponderal de 10 kg e parestesias em MMII há mais de ano. Laboratorialmente, apresentava pancitopenia. Apresentava também vômitos inter e pós-prandiais, com dificuldade de deambulação e hiposensitividade tátil em MMII, sendo solicitado vaga de UTI. Avaliado pela hematologia, apresentava situação de extrema vulnerabilidade social, com baixa ingesta alimentar. Referia quadro semelhante 6 meses antes desta internação, melhorado com hemotransfusão. Interrogado, apresentava parestesia tipo bota e luva. Ao EF, estava descorado ++/4, ictérico +/4, língua lisa e despapilada. Já havia sido submetido à transfusão de concentrado de hemácias. Laboratorialmente, apresentava pancitopenia, com Hb 5,4 g/dL; VCM 117 fl e RDW de 36,2%. Leucograma de 2000 mm 3 , neutrófilos de 760, plaquetas 128.000 mm 3 . Feito EDA, compatível com atrofia de mucosa gástrica (confirmada com anátomo-patológico), concluído diagnóstico como “anemia” megaloblástica. Tão logo após conhecimento da especialidade do caso e a HD de anemia carencial, orientado cuidados em leito de enfermaria e alta após EDA e reposição das vitaminas, com excelente resposta clínica e laboratorial. A anemia megaloblástica tem como etiologia a deficiência de vitamina B12 e/ou folato, vitaminas hidrossolúveis necessárias a formação de eritrócitos, leucócitos e plaquetas que, se ausentes, induzem apoptose intramedular de precursores hematopoéticos por falhas na síntese de DNA e consequente pancitopenia. Embora classicamente associado a anemia, a deficiência de B12 também pode causar danos neurológicas, como os descritas no caso (hipossensibilidade tátil, dificuldade de deambulação). Classicamente conhecida como “anemia megaloblástica” e categorizada como Síndrome anêmica em livros-texto, a inespecificidade de sintomas, atrelados muitas vezes a quadro neurológico e, laboratorialmente o achado de pancitopenia ao hemograma, pode muitas vezes, trazer dificuldade diagnóstica, direcionando o médico a diagnósticos mais graves, que remetam a Síndromes de falência medular e, levando muitas vezes, ao descarte da anemia megaloblástica como hipótese diagnóstica. Como nem sempre a deficiência de B12 se apresenta com níveis séricos de B12 baixos, VCM superior a 115 fl (mais especifico), hipersegmentação de neutrófilos, por vezes, pode ser necessária a dosagem de homocisteína e ácido metilmalônico para a conclusão diagnóstica mas, exames de medula óssea, por exemplo, não são indicados e podem confundir o examinador, em razão de possíveis achados de displasia não clonal, relacionados a deficiência de vitamina. Destarte, conclui-se que a dificuldade diagnóstica da anemia megaloblástica se resume à análise de exames laboratoriais sem associação à história e clínica do paciente, uma vez que a análise combinada confirma o diagnóstico. Ademais, embora não exista um erro semântico na “anemia megaloblástica”, esta terminologia pode ter implicações inadequadas no raciocínio clínico visto que, diferente da deficiência de ferro, pode haver citopenia das três series.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105383
Primary Topic
Iron Metabolism and Disorders
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
|||
ALL TIME
JAN
FEB
MAR
APR
MAY
JUN
JUL
AUG
SEP
OCT
article

ARMADILHAS DA PANCITOPENIA MEGALOBLÁSTICA: A SEMÂNTICA COMO COMPLICADOR DIAGNÓSTICO ‒ RELATO DE CASO

Bruno Mendonça Coêlho, Renan Augusto Lauria da Costa, Lina Rigodanzo Marins, LadPC Lage et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Iron Metabolism and Disorders
article

ARMADILHAS DA PANCITOPENIA MEGALOBLÁSTICA: A SEMÂNTICA COMO COMPLICADOR DIAGNÓSTICO ‒ RELATO DE CASO

Bruno Mendonça Coêlho, Renan Augusto Lauria da Costa, Lina Rigodanzo Marins, LadPC Lage, Renata Ferrari, LP Andrade
article en

Abstract

Relatar a dificuldade no diagnóstico de Anemia Megaloblástica, um tipo de anemia carencial, desde a Atenção Primária à Saúde até a Alta Complexidade. Paciente masculino, 53 anos, admitido à UTI, procedente da UPA, com história de adinamia, dor abdominal difusa, perda ponderal de 10 kg e parestesias em MMII há mais de ano. Laboratorialmente, apresentava pancitopenia. Apresentava também vômitos inter e pós-prandiais, com dificuldade de deambulação e hiposensitividade tátil em MMII, sendo solicitado vaga de UTI. Avaliado pela hematologia, apresentava situação de extrema vulnerabilidade social, com baixa ingesta alimentar. Referia quadro semelhante 6 meses antes desta internação, melhorado com hemotransfusão. Interrogado, apresentava parestesia tipo bota e luva. Ao EF, estava descorado ++/4, ictérico +/4, língua lisa e despapilada. Já havia sido submetido à transfusão de concentrado de hemácias. Laboratorialmente, apresentava pancitopenia, com Hb 5,4 g/dL; VCM 117 fl e RDW de 36,2%. Leucograma de 2000 mm 3 , neutrófilos de 760, plaquetas 128.000 mm 3 . Feito EDA, compatível com atrofia de mucosa gástrica (confirmada com anátomo-patológico), concluído diagnóstico como “anemia” megaloblástica. Tão logo após conhecimento da especialidade do caso e a HD de anemia carencial, orientado cuidados em leito de enfermaria e alta após EDA e reposição das vitaminas, com excelente resposta clínica e laboratorial. A anemia megaloblástica tem como etiologia a deficiência de vitamina B12 e/ou folato, vitaminas hidrossolúveis necessárias a formação de eritrócitos, leucócitos e plaquetas que, se ausentes, induzem apoptose intramedular de precursores hematopoéticos por falhas na síntese de DNA e consequente pancitopenia. Embora classicamente associado a anemia, a deficiência de B12 também pode causar danos neurológicas, como os descritas no caso (hipossensibilidade tátil, dificuldade de deambulação). Classicamente conhecida como “anemia megaloblástica” e categorizada como Síndrome anêmica em livros-texto, a inespecificidade de sintomas, atrelados muitas vezes a quadro neurológico e, laboratorialmente o achado de pancitopenia ao hemograma, pode muitas vezes, trazer dificuldade diagnóstica, direcionando o médico a diagnósticos mais graves, que remetam a Síndromes de falência medular e, levando muitas vezes, ao descarte da anemia megaloblástica como hipótese diagnóstica. Como nem sempre a deficiência de B12 se apresenta com níveis séricos de B12 baixos, VCM superior a 115 fl (mais especifico), hipersegmentação de neutrófilos, por vezes, pode ser necessária a dosagem de homocisteína e ácido metilmalônico para a conclusão diagnóstica mas, exames de medula óssea, por exemplo, não são indicados e podem confundir o examinador, em razão de possíveis achados de displasia não clonal, relacionados a deficiência de vitamina. Destarte, conclui-se que a dificuldade diagnóstica da anemia megaloblástica se resume à análise de exames laboratoriais sem associação à história e clínica do paciente, uma vez que a análise combinada confirma o diagnóstico. Ademais, embora não exista um erro semântico na “anemia megaloblástica”, esta terminologia pode ter implicações inadequadas no raciocínio clínico visto que, diferente da deficiência de ferro, pode haver citopenia das três series.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (BR)
Openalex Percentile: Top 60%
Iron Metabolism and Disorders
AI Navigator

Ask Laika to Summarize, Analyze, and Connect papers live on the map.

Summarize Papers & Methodologies

Extract key findings, datasets, and comparative methods across publications.

Benchmark Rankings & Visual Analytics

Rank top research institutions, authors, funders, topics, and journals by Field-Weighted Citation Impact (FWCI) and paper volume with instant charts.

Connect Distant Disciplines

Bridge topological clusters on the map to find hidden collaborative intersections.