DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS DO USO DE CÉLULAS CAR-T NO TRATAMENTO DA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE ENSAIOS CLÍNICOS

A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) permanece como uma das neoplasias hematológicas de pior prognóstico. Apesar dos avanços no transplante de células- tronco hematopoiéticas (HSCT) e no uso de terapias alvo, a resistência e a recidiva são frequentes, reforçando a necessidade de novas abordagens. As terapias celulares com linfócitos T modificados com receptor de antígeno quimérico (CAR-T) revolucionaram o tratamento de neoplasias de linhagem B, mas sua aplicação na LMA é desafiadora pela ausência de um antígeno mieloide restrito ao tumor e risco elevado de mielossupressão prolongada. Esses fatores motivam uma análise da literatura. Objetivou-se revisar ensaios clínicos que avaliam CAR-T dirigidas a antígenos-alvo relevantes na LMA, sumarizando eficácia, toxicidade, mecanismos de resistência e estratégias de otimização. Os artigos selecionados contam com ensaios clínicos e pré-clínicos, publicados na base de dados PubMed com os descritores “CAR-T cell” e “acute myeloid leukemia” a partir de 2022. Avaliaram-se resposta completa (CR), negatividade de doença residual mínima (MRD), duração da resposta, eventos adversos (como síndrome de liberação de citocinas [CRS]), citopenias, além de mecanismos de resistência tumoral e modificações de engenharia celular. Foram selecionados 7 artigos, dentre eles, JIN et al. (2022) avaliaram CAR-T anti-CLL-1 e reportaram taxas de CR em até 70% dos pacientes tratados, com expansão de CAR-T nas primeiras 2 semanas; entretanto houve CRS universal, severa pancitopenia e duas mortes por infecção, sugerindo eficácia inicial, mas risco de mielotoxicidade que pode requerer HSCT. No cenário de modificação transcricional, ZOU et al. (2024) demonstrou como a superexpressão de C-JUN, resgatou a capacidade citotóxica e a persistência das CAR-T frente à imunossupressão. BHAGWAT et al. (2024) identificou que citocinas produzidas durante a terapia aumentam viabilidade dos blastos via JAK/STAT, promovendo resistência da LMA e levando à disfunção das CAR-T; bloqueio com ruxolitinibe resgatou sensibilidade in vitro, sugerindo terapia combinada como estratégia. APPELBAUM et al. (2024) desenvolveu uma plataforma que permite ligar/desligar atividade do CAR via baixas concentrações de rapamicina; em modelos pré-clínicos e fase I inicial mostrou ativação dependente de rapamicina e sinais iniciais de atividade antitumoral. ZHANG et al. mostrou que em recidiva após HSCT, CAR-T doador-derivadas foram toleráveis; 58% alcançaram MRD-CR e houve expansão das CAR-T. DANYLESKO et al. (2024) observou em um grupo de LMA com t(8;21) e expressão aberrante de CD19, CAR-T CD19 induziu remissão citogenética/hematológica em 4/6 pacientes (CR), sugerindo que subgrupos moleculares que expressam antígenos “não tradicionais” podem beneficiar-se de CAR-T direcionadas a esses alvos. YIN et al. (2025) reportou que dos 10 pacientes com t(8;21) e CD19+, 100% alcançaram CR após CD19 CAR-T; 60% obtiveram CR MRD-negativa, contudo sobrevida livre curta e alta incidência de recidiva, indica eficácia inicial importante em subgrupo molecular porém necessidade de estratégias para durabilidade. A terapia com células CAR-T para LMA é promissora, mas ainda limitada. Os estudos indicam que o sucesso depende da combinação de alvos mais específicos, modulação farmacológica do microambiente e integração com transplante quando apropriado. Ensaios clínicos de maior escala serão essenciais para confirmar a eficácia e viabilizar a incorporação da estratégia no manejo da doença.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104528
Primary Topic
Health, Education, and Cultural Studies
Type
article
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DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS DO USO DE CÉLULAS CAR-T NO TRATAMENTO DA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE ENSAIOS CLÍNICOS

Marcelo Ferreira de Vasconcelos, Amanda Souza Araújo, MAC Bezerra, Leonardo Cruz de Souza et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Health, Education, and Cultural Studies
article

DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS DO USO DE CÉLULAS CAR-T NO TRATAMENTO DA LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE ENSAIOS CLÍNICOS

Marcelo Ferreira de Vasconcelos, Amanda Souza Araújo, MAC Bezerra, Leonardo Cruz de Souza, V Lisbeth Luna, MT Bessoni, BAdF Larcêda
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Abstract

A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) permanece como uma das neoplasias hematológicas de pior prognóstico. Apesar dos avanços no transplante de células- tronco hematopoiéticas (HSCT) e no uso de terapias alvo, a resistência e a recidiva são frequentes, reforçando a necessidade de novas abordagens. As terapias celulares com linfócitos T modificados com receptor de antígeno quimérico (CAR-T) revolucionaram o tratamento de neoplasias de linhagem B, mas sua aplicação na LMA é desafiadora pela ausência de um antígeno mieloide restrito ao tumor e risco elevado de mielossupressão prolongada. Esses fatores motivam uma análise da literatura. Objetivou-se revisar ensaios clínicos que avaliam CAR-T dirigidas a antígenos-alvo relevantes na LMA, sumarizando eficácia, toxicidade, mecanismos de resistência e estratégias de otimização. Os artigos selecionados contam com ensaios clínicos e pré-clínicos, publicados na base de dados PubMed com os descritores “CAR-T cell” e “acute myeloid leukemia” a partir de 2022. Avaliaram-se resposta completa (CR), negatividade de doença residual mínima (MRD), duração da resposta, eventos adversos (como síndrome de liberação de citocinas [CRS]), citopenias, além de mecanismos de resistência tumoral e modificações de engenharia celular. Foram selecionados 7 artigos, dentre eles, JIN et al. (2022) avaliaram CAR-T anti-CLL-1 e reportaram taxas de CR em até 70% dos pacientes tratados, com expansão de CAR-T nas primeiras 2 semanas; entretanto houve CRS universal, severa pancitopenia e duas mortes por infecção, sugerindo eficácia inicial, mas risco de mielotoxicidade que pode requerer HSCT. No cenário de modificação transcricional, ZOU et al. (2024) demonstrou como a superexpressão de C-JUN, resgatou a capacidade citotóxica e a persistência das CAR-T frente à imunossupressão. BHAGWAT et al. (2024) identificou que citocinas produzidas durante a terapia aumentam viabilidade dos blastos via JAK/STAT, promovendo resistência da LMA e levando à disfunção das CAR-T; bloqueio com ruxolitinibe resgatou sensibilidade in vitro, sugerindo terapia combinada como estratégia. APPELBAUM et al. (2024) desenvolveu uma plataforma que permite ligar/desligar atividade do CAR via baixas concentrações de rapamicina; em modelos pré-clínicos e fase I inicial mostrou ativação dependente de rapamicina e sinais iniciais de atividade antitumoral. ZHANG et al. mostrou que em recidiva após HSCT, CAR-T doador-derivadas foram toleráveis; 58% alcançaram MRD-CR e houve expansão das CAR-T. DANYLESKO et al. (2024) observou em um grupo de LMA com t(8;21) e expressão aberrante de CD19, CAR-T CD19 induziu remissão citogenética/hematológica em 4/6 pacientes (CR), sugerindo que subgrupos moleculares que expressam antígenos “não tradicionais” podem beneficiar-se de CAR-T direcionadas a esses alvos. YIN et al. (2025) reportou que dos 10 pacientes com t(8;21) e CD19+, 100% alcançaram CR após CD19 CAR-T; 60% obtiveram CR MRD-negativa, contudo sobrevida livre curta e alta incidência de recidiva, indica eficácia inicial importante em subgrupo molecular porém necessidade de estratégias para durabilidade. A terapia com células CAR-T para LMA é promissora, mas ainda limitada. Os estudos indicam que o sucesso depende da combinação de alvos mais específicos, modulação farmacológica do microambiente e integração com transplante quando apropriado. Ensaios clínicos de maior escala serão essenciais para confirmar a eficácia e viabilizar a incorporação da estratégia no manejo da doença.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Federal de Pernambuco (BR)
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Health, Education, and Cultural Studies
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