LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA COM TRANSLOCAÇÃO CROMOSSÔMICA RARA: RELATO DE CASO

Leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematologica clonal caracterizada por proliferação de blastos e falência medular. Avanços significativos na compreensão biológica atribuem a grande heterogeneidade da LMA à alterações genômicas subjacentes. As classificações recentes incorporam alterações citogenèticas e moleculares recorrentes para definição diagnóstica e estratificação prognóstica. Translocações cromossômicas raras possuem impacto biológico e prognóstico incerto, e relatos clínicos contribuem para compreendê-las. Homem de 52 anos, ex-tabagista, sem comorbidades, foi admitido no Instituto Nacional de Câncer em fevereiro de 2025. Apresenta há 4 meses, sintomas de astenia progressiva e perda ponderal de 15 kg. O laboratório admissional revelava hemoglobina 6,9 g/dL, plaquetas 14 mil/mm 3 , leucócitos de 8810/mm 3 e ausência de blastos. Na avaliação por citometria de fluxo (CF) da medula óssea foram detectados 15,3% de blastos mieloides e 6,63% de células monocíticas imaturas com perfil imunofenotípico: CD34 parcial, CD117+, CD38+, HLA-DR+, CD33 heterogêneo, CD13 fraco parcial, CD7 parcial. O cariótipo convencional identificou 46, XY, t(7::8) (q36;q21) em 100% das 20 metáfases analisadas. Pesquisa de mutações dos genes FLT3 e NPM1 foram negativas e biópsia de medula óssea (BMO) exibia moderada fibrose, 70% de celularidade, sugestiva de LMA relacionada a mielodisplasia. Diante do status clínico comprometido, a terapia inicial indicada foi a associação de agente hipometilante com venetoclax. A resposta medular após o 1º ciclo foi prejudicada por intensa hipocelularidade. O 2º ciclo foi administrado com redução de tempo do venetoclax devido à pancitopenia associada à complicações infecciosas graves, como: sepse pulmonar, bacteremia, infecção fúngica invasiva provável e necessidade de suporte intensivo. BMO realizada posteriormente evidenciou mielofibrose difusa moderada, com blastos CD34+ (<10%) e displasia. Diante da resposta parcial, seguiu o tratamento sendo indicado em transplante de medula óssea alogênico. Apesar da queda gradual do percentual de blastos na MO, em julho de 2025 evoluiu com progressão de doenca rapidamente progresiva e óbito. A t(7::8)(q36;q21) observada neste caso não está registrada em bancos genômicos como TCGA ou Mitelman, tornando esta alteração genética excepcionalmente incomum. A localização dos pontos de quebra cromossômica sugere possível envolvimento dos genes de regulação epigenética e proliferação celular, EZH2 e ZNF703 respectivamente. A fibrose medular, confirmada em biópsia, pode refletir alteração do nicho e foi associada a pior prognóstico. A ausência de um painel molecular imediato é uma limitação, mas há previsão de análise por NGS. Por fim, identificar essa alteração específica em um paciente com LMA associada a mielofibrose é relevante para a comunidade científica. Como é uma variante incomum, este caso contribui no esclarecimento de mecanismos envolvidos na gênese e resistência terapêutica da LMA.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104586
Primary Topic
Acute Myeloid Leukemia Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
JAN
FEB
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APR
MAY
JUN
JUL
AUG
SEP
OCT
article

LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA COM TRANSLOCAÇÃO CROMOSSÔMICA RARA: RELATO DE CASO

Fernanda Beatriz Dantas de Freitas, Tommaso De Gregorio, LM Gutiyama, Mariana Nunes Miranda Carasek da Rocha et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Acute Myeloid Leukemia Research
article

LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA COM TRANSLOCAÇÃO CROMOSSÔMICA RARA: RELATO DE CASO

Fernanda Beatriz Dantas de Freitas, Tommaso De Gregorio, LM Gutiyama, Mariana Nunes Miranda Carasek da Rocha, Ricardo Bigni, N Amaral, Juliana Souto Teles, JSR Aragão, C Zucolotto, CDdS de Atayde
article en

Abstract

Leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematologica clonal caracterizada por proliferação de blastos e falência medular. Avanços significativos na compreensão biológica atribuem a grande heterogeneidade da LMA à alterações genômicas subjacentes. As classificações recentes incorporam alterações citogenèticas e moleculares recorrentes para definição diagnóstica e estratificação prognóstica. Translocações cromossômicas raras possuem impacto biológico e prognóstico incerto, e relatos clínicos contribuem para compreendê-las. Homem de 52 anos, ex-tabagista, sem comorbidades, foi admitido no Instituto Nacional de Câncer em fevereiro de 2025. Apresenta há 4 meses, sintomas de astenia progressiva e perda ponderal de 15 kg. O laboratório admissional revelava hemoglobina 6,9 g/dL, plaquetas 14 mil/mm 3 , leucócitos de 8810/mm 3 e ausência de blastos. Na avaliação por citometria de fluxo (CF) da medula óssea foram detectados 15,3% de blastos mieloides e 6,63% de células monocíticas imaturas com perfil imunofenotípico: CD34 parcial, CD117+, CD38+, HLA-DR+, CD33 heterogêneo, CD13 fraco parcial, CD7 parcial. O cariótipo convencional identificou 46, XY, t(7::8) (q36;q21) em 100% das 20 metáfases analisadas. Pesquisa de mutações dos genes FLT3 e NPM1 foram negativas e biópsia de medula óssea (BMO) exibia moderada fibrose, 70% de celularidade, sugestiva de LMA relacionada a mielodisplasia. Diante do status clínico comprometido, a terapia inicial indicada foi a associação de agente hipometilante com venetoclax. A resposta medular após o 1º ciclo foi prejudicada por intensa hipocelularidade. O 2º ciclo foi administrado com redução de tempo do venetoclax devido à pancitopenia associada à complicações infecciosas graves, como: sepse pulmonar, bacteremia, infecção fúngica invasiva provável e necessidade de suporte intensivo. BMO realizada posteriormente evidenciou mielofibrose difusa moderada, com blastos CD34+ (<10%) e displasia. Diante da resposta parcial, seguiu o tratamento sendo indicado em transplante de medula óssea alogênico. Apesar da queda gradual do percentual de blastos na MO, em julho de 2025 evoluiu com progressão de doenca rapidamente progresiva e óbito. A t(7::8)(q36;q21) observada neste caso não está registrada em bancos genômicos como TCGA ou Mitelman, tornando esta alteração genética excepcionalmente incomum. A localização dos pontos de quebra cromossômica sugere possível envolvimento dos genes de regulação epigenética e proliferação celular, EZH2 e ZNF703 respectivamente. A fibrose medular, confirmada em biópsia, pode refletir alteração do nicho e foi associada a pior prognóstico. A ausência de um painel molecular imediato é uma limitação, mas há previsão de análise por NGS. Por fim, identificar essa alteração específica em um paciente com LMA associada a mielofibrose é relevante para a comunidade científica. Como é uma variante incomum, este caso contribui no esclarecimento de mecanismos envolvidos na gênese e resistência terapêutica da LMA.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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