QUANDO O FÍGADO TROMBOSA PRIMEIRO: BUDD-CHIARI REVELANDO POLICITEMIA VERA LATENTE EM PACIENTE HÍGIDO

A síndrome de Budd-Chiari (SBC) é caracterizada pela obstrução do fluxo venoso hepático, podendo ocorrer em qualquer nível, das vênulas hepáticas até a junção com a veia cava inferior. Entre as causas, estados protrombóticos são predominantes, sendo as neoplasias mieloproliferativas (NMP), especialmente a policitemia vera (PV), responsáveis por até 50% dos casos. A mutação JAK2V617F é identificada em mais de 90% dos pacientes com PV e em cerca de 40% dos casos de SBC previamente classificados como idiopáticos. A apresentação clínica varia de forma assintomática até insuficiência hepática aguda, e o reconhecimento precoce é determinante para o prognóstico. Relatar um caso de SBC como apresentação inaugural de PV, ressaltando a importância da investigação etiológica e da abordagem multidisciplinar. Homem, 35 anos, previamente hígido, apresentou dor abdominal difusa, distensão e redução de trânsito intestinal com sete dias de evolução. Ao exame físico: ascite moderada, hepatomegalia dolorosa e circulação colateral abdominal. Exames laboratoriais: hemoglobina 18,3 g/dL; hematócrito 53,8%; leucócitos 21.750/mm 3 ; plaquetas 443.000/mm 3 ; AST e ALT >600 U/L; INR 2,5. Ultrassonografia com Doppler mostrou ausência de fluxo nas veias hepáticas e porta, com colaterais periportais. Paracentese revelou gradiente soro-ascite >1,5, proteínas totais baixas e ausência de células neoplásicas. Biópsia hepática evidenciou necrose centrolobular e fibrose portal. Aspirado e biópsia de medula óssea demonstraram hipercelularidade trilinear, megacariócitos atípicos e mutação JAK2V617F positiva, confirmando PV. Foi instituído tratamento com anticoagulação plena, flebotomias seriadas e hidroxiureia. Evoluiu com ascite refratária, sendo indicado shunt portossistêmico intra-hepático transjugular (TIPS). Considerou-se transplante hepático devido à deterioração clínica. A SBC é frequentemente subdiagnosticada em adultos jovens, sobretudo quando a primeira manifestação é a hipertensão portal. As NMPs podem permanecer indolentes até um evento trombótico catastrófico. Diretrizes internacionais recomendam investigação para JAK2V617F em todos os pacientes com trombose em sítios incomuns. O manejo é escalonado: anticoagulação precoce para todos, controle da doença de base com flebotomias e/ou agentes citoredutores, e TIPS para ascite refratária ou falha do tratamento clínico. O transplante hepático deve ser considerado em casos de insuficiência hepática progressiva. A incidência anual global da SBC é estimada em 0,8/milhão, sendo menor nos países ocidentais, mas associada a maior proporção de NMPs. No Brasil, séries hospitalares indicam predomínio em mulheres jovens, embora casos como o presente reforcem a necessidade de rastreio em ambos os sexos. O atraso diagnóstico contribui para complicações como síndrome hepatorrenal, hipertensão portal grave e hepatocarcinoma. A integração precoce entre clínica médica, hematologia e hepatologia, com seguimento em centros de referência, é decisiva para redução de mortalidade e melhora de sobrevida a longo prazo. A SBC pode ser manifestação inicial de NMPs, exigindo investigação proativa. O diagnóstico precoce da PV e manejo integrado entre especialidades otimizam o prognóstico. Identificar estados protrombóticos em hipertensão portal sem causa aparente pode prevenir eventos fatais e direcionar tratamento específico.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104895
Primary Topic
Liver Disease and Transplantation
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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QUANDO O FÍGADO TROMBOSA PRIMEIRO: BUDD-CHIARI REVELANDO POLICITEMIA VERA LATENTE EM PACIENTE HÍGIDO

A. C. de M. Vieira, Lucía María Jaeger de Carvalho, R.H. Rangel, VO Panini et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Liver Disease and Transplantation
article

QUANDO O FÍGADO TROMBOSA PRIMEIRO: BUDD-CHIARI REVELANDO POLICITEMIA VERA LATENTE EM PACIENTE HÍGIDO

A. C. de M. Vieira, Lucía María Jaeger de Carvalho, R.H. Rangel, VO Panini, BJ Bizarria
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Abstract

A síndrome de Budd-Chiari (SBC) é caracterizada pela obstrução do fluxo venoso hepático, podendo ocorrer em qualquer nível, das vênulas hepáticas até a junção com a veia cava inferior. Entre as causas, estados protrombóticos são predominantes, sendo as neoplasias mieloproliferativas (NMP), especialmente a policitemia vera (PV), responsáveis por até 50% dos casos. A mutação JAK2V617F é identificada em mais de 90% dos pacientes com PV e em cerca de 40% dos casos de SBC previamente classificados como idiopáticos. A apresentação clínica varia de forma assintomática até insuficiência hepática aguda, e o reconhecimento precoce é determinante para o prognóstico. Relatar um caso de SBC como apresentação inaugural de PV, ressaltando a importância da investigação etiológica e da abordagem multidisciplinar. Homem, 35 anos, previamente hígido, apresentou dor abdominal difusa, distensão e redução de trânsito intestinal com sete dias de evolução. Ao exame físico: ascite moderada, hepatomegalia dolorosa e circulação colateral abdominal. Exames laboratoriais: hemoglobina 18,3 g/dL; hematócrito 53,8%; leucócitos 21.750/mm 3 ; plaquetas 443.000/mm 3 ; AST e ALT >600 U/L; INR 2,5. Ultrassonografia com Doppler mostrou ausência de fluxo nas veias hepáticas e porta, com colaterais periportais. Paracentese revelou gradiente soro-ascite >1,5, proteínas totais baixas e ausência de células neoplásicas. Biópsia hepática evidenciou necrose centrolobular e fibrose portal. Aspirado e biópsia de medula óssea demonstraram hipercelularidade trilinear, megacariócitos atípicos e mutação JAK2V617F positiva, confirmando PV. Foi instituído tratamento com anticoagulação plena, flebotomias seriadas e hidroxiureia. Evoluiu com ascite refratária, sendo indicado shunt portossistêmico intra-hepático transjugular (TIPS). Considerou-se transplante hepático devido à deterioração clínica. A SBC é frequentemente subdiagnosticada em adultos jovens, sobretudo quando a primeira manifestação é a hipertensão portal. As NMPs podem permanecer indolentes até um evento trombótico catastrófico. Diretrizes internacionais recomendam investigação para JAK2V617F em todos os pacientes com trombose em sítios incomuns. O manejo é escalonado: anticoagulação precoce para todos, controle da doença de base com flebotomias e/ou agentes citoredutores, e TIPS para ascite refratária ou falha do tratamento clínico. O transplante hepático deve ser considerado em casos de insuficiência hepática progressiva. A incidência anual global da SBC é estimada em 0,8/milhão, sendo menor nos países ocidentais, mas associada a maior proporção de NMPs. No Brasil, séries hospitalares indicam predomínio em mulheres jovens, embora casos como o presente reforcem a necessidade de rastreio em ambos os sexos. O atraso diagnóstico contribui para complicações como síndrome hepatorrenal, hipertensão portal grave e hepatocarcinoma. A integração precoce entre clínica médica, hematologia e hepatologia, com seguimento em centros de referência, é decisiva para redução de mortalidade e melhora de sobrevida a longo prazo. A SBC pode ser manifestação inicial de NMPs, exigindo investigação proativa. O diagnóstico precoce da PV e manejo integrado entre especialidades otimizam o prognóstico. Identificar estados protrombóticos em hipertensão portal sem causa aparente pode prevenir eventos fatais e direcionar tratamento específico.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de Taubaté (BR), Anhembi Morumbi University (BR), University of Vassouras (BR), Universidade Cidade de São Paulo (BR), Universitario Francisco de Asís (UY)
Openalex Percentile: Top 58%
Liver Disease and Transplantation
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