DESAFIOS PARA O LINFOMA FOLICULAR

O linfoma folicular (LF) é uma neoplasia linfoproliferativa de células B. Apesar do comportamento indolente e da sobrevida global (SG) prolongada, o LF permanece incurável na maioria dos casos, sendo marcado por recorrências, risco de transformação histológica e progressão precoce da doença após o tratamento inicial. Diante da complexidade clínica e molecular da doença, torna-se essencial compreender os fatores que limitam a eficácia terapêutica. Esta revisão tem como objetivo discutir as evidências atuais sobre os tratamentos e os desafios no manejo do linfoma folicular. Realizou-se uma revisão de literatura por meio da base de dados PubMed, utilizando os descritores “follicular lymphoma” AND “prognosis”. Foram excluídos relatos de caso, estudos pediátricos e trabalhos com foco estritamente molecular ou experimental, sem aplicabilidade clínica direta. Foram aplicados filtros para incluir apenas ensaios clínicos publicados a partir de 2020. Após triagem por título e resumo, foram selecionados 14 artigos que abordaram aspectos clínicos, terapêuticos e prognósticos do linfoma folicular em adultos (≥18 anos). O linfoma folicular apresenta progressão precoce (POD24) em aproximadamente 20% dos pacientes, associando-se a pior prognóstico, com SG reduzida (p < 0,001). A manutenção com rituximabe após quimioterapia demonstrou benefícios na sobrevida livre de progressão (SLP), com razão de chances de 0,55 (p = 0,007) em comparação ao grupo sem manutenção. Por outro lado, o protocolo rituximabe mais lenalidomida, avaliado no estudo RELEVANCE, apresentou taxa de resposta global de 84% (p = 0,13) e SLP em 3 anos de 77% (p = 0,33), valores que não alcançaram significância estatística, o que não evidenciou superioridade em relação à quimioterapia convencional e sugerindo limitação na eficácia clínica deste regime em primeira linha. O inibidor de EZH2, tazemetostat, apresentou taxa de resposta de 69% em pacientes com mutação EZH2, comparado a 35% naqueles sem mutação (p < 0,0001). Entre os anticorpos biespecíficos, o mosunetuzumabe obteve resposta completa em 60% dos casos de LF recidivado ou refratário (p < 0,0001). Já a terapia com células CAR-T (axicabtagene ciloleucel) alcançou resposta completa de 77% e SLP de 67% em 18 meses (p < 0,0001) em pacientes previamente tratados. Apesar das opções terapêuticas para o LF, persistem desafios no manejo da doença. A POD24 tem sido associada a pior prognóstico. A introdução do rituximabe na manutenção melhorou a SLP. Já o tazemetostat foi eficaz apenas naqueles casos com presença da mutação EZH2. CAR-T e anticorpos biespecíficos sugerem resultados promissores, mas ainda possuem acesso limitado no Brasil. Todos esses dados reforçam a necessidade de individualização terapêutica e ampliação no acesso às terapias mais modernas.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104712
Primary Topic
Lymphoma Diagnosis and Treatment
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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article

DESAFIOS PARA O LINFOMA FOLICULAR

N. S. Maciel, Leandro Luongo Matos, Ana Lúcia Ribeiro de Vasconcelos, Teresa M. Salgado et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Lymphoma Diagnosis and Treatment
article

DESAFIOS PARA O LINFOMA FOLICULAR

N. S. Maciel, Leandro Luongo Matos, Ana Lúcia Ribeiro de Vasconcelos, Teresa M. Salgado, LKA Rocha, LF Alves, Cristal Wessling Cardoso, A. P. Maciel., L. Villar, GLS Cordeiro
article en

Abstract

O linfoma folicular (LF) é uma neoplasia linfoproliferativa de células B. Apesar do comportamento indolente e da sobrevida global (SG) prolongada, o LF permanece incurável na maioria dos casos, sendo marcado por recorrências, risco de transformação histológica e progressão precoce da doença após o tratamento inicial. Diante da complexidade clínica e molecular da doença, torna-se essencial compreender os fatores que limitam a eficácia terapêutica. Esta revisão tem como objetivo discutir as evidências atuais sobre os tratamentos e os desafios no manejo do linfoma folicular. Realizou-se uma revisão de literatura por meio da base de dados PubMed, utilizando os descritores “follicular lymphoma” AND “prognosis”. Foram excluídos relatos de caso, estudos pediátricos e trabalhos com foco estritamente molecular ou experimental, sem aplicabilidade clínica direta. Foram aplicados filtros para incluir apenas ensaios clínicos publicados a partir de 2020. Após triagem por título e resumo, foram selecionados 14 artigos que abordaram aspectos clínicos, terapêuticos e prognósticos do linfoma folicular em adultos (≥18 anos). O linfoma folicular apresenta progressão precoce (POD24) em aproximadamente 20% dos pacientes, associando-se a pior prognóstico, com SG reduzida (p < 0,001). A manutenção com rituximabe após quimioterapia demonstrou benefícios na sobrevida livre de progressão (SLP), com razão de chances de 0,55 (p = 0,007) em comparação ao grupo sem manutenção. Por outro lado, o protocolo rituximabe mais lenalidomida, avaliado no estudo RELEVANCE, apresentou taxa de resposta global de 84% (p = 0,13) e SLP em 3 anos de 77% (p = 0,33), valores que não alcançaram significância estatística, o que não evidenciou superioridade em relação à quimioterapia convencional e sugerindo limitação na eficácia clínica deste regime em primeira linha. O inibidor de EZH2, tazemetostat, apresentou taxa de resposta de 69% em pacientes com mutação EZH2, comparado a 35% naqueles sem mutação (p < 0,0001). Entre os anticorpos biespecíficos, o mosunetuzumabe obteve resposta completa em 60% dos casos de LF recidivado ou refratário (p < 0,0001). Já a terapia com células CAR-T (axicabtagene ciloleucel) alcançou resposta completa de 77% e SLP de 67% em 18 meses (p < 0,0001) em pacientes previamente tratados. Apesar das opções terapêuticas para o LF, persistem desafios no manejo da doença. A POD24 tem sido associada a pior prognóstico. A introdução do rituximabe na manutenção melhorou a SLP. Já o tazemetostat foi eficaz apenas naqueles casos com presença da mutação EZH2. CAR-T e anticorpos biespecíficos sugerem resultados promissores, mas ainda possuem acesso limitado no Brasil. Todos esses dados reforçam a necessidade de individualização terapêutica e ampliação no acesso às terapias mais modernas.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de Brasília (BR)
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Lymphoma Diagnosis and Treatment
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