DOUBLE-HIT EM MIELOMA MÚLTIPLO COM REFRATARIEDADE PRECOCE: RELATO DE CASO PARA UM SUBTIPO CLÍNICO AGRESSIVO

Mieloma múltiplo (MM) Double-hit (DHMM) é um subtipo de alto-risco e ainda pouco explorado clinicamente devido ao baixo número de casos relatados, e, portanto, representam um grande desafio na conduta terapêutica. DHMM é caracterizado por pacientes que apresentam concomitantemente duas de qualquer uma das alterações citogenéticas de alto risco, independente se primárias [t(4;14), t(14;16), t(14;20)] ou secundárias [del(17p13), add(1q21), del(1p) e mutações em TP53]. Pacientes com DHMM apresentam uma elevada porcentagem de células plasmáticas na medula óssea (MO) e são estratificados como ISS-III já ao diagnóstico. Paciente do sexo masculino, 39 anos, que procurou atendimento médico por dor lombar persistente. A investigação inicial identificou múltiplas fraturas vertebrais (T4 e T12 com redução de 50% e 70% da altura, respectivamente), além de lesões adicionais em T6, T9, T10 e T11. O mielograma evidenciou 42% de plasmócitos atípicos. A imunofenotipagem detectou 23% de plasmócitos clonais Kappa, com expressão aberrante de CD56, CD117, CD19 e CD45, compatível com o diagnóstico de MM. Iniciou-se tratamento com esquema VCD (bortezomibe, ciclofosfamida e dexametasona). Sem resposta satisfatória, o paciente foi encaminhado para o nosso serviço para avaliação de transplante de MO. Novo aspirado de MO mostrou 27% de plasmócitos, e imunofenotipagem com 10,2% de plasmócitos clonais, mantendo o mesmo fenótipo. A citogenética convencional demonstrou cariótipo normal (46,XY); entretanto, o FISH-MACS em células CD138+ revelou a presença de duas alterações de alto risco concomitantes: rearranjo em 14q32 e deleção em 17p13 (TP53). Baseado nestes achados o paciente caracteriza-se como um DHMM de alto risco RISS-III. Mesmo após cinco ciclos de VCD, a reavaliação evidenciou persistência de 26% de plasmócitos no mielograma e 21,6% de plasmócitos clonais na imunofenotipagem, caracterizando doença refratária. Diante disso, optou-se por não realizar o transplante autólogo e discutir estratégias com drogas de nova geração. Discussão: Este caso reforça a importância da inclusão do FISH-MACS para a identificação precoce de pacientes DHMM. A associação alterações genômicas de mau prognóstico em um paciente extremamente jovem revela o papel aditivo de vias moleculares distintas contribuindo para a rápida evolução tumoral. A persistência de plasmócitos clonais mesmo após múltiplos ciclos de VCD demonstra refratariedade precoce ao esquema de indução padrão e reforça o comportamento agressivo da doença. A utilização de FISH em células enriquecidas foi essencial para identificar alterações genéticas que não foram detectadas por métodos citogenéticos convencionais, o que impactou diretamente na tomada de decisão terapêutica. Atualmente, o paciente está em processo de judicialização para início de esquema com daratumumabe e lenalidomida (DRd). Relatos como este evidenciam a importância da incorporação do protocolo de estadiamento de pacientes baseado em FISH-MACS para células CD138+ ao diagnóstico, o que permite a identificação precoce dos casos de DHMM e consequentemente, o rápido reposicionamento das estratratégias terapêuticas direcionadas para esses casos desafiadores. Este breve relato fomenta futuras avaliações que busquem compreender as características patológicas de pacientes HDMM e que contribuam no desenvolvimento de novos protocolos e terapias que possam melhorar a taxa de sucesso no tratamento destes pacientes.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104327
Primary Topic
Multiple Myeloma Research and Treatments
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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DOUBLE-HIT EM MIELOMA MÚLTIPLO COM REFRATARIEDADE PRECOCE: RELATO DE CASO PARA UM SUBTIPO CLÍNICO AGRESSIVO

Ana Katerine de Carvalho Lima Lobato, MP Beltrame, NCR Guerrero, JSH Farias et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Multiple Myeloma Research and Treatments
article

DOUBLE-HIT EM MIELOMA MÚLTIPLO COM REFRATARIEDADE PRECOCE: RELATO DE CASO PARA UM SUBTIPO CLÍNICO AGRESSIVO

Ana Katerine de Carvalho Lima Lobato, MP Beltrame, NCR Guerrero, JSH Farias, Jiménez-Rodríguez Rosa, Danilo Bruschi, EB Mendes, FCM Santos, Athirson Erick Lopes da Silva, JFC Camargo
article en

Abstract

Mieloma múltiplo (MM) Double-hit (DHMM) é um subtipo de alto-risco e ainda pouco explorado clinicamente devido ao baixo número de casos relatados, e, portanto, representam um grande desafio na conduta terapêutica. DHMM é caracterizado por pacientes que apresentam concomitantemente duas de qualquer uma das alterações citogenéticas de alto risco, independente se primárias [t(4;14), t(14;16), t(14;20)] ou secundárias [del(17p13), add(1q21), del(1p) e mutações em TP53]. Pacientes com DHMM apresentam uma elevada porcentagem de células plasmáticas na medula óssea (MO) e são estratificados como ISS-III já ao diagnóstico. Paciente do sexo masculino, 39 anos, que procurou atendimento médico por dor lombar persistente. A investigação inicial identificou múltiplas fraturas vertebrais (T4 e T12 com redução de 50% e 70% da altura, respectivamente), além de lesões adicionais em T6, T9, T10 e T11. O mielograma evidenciou 42% de plasmócitos atípicos. A imunofenotipagem detectou 23% de plasmócitos clonais Kappa, com expressão aberrante de CD56, CD117, CD19 e CD45, compatível com o diagnóstico de MM. Iniciou-se tratamento com esquema VCD (bortezomibe, ciclofosfamida e dexametasona). Sem resposta satisfatória, o paciente foi encaminhado para o nosso serviço para avaliação de transplante de MO. Novo aspirado de MO mostrou 27% de plasmócitos, e imunofenotipagem com 10,2% de plasmócitos clonais, mantendo o mesmo fenótipo. A citogenética convencional demonstrou cariótipo normal (46,XY); entretanto, o FISH-MACS em células CD138+ revelou a presença de duas alterações de alto risco concomitantes: rearranjo em 14q32 e deleção em 17p13 (TP53). Baseado nestes achados o paciente caracteriza-se como um DHMM de alto risco RISS-III. Mesmo após cinco ciclos de VCD, a reavaliação evidenciou persistência de 26% de plasmócitos no mielograma e 21,6% de plasmócitos clonais na imunofenotipagem, caracterizando doença refratária. Diante disso, optou-se por não realizar o transplante autólogo e discutir estratégias com drogas de nova geração. Discussão: Este caso reforça a importância da inclusão do FISH-MACS para a identificação precoce de pacientes DHMM. A associação alterações genômicas de mau prognóstico em um paciente extremamente jovem revela o papel aditivo de vias moleculares distintas contribuindo para a rápida evolução tumoral. A persistência de plasmócitos clonais mesmo após múltiplos ciclos de VCD demonstra refratariedade precoce ao esquema de indução padrão e reforça o comportamento agressivo da doença. A utilização de FISH em células enriquecidas foi essencial para identificar alterações genéticas que não foram detectadas por métodos citogenéticos convencionais, o que impactou diretamente na tomada de decisão terapêutica. Atualmente, o paciente está em processo de judicialização para início de esquema com daratumumabe e lenalidomida (DRd). Relatos como este evidenciam a importância da incorporação do protocolo de estadiamento de pacientes baseado em FISH-MACS para células CD138+ ao diagnóstico, o que permite a identificação precoce dos casos de DHMM e consequentemente, o rápido reposicionamento das estratratégias terapêuticas direcionadas para esses casos desafiadores. Este breve relato fomenta futuras avaliações que busquem compreender as características patológicas de pacientes HDMM e que contribuam no desenvolvimento de novos protocolos e terapias que possam melhorar a taxa de sucesso no tratamento destes pacientes.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital Erasto Gaertner (BR), Universidade Federal do Paraná (BR)
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