ÓBITOS SEM DIAGNÓSTICO PRECISO: O PAPEL DA LEUCEMIA NÃO ESPECIFICADA (CID95) NA MORTALIDADE NACIONAL (2012‒2023)
As leucemias são neoplasias hematopoiéticas com subtipos de manejo e prognóstico distintos, mas muitos óbitos são registrados como leucemia não especificada (CID C95), o que dificulta avaliar a mortalidade por subtipo e região e reforça a necessidade de estudos sobre o impacto dessa classificação genérica. Avaliar a proporção de óbitos por C95 no Brasil entre 2012 e 2023, analisando sua evolução temporal e variações por sexo, faixa etária e região. Estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, com dados públicos do SIM/DATASUS (2012–2023). Foram analisados óbitos por leucemias (CID C91–C95), com foco no C95. As variáveis foram: ano, sexo, faixa etária e região de residência. Calculou-se a proporção anual de C95 em relação ao total C91–C95. A análise foi descritiva e de tendência temporal, usando regressão linear simples em Python. Entre 2012 e 2023, ocorreram 82.414 óbitos por C91–C95, dos quais 17.075 (20,7%) foram classificados como C95. A maior proporção foi registrada em 2012 (23,6%) e a menor em 2022 (17,2%). O Nordeste apresentou o maior percentual (24,9%) e o Sudeste, o menor (18,1%); Bahia, Piauí e Alagoas superaram 27%, enquanto o Distrito Federal registrou 10,3%. A faixa etária ≥80 anos concentrou 30,0% dos casos, em contraste com 9,1% entre 5–9 anos. Homens e mulheres apresentaram proporções semelhantes (∼21%). Entre as categorias de raça/cor, indígenas (22,9%) e pretos (22,8%) tiveram as maiores proporções. Observou-se uma tendência de queda de 0,52 ponto percentual ao ano (p < 0,001; R² = 0,84). A elevada proporção de óbitos classificados como C95 reflete limitações diagnósticas, mais frequentes em regiões vulneráveis. A tendência de redução observada no período sugere avanços na capacidade diagnóstica e na consolidação dos registros. Entretanto, os percentuais ainda expressivos observados no Nordeste, especialmente em estados como Bahia e Piauí, podem sinalizar desigualdades persistentes na incorporação dessas melhorias. Por outro lado, a notificação menos frequente de C95 em áreas como o Distrito Federal sugere maior presença de centros especializados, com acesso ampliado a métodos diagnósticos como imunofenotipagem e citogenética. A maior ocorrência em idosos pode estar associada a apresentações clínicas atípicas e menor intensidade de investigação nessa faixa etária. Em relação ao perfil étnico-racial, a proporção mais elevada entre indígenas e negros sugere a influência de barreiras no acesso a serviços diagnósticos especializados, refletindo desigualdades estruturais. Nesse sentido, a qualificação dos registros e a expansão do acesso a diagnósticos especializados são imperativos para mitigar iniquidades e fortalecer o enfrentamento das leucemias no Brasil. Diagnosticar com precisão é romper barreiras e reduzir desigualdades em saúde.
Authors
- Kacia Mikaela De Sousa (ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3073-3902)
- NFC Silva
- Miguel de Araújo Nobre (ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7084-8301)
- Krás Borges
- FHL Pereira
- AR Spinola
- ID Tschope
Institutions
- Universidade Federal do Oeste do Pará (BR)
- Universidade do Estado do Pará (BR)
Publication Details
- Journal
- Hematology Transfusion and Cell Therapy
- Published
- 2025-10-01
- DOI
- https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105434
- Primary Topic
- Acute Myeloid Leukemia Research
- Type
- article
- Field-Weighted Citation Impact
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