LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÔNICA REFRATÁRIA: QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS ABORDAGENS TERAPÊUTICAS?

A leucemia linfocítica crônica (LLC) é a neoplasia hematológica mais comum em adultos nos países ocidentais, com curso clínico heterogêneo. Nas últimas décadas, o tratamento evoluiu com a incorporação de agentes que atuam na via do BCR e na proteína antiapoptótica BCL-2. Ainda assim, os casos refratários seguem como um desafio, exigindo abordagem individualizada e criteriosa. Este estudo visa apresentar um panorama das principais estratégias terapêuticas na LLC refratária, destacando os critérios que norteiam a escolha do tratamento. Foi realizada uma revisão da literatura na base MEDLINE, abrangendo os últimos cinco anos. Foram utilizados os seguintes descritores: (chronic lymphocytic leukemia OR CLL) AND (refractory OR relapsed) AND (treatment OR therapy). A busca resultou em 691 artigos, dos quais foram selecionados 23 que abordaram diretamente a terapêutica para os casos refratários. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e estudos prospectivos. A análise dos estudos evidenciou que os inibidores covalentes da tirosina quinase de Bruton (BTKi) prolongam a sobrevida livre de progressão (SLP) em pacientes com LLC refratária, inclusive nos de maior risco. Observou-se SLP de 78,4% com zanubrutinibe versus 65,9% com ibrutinibe aos 24 meses (p = 0,0024). Entre os BTKi, ibrutinibe, acalabrutinibe e zanubrutinibe se destacam, com perfis distintos de toxicidade: por exemplo, o ibrutinibe está associado a uma incidência de fibrilação atrial de 10,1%, em comparação a 2,5% com zanubrutinibe ou acalabrutinibe (p = 0,001), mas mantendo eficácia semelhante. Outra opção relevante tem sido o antagonista da proteína BCL-2 venetoclax, usado em associação ao anticorpo monoclonal anti-CD20 rituximabe. Além de prolongar a SLP, essa combinação tem alcançado altas taxas de remissão mínima residual indetectável, com 62% contra 13% (p < 0,0001). Contudo, os riscos de neutropenia e síndrome de lise tumoral necessitam ser considerados. Inibidores da fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K), como idelalisibe e duvelisibe, também apresentam eficácia, com SLP mediana de 22,9 meses, mas seu uso tem sido limitado pela toxicidade imunomediada. O sequenciamento ideal depende da linha prévia de tratamento, comorbidades e opções ofertadas ao paciente. Na falha ou intolerância ao BTKi, o venetoclax tem sido considerado a escolha natural subsequente; no entanto, se este falhar, outro BTKi da nova geração pode ser uma opção razoável. Ensaios clínicos com inibidores não covalentes de BTK, terapias com células CAR-T e anticorpos biespecíficos têm surgido como alternativas promissoras em casos de dupla resistência. Já o transplante alogênico hematopoiético de células tronco (alo-TCTH), embora potencialmente curativo, tem sido reservado a pacientes com indicação clínica expressa. O alo-TCTH tem apresentado sobrevida global de 52% em cinco anos e mortalidade relacionada ao tratamento de 36%. No tratamento da LLC refratária, os inibidores de BTK e o venetoclax continuam como melhores opções terapêuticas, pois promovem um ganho de sobrevida associado à melhora na qualidade de vida. Além disso, novas estratégias, como o CAR-T e os anticorpos biespecíficos, ampliam as possibilidades nos casos de falha terapêutica. No entanto, a individualização do tratamento e o seguimento rigoroso permanecem essenciais para um controle adequado da doença.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104370
Primary Topic
Chronic Lymphocytic Leukemia Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÔNICA REFRATÁRIA: QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS ABORDAGENS TERAPÊUTICAS?

Liliane Stédile de Matos, Júlia Rodrigues da Silva, Filomena Nóbrega, Vítor Sousa et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Chronic Lymphocytic Leukemia Research
article

LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÔNICA REFRATÁRIA: QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS ABORDAGENS TERAPÊUTICAS?

Liliane Stédile de Matos, Júlia Rodrigues da Silva, Filomena Nóbrega, Vítor Sousa, E. dos S. de Sousa, GLS Cordeiro, ADS Jesus, LKA Rocha, LF Alves
article en

Abstract

A leucemia linfocítica crônica (LLC) é a neoplasia hematológica mais comum em adultos nos países ocidentais, com curso clínico heterogêneo. Nas últimas décadas, o tratamento evoluiu com a incorporação de agentes que atuam na via do BCR e na proteína antiapoptótica BCL-2. Ainda assim, os casos refratários seguem como um desafio, exigindo abordagem individualizada e criteriosa. Este estudo visa apresentar um panorama das principais estratégias terapêuticas na LLC refratária, destacando os critérios que norteiam a escolha do tratamento. Foi realizada uma revisão da literatura na base MEDLINE, abrangendo os últimos cinco anos. Foram utilizados os seguintes descritores: (chronic lymphocytic leukemia OR CLL) AND (refractory OR relapsed) AND (treatment OR therapy). A busca resultou em 691 artigos, dos quais foram selecionados 23 que abordaram diretamente a terapêutica para os casos refratários. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e estudos prospectivos. A análise dos estudos evidenciou que os inibidores covalentes da tirosina quinase de Bruton (BTKi) prolongam a sobrevida livre de progressão (SLP) em pacientes com LLC refratária, inclusive nos de maior risco. Observou-se SLP de 78,4% com zanubrutinibe versus 65,9% com ibrutinibe aos 24 meses (p = 0,0024). Entre os BTKi, ibrutinibe, acalabrutinibe e zanubrutinibe se destacam, com perfis distintos de toxicidade: por exemplo, o ibrutinibe está associado a uma incidência de fibrilação atrial de 10,1%, em comparação a 2,5% com zanubrutinibe ou acalabrutinibe (p = 0,001), mas mantendo eficácia semelhante. Outra opção relevante tem sido o antagonista da proteína BCL-2 venetoclax, usado em associação ao anticorpo monoclonal anti-CD20 rituximabe. Além de prolongar a SLP, essa combinação tem alcançado altas taxas de remissão mínima residual indetectável, com 62% contra 13% (p < 0,0001). Contudo, os riscos de neutropenia e síndrome de lise tumoral necessitam ser considerados. Inibidores da fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K), como idelalisibe e duvelisibe, também apresentam eficácia, com SLP mediana de 22,9 meses, mas seu uso tem sido limitado pela toxicidade imunomediada. O sequenciamento ideal depende da linha prévia de tratamento, comorbidades e opções ofertadas ao paciente. Na falha ou intolerância ao BTKi, o venetoclax tem sido considerado a escolha natural subsequente; no entanto, se este falhar, outro BTKi da nova geração pode ser uma opção razoável. Ensaios clínicos com inibidores não covalentes de BTK, terapias com células CAR-T e anticorpos biespecíficos têm surgido como alternativas promissoras em casos de dupla resistência. Já o transplante alogênico hematopoiético de células tronco (alo-TCTH), embora potencialmente curativo, tem sido reservado a pacientes com indicação clínica expressa. O alo-TCTH tem apresentado sobrevida global de 52% em cinco anos e mortalidade relacionada ao tratamento de 36%. No tratamento da LLC refratária, os inibidores de BTK e o venetoclax continuam como melhores opções terapêuticas, pois promovem um ganho de sobrevida associado à melhora na qualidade de vida. Além disso, novas estratégias, como o CAR-T e os anticorpos biespecíficos, ampliam as possibilidades nos casos de falha terapêutica. No entanto, a individualização do tratamento e o seguimento rigoroso permanecem essenciais para um controle adequado da doença.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de Brasília (BR)
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Chronic Lymphocytic Leukemia Research
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