LINFO-HISTIOCITOSE HEMOFAGOCÍTICA SECUNDÁRIA À TOXOPLASMOSE DISSEMINADA, EM UM PACIENTE APÓS 12 ANOS DE TCTH ALOGÊNICO POR LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

A linfo-histiocitose hemofagocítica (HLH) é uma condição hiper-inflamatória grave e potencialmente fatal, causada pela ativação descontrolada de linfócitos T, macrófagos e células NK, resultando em tempestade de citocinas, disfunção multiorgânica e coagulopatias. Com etiologia primária (genética/familiar) ou secundária (adquirida), sendo a última mais comum e relacionada, por exemplo, com infecções, neoplasias, imunodeficiências, doenças autoimunes e uso de certas medicações. O diagnóstico precoce é essencial para o início rápido do tratamento e melhor prognóstico. Paciente de 82 anos, com diagnóstico prévio de leucemia mieloide aguda (LMA) secundária a uma leucemia mielomonocítica crônica (LMMC), pós-transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) alogênico aparentado em 2013, com interrupção da imunossupressão em 2017. Até o momento, sem sinais de doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), com níveis de IgA, IgG, IgM, CD4 e CD8 dentro dos parâmetros da normalidade. Reside em um sítio em Ilhabela (SP), sem relato epidemiológico relevante. Em 2025, procurou atendimento por febre prolongada, pancitopenia, marcadores inflamatórios elevados (PCR e ferritina), triglicerídeos elevados, fibrinogênio baixo, TGO/TGP elevados e falência multiorgânica. Em avaliação medular, o mielograma evidenciou uma medula óssea (MO) hipercelular nas três séries, com figuras de hematofagocitose presente e visualização direta de taquizoítos. A biópsia da MO apresentava pesquisa imuno-histoquímica positiva para toxoplasma. O paciente apresentou risco de HLH de 93–96% segundo o HScore, com 212 pontos. A investigação infecciosa revelou sorologia inicial com IgG baixa e IgM negativa, seguida de PCR positivo para T. gondii. O teste de avidez foi baixo, e a repetição da sorologia demonstrou soroconversão com IgM reagente, sugerindo infecção aguda. Além disso, o PCR para T. gondii no LCR positivo. Portanto, compatível com o diagnóstico HLH secundária à toxoplasmose disseminada. Em uma análise retrospectiva, o paciente apresentava sorologia para T. gondii com IgG em títulos baixos 9 meses após o TCTH. Em pacientes pós-TCTH alogênico, quadros inflamatórios sem foco infeccioso definido representam um desafio diagnóstico, com diferenciais importantes entre recidiva de LMA, HLH e infecções oportunistas. No caso em questão, a toxoplasmose foi confirmada por PCR positivo e presença do parasita no mielograma, além de IgM reagente e baixa avidez de IgG para T. Gondii. A interpretação da avidez é limitada nesse contexto, devido à disfunção imunológica prolongada, sendo necessário analisar os resultados de forma integrada. Interessante notar que, mesmo após um longo período pós-TCTH, e na ausência de sinais clínicos de imunodeficiência o mesmo apresentou uma infecção oportunista grave, sugerindo um comprometimento imune persistente. A confirmação da toxoplasmose aguda disseminada em nosso paciente reforça a necessidade de vigilância contínua para agentes infecciosos, mesmo anos após o TCTH. Nestes casos, é fundamental a sinergia entre a avaliação clínica e laboratorial, uma vez que a interpretação de testes sorológicos e de avidez para patógenos deve ser feita com cautela em pacientes pós-TCTH, devido às alterações imunológicas que podem comprometer a especificidade destes exames. Essa abordagem multidisciplinar e o uso combinado de exames são essenciais para o diagnóstico e tratamento eficaz, melhorando o prognóstico desses pacientes complexos.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105528
Primary Topic
Autoimmune and Inflammatory Disorders Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
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ALL TIME
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OCT
article

LINFO-HISTIOCITOSE HEMOFAGOCÍTICA SECUNDÁRIA À TOXOPLASMOSE DISSEMINADA, EM UM PACIENTE APÓS 12 ANOS DE TCTH ALOGÊNICO POR LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

ACA Cardoso, Asako Doi, Eduardo Santos, Eliane Aparecida Rosseto et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Autoimmune and Inflammatory Disorders Research
article

LINFO-HISTIOCITOSE HEMOFAGOCÍTICA SECUNDÁRIA À TOXOPLASMOSE DISSEMINADA, EM UM PACIENTE APÓS 12 ANOS DE TCTH ALOGÊNICO POR LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

ACA Cardoso, Asako Doi, Eduardo Santos, Eliane Aparecida Rosseto, Newton Centurião, LM Suganuma, Isabelle Oliveira Santos, Tamara Harb Roca, Elizabeth Xisto Souto, A Eiji Kayano
article en

Abstract

A linfo-histiocitose hemofagocítica (HLH) é uma condição hiper-inflamatória grave e potencialmente fatal, causada pela ativação descontrolada de linfócitos T, macrófagos e células NK, resultando em tempestade de citocinas, disfunção multiorgânica e coagulopatias. Com etiologia primária (genética/familiar) ou secundária (adquirida), sendo a última mais comum e relacionada, por exemplo, com infecções, neoplasias, imunodeficiências, doenças autoimunes e uso de certas medicações. O diagnóstico precoce é essencial para o início rápido do tratamento e melhor prognóstico. Paciente de 82 anos, com diagnóstico prévio de leucemia mieloide aguda (LMA) secundária a uma leucemia mielomonocítica crônica (LMMC), pós-transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) alogênico aparentado em 2013, com interrupção da imunossupressão em 2017. Até o momento, sem sinais de doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), com níveis de IgA, IgG, IgM, CD4 e CD8 dentro dos parâmetros da normalidade. Reside em um sítio em Ilhabela (SP), sem relato epidemiológico relevante. Em 2025, procurou atendimento por febre prolongada, pancitopenia, marcadores inflamatórios elevados (PCR e ferritina), triglicerídeos elevados, fibrinogênio baixo, TGO/TGP elevados e falência multiorgânica. Em avaliação medular, o mielograma evidenciou uma medula óssea (MO) hipercelular nas três séries, com figuras de hematofagocitose presente e visualização direta de taquizoítos. A biópsia da MO apresentava pesquisa imuno-histoquímica positiva para toxoplasma. O paciente apresentou risco de HLH de 93–96% segundo o HScore, com 212 pontos. A investigação infecciosa revelou sorologia inicial com IgG baixa e IgM negativa, seguida de PCR positivo para T. gondii. O teste de avidez foi baixo, e a repetição da sorologia demonstrou soroconversão com IgM reagente, sugerindo infecção aguda. Além disso, o PCR para T. gondii no LCR positivo. Portanto, compatível com o diagnóstico HLH secundária à toxoplasmose disseminada. Em uma análise retrospectiva, o paciente apresentava sorologia para T. gondii com IgG em títulos baixos 9 meses após o TCTH. Em pacientes pós-TCTH alogênico, quadros inflamatórios sem foco infeccioso definido representam um desafio diagnóstico, com diferenciais importantes entre recidiva de LMA, HLH e infecções oportunistas. No caso em questão, a toxoplasmose foi confirmada por PCR positivo e presença do parasita no mielograma, além de IgM reagente e baixa avidez de IgG para T. Gondii. A interpretação da avidez é limitada nesse contexto, devido à disfunção imunológica prolongada, sendo necessário analisar os resultados de forma integrada. Interessante notar que, mesmo após um longo período pós-TCTH, e na ausência de sinais clínicos de imunodeficiência o mesmo apresentou uma infecção oportunista grave, sugerindo um comprometimento imune persistente. A confirmação da toxoplasmose aguda disseminada em nosso paciente reforça a necessidade de vigilância contínua para agentes infecciosos, mesmo anos após o TCTH. Nestes casos, é fundamental a sinergia entre a avaliação clínica e laboratorial, uma vez que a interpretação de testes sorológicos e de avidez para patógenos deve ser feita com cautela em pacientes pós-TCTH, devido às alterações imunológicas que podem comprometer a especificidade destes exames. Essa abordagem multidisciplinar e o uso combinado de exames são essenciais para o diagnóstico e tratamento eficaz, melhorando o prognóstico desses pacientes complexos.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Autoimmune and Inflammatory Disorders Research
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