LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA EM PACIENTE COM REAÇÃO HANSÊNICA TIPO 2: RELATO DE CASO

Descrever caso de paciente com hanseníase multibacilar prévia, em uso de talidomida, que apresentou reação hansênica tipo 2 concomitante ao diagnóstico de leucemia mieloide aguda (LMA), discutindo aspectos diagnósticos e terapêuticos frente à sobreposição das condições. Revisão de dados clínicos, laboratoriais, histopatológicos, microbiológicos e de imagem obtidos de prontuário eletrônico, organizados cronologicamente desde a admissão até a alta hospitalar. Mulher, 42 anos, portadora de hanseníase multibacilar tratada previamente com PQT, uso crônico de talidomida e corticoterapia eventual para reação hansênica. Procurou atendimento por dor abdominal crônica com piora recente, epistaxe volumosa e hematêmese. Exame físico: hipocorada, ictérica, esplenomegalia (21 cm) e lesão ulcerada em lábio maior esquerdo. Hemograma: anemia grave, plaquetopenia e leucocitose blástica. Imunofenotipagem: 92% de blastos de linhagem mieloide imatura, com expressão aberrante de CD7, CD56 e CD36. Biópsia de medula: hipercelularidade com predomínio de blastos; IHQ compatível com LMA. Cariótipo: 46,XX; NPM1 e FLT3 negativos. Classificada como LMA risco intermediário, iniciou indução 7+3 (citarabina + daunorrubicina). Durante internação, lesões cutâneas dolorosas e difusas, inicialmente atribuídas à reação hansênica, pioraram após suspensão de talidomida. Prednisona 40 mg/dia foi introduzida, com melhora. No D10 de quimioterapia, desenvolveu diarreia aquosa e febre, TC abdominal sugeriu biliopatia portal por transformação cavernomatosa da veia porta. No mesmo período, identificada estrongiloidíase disseminada, motivando suspensão de prednisona e início de ivermectina. Evoluiu com neutropenia febril prolongada, necessidade de escalonamento antibiótico e suspeita de fusariose cutânea, iniciando voriconazol. Houve nova piora cutânea no D24, com reintrodução de prednisona 1 mg/kg e talidomida 200 mg/dia. Apresentou taquidispneia, múltiplos nódulos pulmonares na TC, sugerindo acometimento infeccioso, e instabilidade respiratória no D25, necessitando O₂ suplementar e UTI. Após melhora clínica progressiva, recebeu alta no D30 afebril, com regressão das lesões cutâneas e estabilidade clínica. A coexistência de LMA e reação hansênica tipo 2 representa desafio terapêutico, pois o controle da inflamação hansênica depende de imunossupressão, enquanto a LMA exige quimioterapia mieloablativa e suporte imunológico. A imunossupressão exacerba o risco de infecções oportunistas, como estrongiloidíase disseminada e fusariose, ambas presentes neste caso. A decisão de suspender e reintroduzir corticoides foi guiada pelo balanço entre risco infeccioso e controle da reação hansênica. O manejo multidisciplinar (hematologia, dermatologia, infectologia, hepatologia e pneumologia) foi fundamental para o desfecho favorável inicial. O caso evidencia a complexidade diagnóstica e terapêutica de pacientes com LMA e reação hansênica tipo 2 concomitantes, ressaltando a importância de abordagem individualizada para controle da inflamação, prevenção de infecções graves e manutenção da terapia antileucêmica.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104588
Primary Topic
Leprosy Research and Treatment
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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Controls
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ALL TIME
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LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA EM PACIENTE COM REAÇÃO HANSÊNICA TIPO 2: RELATO DE CASO

Natasha Aparecida Grande de França, G Cecchetti, MR Modesto, Giovane Santos Duarte et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Leprosy Research and Treatment
article

LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA EM PACIENTE COM REAÇÃO HANSÊNICA TIPO 2: RELATO DE CASO

Natasha Aparecida Grande de França, G Cecchetti, MR Modesto, Giovane Santos Duarte, R Romano, Sandra Fernandes de Freitas, EC Nunes, Morela Pereira, CC Miranda, TC Siqueira, GL Macedo, ELO Coletto
article en

Abstract

Descrever caso de paciente com hanseníase multibacilar prévia, em uso de talidomida, que apresentou reação hansênica tipo 2 concomitante ao diagnóstico de leucemia mieloide aguda (LMA), discutindo aspectos diagnósticos e terapêuticos frente à sobreposição das condições. Revisão de dados clínicos, laboratoriais, histopatológicos, microbiológicos e de imagem obtidos de prontuário eletrônico, organizados cronologicamente desde a admissão até a alta hospitalar. Mulher, 42 anos, portadora de hanseníase multibacilar tratada previamente com PQT, uso crônico de talidomida e corticoterapia eventual para reação hansênica. Procurou atendimento por dor abdominal crônica com piora recente, epistaxe volumosa e hematêmese. Exame físico: hipocorada, ictérica, esplenomegalia (21 cm) e lesão ulcerada em lábio maior esquerdo. Hemograma: anemia grave, plaquetopenia e leucocitose blástica. Imunofenotipagem: 92% de blastos de linhagem mieloide imatura, com expressão aberrante de CD7, CD56 e CD36. Biópsia de medula: hipercelularidade com predomínio de blastos; IHQ compatível com LMA. Cariótipo: 46,XX; NPM1 e FLT3 negativos. Classificada como LMA risco intermediário, iniciou indução 7+3 (citarabina + daunorrubicina). Durante internação, lesões cutâneas dolorosas e difusas, inicialmente atribuídas à reação hansênica, pioraram após suspensão de talidomida. Prednisona 40 mg/dia foi introduzida, com melhora. No D10 de quimioterapia, desenvolveu diarreia aquosa e febre, TC abdominal sugeriu biliopatia portal por transformação cavernomatosa da veia porta. No mesmo período, identificada estrongiloidíase disseminada, motivando suspensão de prednisona e início de ivermectina. Evoluiu com neutropenia febril prolongada, necessidade de escalonamento antibiótico e suspeita de fusariose cutânea, iniciando voriconazol. Houve nova piora cutânea no D24, com reintrodução de prednisona 1 mg/kg e talidomida 200 mg/dia. Apresentou taquidispneia, múltiplos nódulos pulmonares na TC, sugerindo acometimento infeccioso, e instabilidade respiratória no D25, necessitando O₂ suplementar e UTI. Após melhora clínica progressiva, recebeu alta no D30 afebril, com regressão das lesões cutâneas e estabilidade clínica. A coexistência de LMA e reação hansênica tipo 2 representa desafio terapêutico, pois o controle da inflamação hansênica depende de imunossupressão, enquanto a LMA exige quimioterapia mieloablativa e suporte imunológico. A imunossupressão exacerba o risco de infecções oportunistas, como estrongiloidíase disseminada e fusariose, ambas presentes neste caso. A decisão de suspender e reintroduzir corticoides foi guiada pelo balanço entre risco infeccioso e controle da reação hansênica. O manejo multidisciplinar (hematologia, dermatologia, infectologia, hepatologia e pneumologia) foi fundamental para o desfecho favorável inicial. O caso evidencia a complexidade diagnóstica e terapêutica de pacientes com LMA e reação hansênica tipo 2 concomitantes, ressaltando a importância de abordagem individualizada para controle da inflamação, prevenção de infecções graves e manutenção da terapia antileucêmica.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital de Clínicas Universidade Federal do Paraná (BR)
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Leprosy Research and Treatment
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