LINFOMA DE CÉLULAS B DE ALTO GRAU COM ABERRAÇÃO DO 11Q COMO DIFERENCIAL DE LINFOMA DE BURKITT

O linfoma de células B de alto grau com aberração do 11q (HGBCL-11q) é uma neoplasia linfóide agressiva rara, reconhecida recentemente como uma entidade distinta na classificação da OMS, compartilhando características morfológicas e imunofenotípicas com o linfoma de Burkitt, e ocorrendo sobretudo em pacientes jovens. Homem, 20 anos, previamente hígido, com antecedentes de rinite alérgica e asma desde a infância, procura avaliação com Hematologista por linfonodomegalia que persistia há meses em região supraclavicular direita, sem sintomas B. Realizado biópsia excisional com imunofenotipagem mostrando células CD19+ (83,2% do total de células) com expressão antigênica positiva para: CD10 (moderada), CD11c (fraca), CD20 (forte), CD22 (fraca), CD23 (fraca), CD79b (fraca), IgM (forte) e Kappa (forte); negativa para: CD5, CD25, CD38, CD43, CD103, CD123, CD200, FMC7, IgD, IgG e Lambda. Estudo histopatológico demonstrou proliferação monótona de células B de médio a grande porte, com múltiplos nucléolos, alto índice mitótico, corpos apoptóticos e padrão de “céu estrelado”, exibindo à imuno-histoquímica positividade para PAX5, CD20, CD10, bcl-6, c-myc e CD21, com Ki-67 de aproximadamente 100%. Estudo liquórico sem sinais de doença. Evidenciado em PET-CT linfonodomegalia supraclavicular direita (2,6 x 2,0 cm) com intenso hipermetabolismo (SUVmax: 36,2), além de captações menores em linfonodos cervicais, supraclaviculares à esquerda e subcarinais (SUVmax até 6,3). Com base nos achados que apontavam para linfoma de Burkitt, iniciado tratamento com R-DA-EPOCH. Posteriormente, no entanto, o resultado do FISH para rearranjo do c-MYC foi negativo. Visando não gerar custos adicionais ao paciente, realizou-se extração de DNA de amostra em bloco de parafina e, de modo off label, aplicou-se a técnica PGT-A (Preimplantation Genetic Testing for Aneuploidy), que identificou padrão de ganhos/perdas no braço longo do cromossomo 11, chegando-se ao diagnóstico de HGBCL-11q. O HGBCL-11q frequentemente se apresenta de forma localizada, envolvendo sobretudo a região da cabeça e pescoço (60%), e sem sintomas B, como neste caso. Ao anatomopatológico, apresenta-se de forma similar ao linfoma de Burkitt, comumente esboçando o clássico padrão de céu estrelado. Diante de casos com morfologia intermediária/blastoide ou Burkitt-like, com imunofenótipo de centro germinativo e ausência de translocação envolvendo MYC, devemos pensar na possibilidade de HGBCL-11q, que requer, para seu diagnóstico, a identificação no braço longo do cromossomo 11 de um padrão de ganho/perda ou perda telomérica ou perda de heterozigosidade (LOH) telomérica. Para tanto, pode ser utilizado FISH, porém, as técnicas de sequenciamento de nova geração (NGS) e array-CGH (array-based Comparative Genomic Hybridization) são as mais confiáveis. O caso apresentado ilustra a importância de considerar o HGBCL-11q no diagnóstico diferencial de linfomas B agressivos com morfologia semelhante ao linfoma de Burkitt, mas sem rearranjo de MYC.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104736
Primary Topic
Lymphoma Diagnosis and Treatment
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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article

LINFOMA DE CÉLULAS B DE ALTO GRAU COM ABERRAÇÃO DO 11Q COMO DIFERENCIAL DE LINFOMA DE BURKITT

PM Resende, Alexsandro Rodrigues Meireles, LGF Cortes, WKP Barros et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Lymphoma Diagnosis and Treatment
article

LINFOMA DE CÉLULAS B DE ALTO GRAU COM ABERRAÇÃO DO 11Q COMO DIFERENCIAL DE LINFOMA DE BURKITT

PM Resende, Alexsandro Rodrigues Meireles, LGF Cortes, WKP Barros, Lécia G. de Matos, N Hamerschlak, GA Vieira, NJK Souza Neto, JA Barbosa
article en

Abstract

O linfoma de células B de alto grau com aberração do 11q (HGBCL-11q) é uma neoplasia linfóide agressiva rara, reconhecida recentemente como uma entidade distinta na classificação da OMS, compartilhando características morfológicas e imunofenotípicas com o linfoma de Burkitt, e ocorrendo sobretudo em pacientes jovens. Homem, 20 anos, previamente hígido, com antecedentes de rinite alérgica e asma desde a infância, procura avaliação com Hematologista por linfonodomegalia que persistia há meses em região supraclavicular direita, sem sintomas B. Realizado biópsia excisional com imunofenotipagem mostrando células CD19+ (83,2% do total de células) com expressão antigênica positiva para: CD10 (moderada), CD11c (fraca), CD20 (forte), CD22 (fraca), CD23 (fraca), CD79b (fraca), IgM (forte) e Kappa (forte); negativa para: CD5, CD25, CD38, CD43, CD103, CD123, CD200, FMC7, IgD, IgG e Lambda. Estudo histopatológico demonstrou proliferação monótona de células B de médio a grande porte, com múltiplos nucléolos, alto índice mitótico, corpos apoptóticos e padrão de “céu estrelado”, exibindo à imuno-histoquímica positividade para PAX5, CD20, CD10, bcl-6, c-myc e CD21, com Ki-67 de aproximadamente 100%. Estudo liquórico sem sinais de doença. Evidenciado em PET-CT linfonodomegalia supraclavicular direita (2,6 x 2,0 cm) com intenso hipermetabolismo (SUVmax: 36,2), além de captações menores em linfonodos cervicais, supraclaviculares à esquerda e subcarinais (SUVmax até 6,3). Com base nos achados que apontavam para linfoma de Burkitt, iniciado tratamento com R-DA-EPOCH. Posteriormente, no entanto, o resultado do FISH para rearranjo do c-MYC foi negativo. Visando não gerar custos adicionais ao paciente, realizou-se extração de DNA de amostra em bloco de parafina e, de modo off label, aplicou-se a técnica PGT-A (Preimplantation Genetic Testing for Aneuploidy), que identificou padrão de ganhos/perdas no braço longo do cromossomo 11, chegando-se ao diagnóstico de HGBCL-11q. O HGBCL-11q frequentemente se apresenta de forma localizada, envolvendo sobretudo a região da cabeça e pescoço (60%), e sem sintomas B, como neste caso. Ao anatomopatológico, apresenta-se de forma similar ao linfoma de Burkitt, comumente esboçando o clássico padrão de céu estrelado. Diante de casos com morfologia intermediária/blastoide ou Burkitt-like, com imunofenótipo de centro germinativo e ausência de translocação envolvendo MYC, devemos pensar na possibilidade de HGBCL-11q, que requer, para seu diagnóstico, a identificação no braço longo do cromossomo 11 de um padrão de ganho/perda ou perda telomérica ou perda de heterozigosidade (LOH) telomérica. Para tanto, pode ser utilizado FISH, porém, as técnicas de sequenciamento de nova geração (NGS) e array-CGH (array-based Comparative Genomic Hybridization) são as mais confiáveis. O caso apresentado ilustra a importância de considerar o HGBCL-11q no diagnóstico diferencial de linfomas B agressivos com morfologia semelhante ao linfoma de Burkitt, mas sem rearranjo de MYC.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital Israelita Albert Einstein (BR)
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Lymphoma Diagnosis and Treatment
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