NOVOS HORIZONTES DE ABORDAGEM PARA ANTICOAGULAÇÃO EM fiM DE VIDA

O período denominado fim de vida corresponde à fase terminal de doenças crônicas progressivas, caracterizado por deterioração funcional contínua, ausência de possibilidade de cura e expectativa de vida limitada. Nesse contexto, o foco do cuidado passa a ser o alívio de sintomas e a adequação terapêutica às necessidades do paciente. A anticoagulação, prática amplamente utilizada na prevenção de eventos tromboembólicos, impõe dúvidas em relação à sua real indicação. O objetivo deste estudo é revisar os critérios utilizados para iniciar, manter ou suspender anticoagulantes no fim da vida, considerando os principais fatores clínicos envolvidos. Foi realizada uma busca na base de dados PUBMED utilizando os descritores Anticoagulation AND end of life AND antiplatelet. Foram incluídos artigos publicados a partir de 2020, resultando em 441 trabalhos e, após exclusão de séries e relatos de casos, oito deles foram selecionados por apresentarem metodologia consistente com bom nível de evidência científica. A decisão sobre o uso de anticoagulantes no fim da vida necessita considerar três elementos principais: risco de trombose, risco de sangramento e objetivos no cuidado do paciente. Em um estudo retrospectivo, 60% dos pacientes receberam antitrombóticos nos últimos 3 meses de vida, sendo que em 75,9% o tratamento foi mantido até a última semana. Com isso, diversas complicações hemorrágicas foram documentadas, sendo que as mais expressivas foram hematomas e dor, hemorragia pulmonar, hematoma subdural fatal e sangramentos associados a quedas. Em outro estudo, que envolvia portadores de próteses valvulares mecânicas, foi evidenciado que a maioria dos profissionais superestima o risco trombótico de modo a justificar a não suspensão do anticoagulante. Dados indiretos indicam que o risco real de eventos tromboembólicos é de ∼0,03 % ao dia, equivalente a ∼1 % em 30 dias, valor bastante baixo quando comparado à expectativa de vida limitada desses pacientes. Em um estudo de coorte, que avaliou pacientes com câncer avançado, foi constatado que o uso de antitrombóticos reduziu discretamente o risco de eventos tromboembólicos venosos, porém aumentou significativamente o risco de sangramentos, tornando incerto o benefício em pacientes com prognóstico limitado. O uso de heparina de baixo peso molecular tem sido opção em casos selecionados, especialmente quando há dificuldade na via oral. As evidências disponíveis sugerem que o uso de anticoagulantes em pacientes próximos ao fim de vida aumentam o risco de eventos hemorrágicos, por outro lado a sua suspensão raramente resulta em aumento significativo de eventos trombóticos ou mortalidade. Sendo assim, a avaliação deve ser individualizada, com discussão franca sobre riscos e benefícios, considerando as preferências do paciente e seus familiares. Protocolos clínicos podem apoiar a decisão clínica, promovendo cuidados alinhados a princípios de proporcionalidade terapêutica e qualidade de vida.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105043
Primary Topic
Healthcare during COVID-19 Pandemic
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

NOVOS HORIZONTES DE ABORDAGEM PARA ANTICOAGULAÇÃO EM fiM DE VIDA

VS Baltieri, Liliane Stédile de Matos, VTR Matos, Fernanda Paula Cerântola Siqueira et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Healthcare during COVID-19 Pandemic
article

NOVOS HORIZONTES DE ABORDAGEM PARA ANTICOAGULAÇÃO EM fiM DE VIDA

VS Baltieri, Liliane Stédile de Matos, VTR Matos, Fernanda Paula Cerântola Siqueira, GLS Cordeiro, LKA Rocha, LF Alves, Tiago Pereira Salgado, GPN Goequing, TMN Caldas
article en

Abstract

O período denominado fim de vida corresponde à fase terminal de doenças crônicas progressivas, caracterizado por deterioração funcional contínua, ausência de possibilidade de cura e expectativa de vida limitada. Nesse contexto, o foco do cuidado passa a ser o alívio de sintomas e a adequação terapêutica às necessidades do paciente. A anticoagulação, prática amplamente utilizada na prevenção de eventos tromboembólicos, impõe dúvidas em relação à sua real indicação. O objetivo deste estudo é revisar os critérios utilizados para iniciar, manter ou suspender anticoagulantes no fim da vida, considerando os principais fatores clínicos envolvidos. Foi realizada uma busca na base de dados PUBMED utilizando os descritores Anticoagulation AND end of life AND antiplatelet. Foram incluídos artigos publicados a partir de 2020, resultando em 441 trabalhos e, após exclusão de séries e relatos de casos, oito deles foram selecionados por apresentarem metodologia consistente com bom nível de evidência científica. A decisão sobre o uso de anticoagulantes no fim da vida necessita considerar três elementos principais: risco de trombose, risco de sangramento e objetivos no cuidado do paciente. Em um estudo retrospectivo, 60% dos pacientes receberam antitrombóticos nos últimos 3 meses de vida, sendo que em 75,9% o tratamento foi mantido até a última semana. Com isso, diversas complicações hemorrágicas foram documentadas, sendo que as mais expressivas foram hematomas e dor, hemorragia pulmonar, hematoma subdural fatal e sangramentos associados a quedas. Em outro estudo, que envolvia portadores de próteses valvulares mecânicas, foi evidenciado que a maioria dos profissionais superestima o risco trombótico de modo a justificar a não suspensão do anticoagulante. Dados indiretos indicam que o risco real de eventos tromboembólicos é de ∼0,03 % ao dia, equivalente a ∼1 % em 30 dias, valor bastante baixo quando comparado à expectativa de vida limitada desses pacientes. Em um estudo de coorte, que avaliou pacientes com câncer avançado, foi constatado que o uso de antitrombóticos reduziu discretamente o risco de eventos tromboembólicos venosos, porém aumentou significativamente o risco de sangramentos, tornando incerto o benefício em pacientes com prognóstico limitado. O uso de heparina de baixo peso molecular tem sido opção em casos selecionados, especialmente quando há dificuldade na via oral. As evidências disponíveis sugerem que o uso de anticoagulantes em pacientes próximos ao fim de vida aumentam o risco de eventos hemorrágicos, por outro lado a sua suspensão raramente resulta em aumento significativo de eventos trombóticos ou mortalidade. Sendo assim, a avaliação deve ser individualizada, com discussão franca sobre riscos e benefícios, considerando as preferências do paciente e seus familiares. Protocolos clínicos podem apoiar a decisão clínica, promovendo cuidados alinhados a princípios de proporcionalidade terapêutica e qualidade de vida.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Healthcare during COVID-19 Pandemic
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