MENSTRUAÇÃO ABUNDANTE EM ADOLESCENTES, QUANDO E COMO INVESTIGAR PARA DOENÇA DE VON WILLEBRAND

A prevalência de distúrbios hemorrágicos em adolescentes com menorragia gira em torno de 39%. Na atenção primária, os Bleeding Assessment Tools (BATs) validados têm sido úteis para triagem inicial dos pacientes. No contexto de clínicas especializadas ou na investigação de famílias com histórico positivo, os BATs não devem ser aplicados de forma isolada como único critério de decisão clínica. Este estudo visa clarear as indicações e estratégias mais adequadas para o rastreio de adolescentes com menorragia. Realizou-se revisão de literatura na base de dados PubMED a partir de 2020, utilizando os descritores: “Von Willebrand Diseases AND Menorrhagia.” A busca retornou 53 artigos; relatos e séries de caso foram excluídos, restando 7 artigos que abordavam diretamente os critérios e métodos para rastreio da Doença de von Willebrand (DvW) em adolescentes com menorragia, incluindo estudos observacionais, transversais e revisões sistemáticas. Adolescentes com menorragia encaminhadas a centros terciários têm representado uma oportunidade subaproveitada para diagnóstico precoce da DvW. Entre os preditores de risco estão: idade precoce no primeiro sangramento, etnia hispânica, ausência de atendimento emergencial, escore ISTH (Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia) BAT ≥4 e menor pontuação no subdomínio de sono da escala PedsQL™. O padrão menstrual, deficiência de ferro e fadiga não demonstraram ser preditores confiáveis. Os testes de triagem devem incluir: contagem plaquetária, TP, TTPa, fibrinogênio, dosagens do antígeno e da atividade do Fator de Von Willebrand (VWF). A quantificação da atividade do VWF < 30 UI/dL sugere fortemente DvW. Entre 30–50 UI/dL, o histórico clínico positivo é primordial para confirmação. A razão entre atividade e o antígeno do VWF ajuda a distinguir defeitos quantitativos de qualitativos. Durante o sangramento agudo, por exemplo, os níveis de VWF:Ag, VWF:RCo e FVIII tendem a se elevar. Apesar disso, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas tem recomendado realizar os testes mesmo nessas condições. No entanto, vale ressaltar que valores de VWF:Ag e VWF:RCo acima de 100 têm alto valor preditivo negativo. Adolescentes com menorragia têm sido historicamente sub- investigadas, mesmo diante de complicações clínicas significativas, o que pode comprometer sua qualidade de vida e gerar sobrecarga ao SUS. Postergar a avaliação pode resultar em perda de seguimento e atraso no diagnóstico, principalmente nos casos que requerem investigação durante episódios ativos de sangramento. Portanto, há necessidade de maior divulgação para o reconhecimento da doença e para a aplicação prática da investigação diagnóstica precoce e direcionada.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104953
Primary Topic
Hemophilia Treatment and Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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MENSTRUAÇÃO ABUNDANTE EM ADOLESCENTES, QUANDO E COMO INVESTIGAR PARA DOENÇA DE VON WILLEBRAND

Liliane Stédile de Matos, Vítor de Sousa, Filomena Nóbrega, E. dos S. de Sousa et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Hemophilia Treatment and Research
article

MENSTRUAÇÃO ABUNDANTE EM ADOLESCENTES, QUANDO E COMO INVESTIGAR PARA DOENÇA DE VON WILLEBRAND

Liliane Stédile de Matos, Vítor de Sousa, Filomena Nóbrega, E. dos S. de Sousa, GLS Cordeiro, Janaine Honorato da Silva, ADS Jesus, LKA Rocha, LF Alves
article en

Abstract

A prevalência de distúrbios hemorrágicos em adolescentes com menorragia gira em torno de 39%. Na atenção primária, os Bleeding Assessment Tools (BATs) validados têm sido úteis para triagem inicial dos pacientes. No contexto de clínicas especializadas ou na investigação de famílias com histórico positivo, os BATs não devem ser aplicados de forma isolada como único critério de decisão clínica. Este estudo visa clarear as indicações e estratégias mais adequadas para o rastreio de adolescentes com menorragia. Realizou-se revisão de literatura na base de dados PubMED a partir de 2020, utilizando os descritores: “Von Willebrand Diseases AND Menorrhagia.” A busca retornou 53 artigos; relatos e séries de caso foram excluídos, restando 7 artigos que abordavam diretamente os critérios e métodos para rastreio da Doença de von Willebrand (DvW) em adolescentes com menorragia, incluindo estudos observacionais, transversais e revisões sistemáticas. Adolescentes com menorragia encaminhadas a centros terciários têm representado uma oportunidade subaproveitada para diagnóstico precoce da DvW. Entre os preditores de risco estão: idade precoce no primeiro sangramento, etnia hispânica, ausência de atendimento emergencial, escore ISTH (Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia) BAT ≥4 e menor pontuação no subdomínio de sono da escala PedsQL™. O padrão menstrual, deficiência de ferro e fadiga não demonstraram ser preditores confiáveis. Os testes de triagem devem incluir: contagem plaquetária, TP, TTPa, fibrinogênio, dosagens do antígeno e da atividade do Fator de Von Willebrand (VWF). A quantificação da atividade do VWF < 30 UI/dL sugere fortemente DvW. Entre 30–50 UI/dL, o histórico clínico positivo é primordial para confirmação. A razão entre atividade e o antígeno do VWF ajuda a distinguir defeitos quantitativos de qualitativos. Durante o sangramento agudo, por exemplo, os níveis de VWF:Ag, VWF:RCo e FVIII tendem a se elevar. Apesar disso, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas tem recomendado realizar os testes mesmo nessas condições. No entanto, vale ressaltar que valores de VWF:Ag e VWF:RCo acima de 100 têm alto valor preditivo negativo. Adolescentes com menorragia têm sido historicamente sub- investigadas, mesmo diante de complicações clínicas significativas, o que pode comprometer sua qualidade de vida e gerar sobrecarga ao SUS. Postergar a avaliação pode resultar em perda de seguimento e atraso no diagnóstico, principalmente nos casos que requerem investigação durante episódios ativos de sangramento. Portanto, há necessidade de maior divulgação para o reconhecimento da doença e para a aplicação prática da investigação diagnóstica precoce e direcionada.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade de Brasília (BR)
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Hemophilia Treatment and Research
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