GLIOMA DE ALTO GRAU EM PACIENTE COM HISTÓRIA PRÉVIA DE LEUCEMIA LINFOBLÁSTICA AGUDA T

A leucemia linfoblástica aguda (LLA) é a neoplasia maligna mais frequente na infância, e o subtipo T (LLA-T) corresponde a cerca de 15% a 20% dos casos em crianças e adolescentes. O advento de protocolos de tratamento combinando poliquimioterapia intensiva, profilaxia do SNC — inicialmente com radioterapia craniana e atualmente substituída em grande parte por quimioterapia intratecal — e manutenção prolongada permitiu elevação expressiva das taxas de sobrevida. Em centros especializados, a sobrevida global em 5 anos para LLA-T em pacientes pediátricos e adolescentes pode superar 75%, e para LLA-B chega a 85-90%. O aumento da sobrevida tornou mais evidente a ocorrência de efeitos tardios do tratamento, que incluem toxicidades endócrinas, metabólicas, cardiovasculares, neurocognitivas e, em menor proporção, o desenvolvimento de segundas neoplasias malignas (SNM). Estas podem resultar de mutações induzidas por quimioterapia, radioterapia ou pela interação dessas terapias com predisposição genética subjacente. Os tumores sólidos do SNC como SNM, especialmente gliomas de alto grau, têm sido descritos principalmente em pacientes previamente expostos à radioterapia craniana. O presente relato descreve um caso de glioma de alto grau sem outras especificações (NOS) em paciente jovem previamente curado de LLA-T, discutindo a fisiopatologia, a evidência epidemiológica, os desafios diagnósticos e as opções terapêuticas disponíveis. Paciente masculino, 27 anos, história de LLA-T diagnosticada em 2016, SNC negativo, risco intermediário, foi submetido ao protocolo BFM 2009, com profilaxia de SNC que incluiu radioterapia craniana (12 Gy, 8 sessões, janeiro/2017). Após sete anos em remissão completa, apresentou episódio convulsivo tônico-clônico generalizado, sem déficit neurológico focal subsequente. A avaliação demonstrou glioma de alto grau (NOS) frontal direito, confirmado por estudo histopatológico e imuno- histoquímico, excluindo recaída leucêmica no sistema nervoso central (SNC). Realizada ressecção cirúrgica parcial, radioterapia adjuvante, e plano terapêutico com temozolomida. Discute-se a relação entre tratamento oncológico prévio e risco de SNM, com ênfase nos tumores primários do SNC, e a importância do seguimento prolongado de sobreviventes de câncer infantil e juvenil. O desenvolvimento de SNM após LLA é um evento raro, mas com implicações prognósticas severas. A incidência de SNM em sobreviventes desta condição varia entre 1% e 3% aos 10 anos. Os principais fatores de risco são: exposição à radioterapia, especialmente craniana, uso de agentes alquilantes e epipodofilotoxinas, idade jovem ao tratamento e predisposição genética (ex.: mutações TP53, síndrome de Li-Fraumeni) A radiação ionizante causa danos diretos ao DNA (quebras de dupla fita) e indiretos por geração de radicais livres, promovendo mutações irreversíveis e instabilidade genômica. Células do SNC, apesar de serem em grande parte pós-mitóticas, apresentam nichos progenitores sensíveis, especialmente na infância. A interação com quimioterapia citotóxica potencializa o risco, sinergizando o dano ao DNA e reduzindo a capacidade de reparo. Mesmo com protocolos modernos e doses reduzidas de radioterapia craniana, há risco concreto de desenvolvimento de SNM, inclusive no SNC. O acompanhamento de longo prazo deve integrar protocolos de vigilância para detecção precoce, buscando equilíbrio entre eficácia terapêutica e toxicidade tardia.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104549
Primary Topic
Chronic Lymphocytic Leukemia Research
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
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ALL TIME
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OCT
article

GLIOMA DE ALTO GRAU EM PACIENTE COM HISTÓRIA PRÉVIA DE LEUCEMIA LINFOBLÁSTICA AGUDA T

M Pinto Pereira, TB Soares, Júlia Plentz Portich, DH Catelli et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Chronic Lymphocytic Leukemia Research
article

GLIOMA DE ALTO GRAU EM PACIENTE COM HISTÓRIA PRÉVIA DE LEUCEMIA LINFOBLÁSTICA AGUDA T

M Pinto Pereira, TB Soares, Júlia Plentz Portich, DH Catelli, MPB Malcon, J Bayona Gazabon, RH Sassi, CP Manzaneda Castillo, IC Souza Riviera, C Caceres Astigarraga, MA Lopez NikolskIy
article en

Abstract

A leucemia linfoblástica aguda (LLA) é a neoplasia maligna mais frequente na infância, e o subtipo T (LLA-T) corresponde a cerca de 15% a 20% dos casos em crianças e adolescentes. O advento de protocolos de tratamento combinando poliquimioterapia intensiva, profilaxia do SNC — inicialmente com radioterapia craniana e atualmente substituída em grande parte por quimioterapia intratecal — e manutenção prolongada permitiu elevação expressiva das taxas de sobrevida. Em centros especializados, a sobrevida global em 5 anos para LLA-T em pacientes pediátricos e adolescentes pode superar 75%, e para LLA-B chega a 85-90%. O aumento da sobrevida tornou mais evidente a ocorrência de efeitos tardios do tratamento, que incluem toxicidades endócrinas, metabólicas, cardiovasculares, neurocognitivas e, em menor proporção, o desenvolvimento de segundas neoplasias malignas (SNM). Estas podem resultar de mutações induzidas por quimioterapia, radioterapia ou pela interação dessas terapias com predisposição genética subjacente. Os tumores sólidos do SNC como SNM, especialmente gliomas de alto grau, têm sido descritos principalmente em pacientes previamente expostos à radioterapia craniana. O presente relato descreve um caso de glioma de alto grau sem outras especificações (NOS) em paciente jovem previamente curado de LLA-T, discutindo a fisiopatologia, a evidência epidemiológica, os desafios diagnósticos e as opções terapêuticas disponíveis. Paciente masculino, 27 anos, história de LLA-T diagnosticada em 2016, SNC negativo, risco intermediário, foi submetido ao protocolo BFM 2009, com profilaxia de SNC que incluiu radioterapia craniana (12 Gy, 8 sessões, janeiro/2017). Após sete anos em remissão completa, apresentou episódio convulsivo tônico-clônico generalizado, sem déficit neurológico focal subsequente. A avaliação demonstrou glioma de alto grau (NOS) frontal direito, confirmado por estudo histopatológico e imuno- histoquímico, excluindo recaída leucêmica no sistema nervoso central (SNC). Realizada ressecção cirúrgica parcial, radioterapia adjuvante, e plano terapêutico com temozolomida. Discute-se a relação entre tratamento oncológico prévio e risco de SNM, com ênfase nos tumores primários do SNC, e a importância do seguimento prolongado de sobreviventes de câncer infantil e juvenil. O desenvolvimento de SNM após LLA é um evento raro, mas com implicações prognósticas severas. A incidência de SNM em sobreviventes desta condição varia entre 1% e 3% aos 10 anos. Os principais fatores de risco são: exposição à radioterapia, especialmente craniana, uso de agentes alquilantes e epipodofilotoxinas, idade jovem ao tratamento e predisposição genética (ex.: mutações TP53, síndrome de Li-Fraumeni) A radiação ionizante causa danos diretos ao DNA (quebras de dupla fita) e indiretos por geração de radicais livres, promovendo mutações irreversíveis e instabilidade genômica. Células do SNC, apesar de serem em grande parte pós-mitóticas, apresentam nichos progenitores sensíveis, especialmente na infância. A interação com quimioterapia citotóxica potencializa o risco, sinergizando o dano ao DNA e reduzindo a capacidade de reparo. Mesmo com protocolos modernos e doses reduzidas de radioterapia craniana, há risco concreto de desenvolvimento de SNM, inclusive no SNC. O acompanhamento de longo prazo deve integrar protocolos de vigilância para detecção precoce, buscando equilíbrio entre eficácia terapêutica e toxicidade tardia.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Hospital de Clínicas de Porto Alegre (BR)
Openalex Percentile: Top 57%
Chronic Lymphocytic Leukemia Research
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