ANÁLISE COMPARATIVA DO USO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS EM DOIS HOSPITAIS GERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

A transfusão de sangue representa uma das intervenções terapêuticas mais utilizadas no suporte clínico e cirúrgico. O Concentrado de Hemácias (CH) se destaca como o principal recurso terapêutico em múltiplas situações clínicas, desde episódios hemorrágicos até anemias refratárias. Apesar da padronização dos protocolos transfusionais estabelecidos por normativas nacionais e internacionais, a forma como os hemocomponentes são utilizados varia significativamente entre as instituições, refletindo o perfil assistencial, a complexidade clínica e as características socioeconômicas da população local. Avaliar e comparar o perfil de utilização de CH entre duas instituições hospitalares com naturezas assistenciais distintas, identificando os setores com maior demanda, as principais indicações e, sobretudo, as implicações clínicas e logísticas que essas diferenças geram no manejo transfusional. Os dados foram extraídos do sistema RealBlood® de dois hospitais localizados no estado do Rio de Janeiro: o Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI), unidade pública situada na Baixada Fluminense, e a Casa de Saúde São José (CSSJ), hospital privado de médio porte situado na zona sul da capital. O período foi de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025. O CH foi o hemocomponente mais utilizado em ambos serviços, sendo 7619 (86,24%) no HGNI e, 1939 (55,61%) na CSSJ. No CSSJ, os diagnósticos mais frequentes foram: anemia a esclarecer (35%) e anemia sintomática (14%), seguido por sepse, pneumonia e fratura de fêmur. As unidades com maior consumo foram: terapia intensiva (46%) e semi-intensivas (17%). O perfil predominante de pacientes foi idosos com comorbidades e internados para suporte clínico. Já no HGNI, os diagnósticos prevalentes foram choque hemorrágico, metrorragia e hemorragia digestiva alta ‒ condições agudas e de gravidade. Os maiores volumes transfusionais se concentraram nas enfermarias (3.228), emergência (1.703) e centro cirúrgico (843). A instituição atende, no geral, pacientes jovens, vítimas de trauma ou com necessidade de cirurgias de urgência. À primeira vista, parece que os hospitais seguem o mesmo padrão transfusional dada a predominância do uso de CH, porem sua participação no total de hemocomponentes transfundidos e as razões clínicas que justificam o uso expõem realidades distintas. No HGNI, hospital público de grande porte e foco emergencial, a urgência dita o ritmo do cuidado com pacientes admitidos em estado crítico, exigindo intervenções imediatas. É uma instituição porta aberta, em uma região com altos índices de violência, o que justifica o protagonismo da emergência e do centro cirúrgico no uso do sangue. Já na CSSJ, instituição privada e voltada ao cuidado crônico, a demanda transfusional é mais equilibrada e programada. A maior proporção de plaquetas e plasmas transfundidos sugere condutas terapêuticas mais diversificadas, voltadas para estabilidade clínica, controle de coagulopatias e suporte em procedimentos eletivos. Ainda que os serviços compartilhem a centralidade dos CH na prática transfusional, os motivos e as circunstâncias de sua utilização diferem. Essa constatação reforça a importância de se pensar a gestão do sangue não apenas sob a ótica quantitativa, mas sobretudo qualitativa, respeitando as nuances assistenciais de cada serviço. Logo para uma política transfusional eficiente, devemos trabalhar sua aplicação racional, segura e contextualizada à realidade de cada hospital.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105978
Primary Topic
Blood transfusion and management
Type
article
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ANÁLISE COMPARATIVA DO USO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS EM DOIS HOSPITAIS GERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

R N S Aguiar, P.V. Santos, F Akil, Themes Susana Andrade de Alencar
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Blood transfusion and management
article

ANÁLISE COMPARATIVA DO USO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS EM DOIS HOSPITAIS GERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

R N S Aguiar, P.V. Santos, F Akil, Themes Susana Andrade de Alencar
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Abstract

A transfusão de sangue representa uma das intervenções terapêuticas mais utilizadas no suporte clínico e cirúrgico. O Concentrado de Hemácias (CH) se destaca como o principal recurso terapêutico em múltiplas situações clínicas, desde episódios hemorrágicos até anemias refratárias. Apesar da padronização dos protocolos transfusionais estabelecidos por normativas nacionais e internacionais, a forma como os hemocomponentes são utilizados varia significativamente entre as instituições, refletindo o perfil assistencial, a complexidade clínica e as características socioeconômicas da população local. Avaliar e comparar o perfil de utilização de CH entre duas instituições hospitalares com naturezas assistenciais distintas, identificando os setores com maior demanda, as principais indicações e, sobretudo, as implicações clínicas e logísticas que essas diferenças geram no manejo transfusional. Os dados foram extraídos do sistema RealBlood® de dois hospitais localizados no estado do Rio de Janeiro: o Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI), unidade pública situada na Baixada Fluminense, e a Casa de Saúde São José (CSSJ), hospital privado de médio porte situado na zona sul da capital. O período foi de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025. O CH foi o hemocomponente mais utilizado em ambos serviços, sendo 7619 (86,24%) no HGNI e, 1939 (55,61%) na CSSJ. No CSSJ, os diagnósticos mais frequentes foram: anemia a esclarecer (35%) e anemia sintomática (14%), seguido por sepse, pneumonia e fratura de fêmur. As unidades com maior consumo foram: terapia intensiva (46%) e semi-intensivas (17%). O perfil predominante de pacientes foi idosos com comorbidades e internados para suporte clínico. Já no HGNI, os diagnósticos prevalentes foram choque hemorrágico, metrorragia e hemorragia digestiva alta ‒ condições agudas e de gravidade. Os maiores volumes transfusionais se concentraram nas enfermarias (3.228), emergência (1.703) e centro cirúrgico (843). A instituição atende, no geral, pacientes jovens, vítimas de trauma ou com necessidade de cirurgias de urgência. À primeira vista, parece que os hospitais seguem o mesmo padrão transfusional dada a predominância do uso de CH, porem sua participação no total de hemocomponentes transfundidos e as razões clínicas que justificam o uso expõem realidades distintas. No HGNI, hospital público de grande porte e foco emergencial, a urgência dita o ritmo do cuidado com pacientes admitidos em estado crítico, exigindo intervenções imediatas. É uma instituição porta aberta, em uma região com altos índices de violência, o que justifica o protagonismo da emergência e do centro cirúrgico no uso do sangue. Já na CSSJ, instituição privada e voltada ao cuidado crônico, a demanda transfusional é mais equilibrada e programada. A maior proporção de plaquetas e plasmas transfundidos sugere condutas terapêuticas mais diversificadas, voltadas para estabilidade clínica, controle de coagulopatias e suporte em procedimentos eletivos. Ainda que os serviços compartilhem a centralidade dos CH na prática transfusional, os motivos e as circunstâncias de sua utilização diferem. Essa constatação reforça a importância de se pensar a gestão do sangue não apenas sob a ótica quantitativa, mas sobretudo qualitativa, respeitando as nuances assistenciais de cada serviço. Logo para uma política transfusional eficiente, devemos trabalhar sua aplicação racional, segura e contextualizada à realidade de cada hospital.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Blood transfusion and management
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