O FENÓTIPO PARA-BOMBAY E SEU DIAGNÓSTICO: RELATO DE CASO

O fenótipo para-Bombay, apesar de extremamente raro no Ocidente, possui uma incidência de 1:12.000 habitantes na China e caracteriza-se pela herança homozigota do gene não funcional FUT1 responsável pela expressão do antígeno H associada a herança funcional do gene FUT2 responsável pela produção de antígeno H em secreções. Dessa forma, indivíduos para- Bombay são deficientes do antígeno H nas hemácias, porém podem eventualmente expressar pequenas quantidades de antígenos A ou B devido a adsorção passiva ou conversão por uma transferase H de atividade fraca. Paciente feminina, de 36 anos, natural de Singapura e de pais chineses, sem comorbidades e gestante de 25 semanas encaminhada para a hemoterapia devido a discrepância ABO nos testes de pré-natal. Ao realizar os exames, os resultados da prova direta não apresentaram aglutinação com Anti-A, Anti-B e Anti-AB e reagiram 4+ na tipagem RHD. Já a reversa apresentou aglutinação em temperatura ambiente somente na hemácia B. Foi testada a presença de antígeno H nas hemácias da gestante utilizando Lectina Anti-H, com resultado negativo. Nos testes a 4°C não houve variação nos resultados da tipagem direta, porém na tipagem reversa de A apresentou 1+ de aglutinação, e com hemácias da triagem apresentou 2+, já na fase de Coombs foi negativo. Realizada adsorção e eluição, onde também não foi visualizado presença de Antígenos A ou B e fenotipagem (Lea- Leb+). A amostra foi enviada para genotipagem, o resultado foi FUT1*01N.13/01N.13 ABO*0.01.02/A1.02, demonstrando presença do gene A e detectada uma deleção c.881_882delTT no gene FUT1, o que leva ao fenótipo H- nas hemácias. A paciente em questão apresentava uma discrepância ABO na qual a prova direta era compatível com grupo O e a reversa com grupo A. A pesquisa da lectina anti H demonstrou ausência do antígeno H na superfície das hemácias e os testes realizados a 4 C reagiram tanto na reversa de A quanto na de B. Os resultados foram sugestivos para a presença dos anticorpos HI porém com reatividade apenas a 4 C. Além disso, o fenótipo Leb+ indica que a paciente seria secretora do antígeno H. A genotipagem realizada para complementação confirmou uma deleção no gene FUT1, responsável pela expressão do antígeno H nas hemácias, porém uma manutenção do gene FUT2 responsável pela expressão do antígeno H nas secreções. Nesses casos, na falta de sangue do tipo para-Bombay, está autorizada a transfusão de bolsas ABO compatíveis. Os anticorpos anti HI não possuem significância clínica quando reativos apenas a frio conferindo uma segurança na transfusão de bolsas ABO compatíveis (bolsas do tipo A no caso em questão). Pacientes Para-Bombay podem desenvolver anti H ou anti HI sendo estes anticorpos, por possuírem amplitude térmica elevada, considerados de relevância clínica caso reativos a temperatura de 37 C. Nestes casos, somente sangue Bombay ou Para-Bombay seria compatível. O trabalho reforça a importância de uma investigação completa de casos de discrepância ABO envolvendo indivíduos oriundos de outras regiões do mundo ou seus descendentes.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.105662
Primary Topic
Genomics and Rare Diseases
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
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O FENÓTIPO PARA-BOMBAY E SEU DIAGNÓSTICO: RELATO DE CASO

M Valvasori, EP Araujo, KB Fonseca, LP Osorio
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Genomics and Rare Diseases
article

O FENÓTIPO PARA-BOMBAY E SEU DIAGNÓSTICO: RELATO DE CASO

M Valvasori, EP Araujo, KB Fonseca, LP Osorio
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Abstract

O fenótipo para-Bombay, apesar de extremamente raro no Ocidente, possui uma incidência de 1:12.000 habitantes na China e caracteriza-se pela herança homozigota do gene não funcional FUT1 responsável pela expressão do antígeno H associada a herança funcional do gene FUT2 responsável pela produção de antígeno H em secreções. Dessa forma, indivíduos para- Bombay são deficientes do antígeno H nas hemácias, porém podem eventualmente expressar pequenas quantidades de antígenos A ou B devido a adsorção passiva ou conversão por uma transferase H de atividade fraca. Paciente feminina, de 36 anos, natural de Singapura e de pais chineses, sem comorbidades e gestante de 25 semanas encaminhada para a hemoterapia devido a discrepância ABO nos testes de pré-natal. Ao realizar os exames, os resultados da prova direta não apresentaram aglutinação com Anti-A, Anti-B e Anti-AB e reagiram 4+ na tipagem RHD. Já a reversa apresentou aglutinação em temperatura ambiente somente na hemácia B. Foi testada a presença de antígeno H nas hemácias da gestante utilizando Lectina Anti-H, com resultado negativo. Nos testes a 4°C não houve variação nos resultados da tipagem direta, porém na tipagem reversa de A apresentou 1+ de aglutinação, e com hemácias da triagem apresentou 2+, já na fase de Coombs foi negativo. Realizada adsorção e eluição, onde também não foi visualizado presença de Antígenos A ou B e fenotipagem (Lea- Leb+). A amostra foi enviada para genotipagem, o resultado foi FUT1*01N.13/01N.13 ABO*0.01.02/A1.02, demonstrando presença do gene A e detectada uma deleção c.881_882delTT no gene FUT1, o que leva ao fenótipo H- nas hemácias. A paciente em questão apresentava uma discrepância ABO na qual a prova direta era compatível com grupo O e a reversa com grupo A. A pesquisa da lectina anti H demonstrou ausência do antígeno H na superfície das hemácias e os testes realizados a 4 C reagiram tanto na reversa de A quanto na de B. Os resultados foram sugestivos para a presença dos anticorpos HI porém com reatividade apenas a 4 C. Além disso, o fenótipo Leb+ indica que a paciente seria secretora do antígeno H. A genotipagem realizada para complementação confirmou uma deleção no gene FUT1, responsável pela expressão do antígeno H nas hemácias, porém uma manutenção do gene FUT2 responsável pela expressão do antígeno H nas secreções. Nesses casos, na falta de sangue do tipo para-Bombay, está autorizada a transfusão de bolsas ABO compatíveis. Os anticorpos anti HI não possuem significância clínica quando reativos apenas a frio conferindo uma segurança na transfusão de bolsas ABO compatíveis (bolsas do tipo A no caso em questão). Pacientes Para-Bombay podem desenvolver anti H ou anti HI sendo estes anticorpos, por possuírem amplitude térmica elevada, considerados de relevância clínica caso reativos a temperatura de 37 C. Nestes casos, somente sangue Bombay ou Para-Bombay seria compatível. O trabalho reforça a importância de uma investigação completa de casos de discrepância ABO envolvendo indivíduos oriundos de outras regiões do mundo ou seus descendentes.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Grupo Hospitalar Conceição (BR), Fleury S.A. (Brazil) (BR)
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Genomics and Rare Diseases
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