PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA E DOENÇA DE CUSHING: RELATO DE CASO

A púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) é uma microangiopatia rara e grave, caracterizada por Anemia Hemolítica Microangiopática (MAHA), trombocitopenia e disfunção de órgãos, como insuficiência renal e alterações neurológicas. A forma adquirida resulta da deficiência severa da atividade da enzima ADAMTS13 (<10%), devido a autoanticorpos inibidores. Eventos inflamatórios, infecciosos ou cirúrgicos podem precipitar a manifestação clínica da PTT. Já a Síndrome de Cushing, patologia endocrinológica caracterizada por exposição crônica a níveis elevados de glicocorticoides, especialmente na forma hipofisária (doença de Cushing), pode atuar como fator precipitante da PTT, induzindo um estado pró-trombótico, por meio do aumento de fatores pró-coagulantes, redução de anticoagulantes naturais, disfunção endotelial e estase venosa. Paciente feminina, 22 anos, com diagnóstico prévio de doença de Cushing secundária a macroadenoma hipofisário, em seguimento endocrinológico e uso de cabergolina, com cirurgia hipofisária programada. Procurou o pronto-socorro com dor abdominal e febre. Exames laboratoriais iniciais revelaram anemia (Hb = 8,5 g/dL), plaquetopenia grave (7.000 mm 3 ) e disfunção renal (Cr= 2,1 mg/dL), além de DHL elevada (1681 U/L) e bilirrubina total 2,2 mg/dL. Diante dos resultados, foi realizado esfregaço de sangue periférico com evidência de esquizócitos. O teste de Coombs direto foi negativo. A hipótese de PTT foi considerada, iniciando tratamento imediato com plasmaférese, além da dosagem de ADAMTS13, que teve como resultado atividade inferior a 0,2%, confirmando assim o diagnóstico de PTT. A paciente recebeu 13 sessões consecutivas de plasmaférese, seguidas por espaçamento progressivo após estabilização plaquetária. Devido à doença de Cushing ativa, optou-se por não utilizar corticosteroides e após 28 dias de evolução clínica estável, foi iniciada azatioprina 150 mg/dia como alternativa. Por parte da endocrinologia foi mantida cabergolina e introduzido cetoconazol. A associação entre síndrome de Cushing e PTT é rara, mas fisiopatologicamente plausível. O hipercortisolismo pode induzir disfunção endotelial, aumentar a persistência de multímeros do fator de von Willebrand e favorecer a produção de autoanticorpos contra ADAMTS13. O manejo da PTT nesse contexto é desafiador, sobretudo pela contraindicação relativa ao uso de corticosteroides, normalmente parte do tratamento padrão. Neste caso, o desfecho favorável foi alcançado por meio de plasmaférese, controle do eixo endócrino e imunossupressão alternativa. Este relato destaca a importância do reconhecimento precoce da PTT e da investigação de fatores precipitantes atípicos, como o hipercortisolismo endógeno. O tratamento individualizado, sem corticosteroides, mostrou-se eficaz e seguro, reforçando a necessidade de estratégias terapêuticas adaptadas a contextos clínicos complexos.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104993
Primary Topic
Complement system in diseases
Type
article
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PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA E DOENÇA DE CUSHING: RELATO DE CASO

José Wellington de Souza, J. O. CAMPOS, L.F. Brito, G. S. ROSA et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Complement system in diseases
article

PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA E DOENÇA DE CUSHING: RELATO DE CASO

José Wellington de Souza, J. O. CAMPOS, L.F. Brito, G. S. ROSA, DE Fujimoto, Jean Lucas Oliveira de Almeida, BS de Oliveira, André Mauric Frossard Ribeiro, ACP Veronez, MF Passolongo
article en

Abstract

A púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) é uma microangiopatia rara e grave, caracterizada por Anemia Hemolítica Microangiopática (MAHA), trombocitopenia e disfunção de órgãos, como insuficiência renal e alterações neurológicas. A forma adquirida resulta da deficiência severa da atividade da enzima ADAMTS13 (<10%), devido a autoanticorpos inibidores. Eventos inflamatórios, infecciosos ou cirúrgicos podem precipitar a manifestação clínica da PTT. Já a Síndrome de Cushing, patologia endocrinológica caracterizada por exposição crônica a níveis elevados de glicocorticoides, especialmente na forma hipofisária (doença de Cushing), pode atuar como fator precipitante da PTT, induzindo um estado pró-trombótico, por meio do aumento de fatores pró-coagulantes, redução de anticoagulantes naturais, disfunção endotelial e estase venosa. Paciente feminina, 22 anos, com diagnóstico prévio de doença de Cushing secundária a macroadenoma hipofisário, em seguimento endocrinológico e uso de cabergolina, com cirurgia hipofisária programada. Procurou o pronto-socorro com dor abdominal e febre. Exames laboratoriais iniciais revelaram anemia (Hb = 8,5 g/dL), plaquetopenia grave (7.000 mm 3 ) e disfunção renal (Cr= 2,1 mg/dL), além de DHL elevada (1681 U/L) e bilirrubina total 2,2 mg/dL. Diante dos resultados, foi realizado esfregaço de sangue periférico com evidência de esquizócitos. O teste de Coombs direto foi negativo. A hipótese de PTT foi considerada, iniciando tratamento imediato com plasmaférese, além da dosagem de ADAMTS13, que teve como resultado atividade inferior a 0,2%, confirmando assim o diagnóstico de PTT. A paciente recebeu 13 sessões consecutivas de plasmaférese, seguidas por espaçamento progressivo após estabilização plaquetária. Devido à doença de Cushing ativa, optou-se por não utilizar corticosteroides e após 28 dias de evolução clínica estável, foi iniciada azatioprina 150 mg/dia como alternativa. Por parte da endocrinologia foi mantida cabergolina e introduzido cetoconazol. A associação entre síndrome de Cushing e PTT é rara, mas fisiopatologicamente plausível. O hipercortisolismo pode induzir disfunção endotelial, aumentar a persistência de multímeros do fator de von Willebrand e favorecer a produção de autoanticorpos contra ADAMTS13. O manejo da PTT nesse contexto é desafiador, sobretudo pela contraindicação relativa ao uso de corticosteroides, normalmente parte do tratamento padrão. Neste caso, o desfecho favorável foi alcançado por meio de plasmaférese, controle do eixo endócrino e imunossupressão alternativa. Este relato destaca a importância do reconhecimento precoce da PTT e da investigação de fatores precipitantes atípicos, como o hipercortisolismo endógeno. O tratamento individualizado, sem corticosteroides, mostrou-se eficaz e seguro, reforçando a necessidade de estratégias terapêuticas adaptadas a contextos clínicos complexos.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
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Complement system in diseases
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