EVOLUÇÃO DE MIELOFIBROSE SECUNDÁRIA ASSOCIADA A POLICITEMIA VERA E TRAÇO FALCIFORME EM PACIENTE IDOSA PORTADORA DA VARIANTE JAK2V617F: RELATO DE CASO

A mielofibrose (MF) é uma neoplasia mieloproliferativa BCR::ABL1 negativa rara (0,6/100.000 indivíduos), que se origina de processos advindos da desregulação hematopoiética (mielofibrose primária) ou por evolução de outras neoplasias hematológicas (mielofibrose secundária), como a policitemia vera (PV). Cerca de 10 a 15% dos pacientes com PV podem evoluir para mielofibrose (MF pós-PV), no qual fatores clínicos e alterações genéticas podem exercer influência durante o processo. A coexistência com outras condições hematológicas é rara e ainda está em processo de compreensão etiopatogênica. Este relato descreve o caso de uma paciente com PV e traço falciforme, evidenciando implicações diagnósticas, achados genéticas e desfecho. Paciente feminina, 78 anos (2021), identificada pela análise de prontuários médicos na Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas. Apresentou diagnóstico inicial de PV (2015) aos 71 anos, associada a traço falciforme com evolução para MF pós-PV. Não apresentou eventos hemorrágicos, trombóticos ou esplenomegalia. Na triagem molecular, foram identificadas a variante driver JAK2V617F ( rs77375493 : T/T; Frequência alélica variante - VAF: 100%), rs2230722 (T/T), rs2230724 (A/A), e haplótipo 46/1 ( rs10974944 : G/G) em JAK2 , entretanto, variantes CALR e MPL não foram identificadas. Seu tratamento inicial baseou-se no uso de hidroxiureia (HU) 2 cp/dia associada a ácido acetilsalicílico (AAS), evoluiu para uso de anagrelida por necessidade de controle citorredutivo. Hemograma realizado no momento da triagem molecular demonstrou uma anemia noromocítica normocrômica (RBC: 3,6 x 10 6 /mm 3 ; Hb: 11,1 g/dL; Ht: 33,5%; VCM: 93,1 fL; HCM: 30,8 pg), leucócitos (WBC: 10.050/mm 3 ) e plaquetas (356.000/mm 3 ) dentro do valor de referência. Desidrogenase lática (LDH: 1284,8 U/L), fibrinogênio (546 mg/dL) e ácido úrico (7,7 mg/dL) apresentaram-se elevados. Análise morfológica do esfregaço sanguíneo revelou discreto desvio à esquerda (bastões: 7%; metamielócitos: 5%; mielócitos: 2%), presença de eritroblastos (21/100), linfopenia (21%) e blastos (2%). Apresentou piora do seu quadro e evoluiu a óbito em 2022. A MF pós-PV é um evento complexo que pode ser acelerado por comorbidades e alterações genéticas em especial a combinação da variante driver JAK2V61F e o haplótipo 46/1_G em homozigose. Essa homozigose geralmente ocorre como consequência da perda neutra de heterozigosidade do número de cópias do cromossomo 9p, que acompanha as variantes e a reduzem a um estado homozigoto, condição frequente em paciente em evolução neoplásica dessas condições hematológicas. JAK2V617F promove a ativação constitutiva de JAK2/STAT, garantido a vantagem clonal. O traço falciforme pode ter exercido papel no estresse eritropoiético e acentuado a remodelação do microambiente medular, favorecendo a deposição de fibrose na medula. Sugere-se um fenótipo neoplásico não hipersplênico devido à ausência de esplenomegalia, entretanto, o aumento de LDH evidencia um turnover celular acentuado. A mudança no tratamento reflete a tentativa de controle dos sintomas, porém a progressão clínica indica refratariedade. MF pós-PV é uma condição rara e sua associação com traço falciforme é incomum. A junção desses complexos cenários pode ter contribuído para o curso clínico da doença na paciente. Este caso demonstra a importância do acompanhamento contínuo, bem como o uso de dados genéticos e laboratoriais para orientar as intervenções médicas.

Authors

Institutions

Publication Details

Journal
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Published
2025-10-01
DOI
https://doi.org/10.1016/j.htct.2025.104422
Primary Topic
Myeloproliferative Neoplasms: Diagnosis and Treatment
Type
article
Field-Weighted Citation Impact
0.00
Controls
|||
ALL TIME
JAN
FEB
MAR
APR
MAY
JUN
JUL
AUG
SEP
OCT
article

EVOLUÇÃO DE MIELOFIBROSE SECUNDÁRIA ASSOCIADA A POLICITEMIA VERA E TRAÇO FALCIFORME EM PACIENTE IDOSA PORTADORA DA VARIANTE JAK2V617F: RELATO DE CASO

V. L. da Costa, G. B. R. SILVA, JF Paes, LPdS Mourão et al.
Hematology Transfusion and Cell Therapy
Myeloproliferative Neoplasms: Diagnosis and Treatment
article

EVOLUÇÃO DE MIELOFIBROSE SECUNDÁRIA ASSOCIADA A POLICITEMIA VERA E TRAÇO FALCIFORME EM PACIENTE IDOSA PORTADORA DA VARIANTE JAK2V617F: RELATO DE CASO

V. L. da Costa, G. B. R. SILVA, JF Paes, LPdS Mourão, AM Tarragô, J.R.F. da Rocha, MOD Nascimento, DIG Torres, EVB Alves
article en

Abstract

A mielofibrose (MF) é uma neoplasia mieloproliferativa BCR::ABL1 negativa rara (0,6/100.000 indivíduos), que se origina de processos advindos da desregulação hematopoiética (mielofibrose primária) ou por evolução de outras neoplasias hematológicas (mielofibrose secundária), como a policitemia vera (PV). Cerca de 10 a 15% dos pacientes com PV podem evoluir para mielofibrose (MF pós-PV), no qual fatores clínicos e alterações genéticas podem exercer influência durante o processo. A coexistência com outras condições hematológicas é rara e ainda está em processo de compreensão etiopatogênica. Este relato descreve o caso de uma paciente com PV e traço falciforme, evidenciando implicações diagnósticas, achados genéticas e desfecho. Paciente feminina, 78 anos (2021), identificada pela análise de prontuários médicos na Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas. Apresentou diagnóstico inicial de PV (2015) aos 71 anos, associada a traço falciforme com evolução para MF pós-PV. Não apresentou eventos hemorrágicos, trombóticos ou esplenomegalia. Na triagem molecular, foram identificadas a variante driver JAK2V617F ( rs77375493 : T/T; Frequência alélica variante - VAF: 100%), rs2230722 (T/T), rs2230724 (A/A), e haplótipo 46/1 ( rs10974944 : G/G) em JAK2 , entretanto, variantes CALR e MPL não foram identificadas. Seu tratamento inicial baseou-se no uso de hidroxiureia (HU) 2 cp/dia associada a ácido acetilsalicílico (AAS), evoluiu para uso de anagrelida por necessidade de controle citorredutivo. Hemograma realizado no momento da triagem molecular demonstrou uma anemia noromocítica normocrômica (RBC: 3,6 x 10 6 /mm 3 ; Hb: 11,1 g/dL; Ht: 33,5%; VCM: 93,1 fL; HCM: 30,8 pg), leucócitos (WBC: 10.050/mm 3 ) e plaquetas (356.000/mm 3 ) dentro do valor de referência. Desidrogenase lática (LDH: 1284,8 U/L), fibrinogênio (546 mg/dL) e ácido úrico (7,7 mg/dL) apresentaram-se elevados. Análise morfológica do esfregaço sanguíneo revelou discreto desvio à esquerda (bastões: 7%; metamielócitos: 5%; mielócitos: 2%), presença de eritroblastos (21/100), linfopenia (21%) e blastos (2%). Apresentou piora do seu quadro e evoluiu a óbito em 2022. A MF pós-PV é um evento complexo que pode ser acelerado por comorbidades e alterações genéticas em especial a combinação da variante driver JAK2V61F e o haplótipo 46/1_G em homozigose. Essa homozigose geralmente ocorre como consequência da perda neutra de heterozigosidade do número de cópias do cromossomo 9p, que acompanha as variantes e a reduzem a um estado homozigoto, condição frequente em paciente em evolução neoplásica dessas condições hematológicas. JAK2V617F promove a ativação constitutiva de JAK2/STAT, garantido a vantagem clonal. O traço falciforme pode ter exercido papel no estresse eritropoiético e acentuado a remodelação do microambiente medular, favorecendo a deposição de fibrose na medula. Sugere-se um fenótipo neoplásico não hipersplênico devido à ausência de esplenomegalia, entretanto, o aumento de LDH evidencia um turnover celular acentuado. A mudança no tratamento reflete a tentativa de controle dos sintomas, porém a progressão clínica indica refratariedade. MF pós-PV é uma condição rara e sua associação com traço falciforme é incomum. A junção desses complexos cenários pode ter contribuído para o curso clínico da doença na paciente. Este caso demonstra a importância do acompanhamento contínuo, bem como o uso de dados genéticos e laboratoriais para orientar as intervenções médicas.

Hematology Transfusion and Cell TherapyVol. 47
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) (BR), Escola Superior de Ciências da Saúde (BR), Universidade do Estado do Amazonas (BR), Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (BR), Universidade Federal do Amazonas (BR)
Openalex Percentile: Top 57%
Myeloproliferative Neoplasms: Diagnosis and Treatment
AI Navigator

Ask Laika to Summarize, Analyze, and Connect papers live on the map.

Summarize Papers & Methodologies

Extract key findings, datasets, and comparative methods across publications.

Benchmark Rankings & Visual Analytics

Rank top research institutions, authors, funders, topics, and journals by Field-Weighted Citation Impact (FWCI) and paper volume with instant charts.

Connect Distant Disciplines

Bridge topological clusters on the map to find hidden collaborative intersections.